Anos 2000: década perdida para os investidores norte-americanos?

Muito se comenta sobre as diversas crises – bolha da Nasdaq, crise do suprime, quebra de bancos – que afetaram as Bolsas americanas, e de como elas impactaram profundamente a vida de milhões de cidadãos, cujos fundos de pensão e planos de aposentadoria sofreram enormes perdas, obrigando-os até a adiarem o momento de “pendurar as chuteiras”.

Um artigo escrito no New York Times demonstrou a importância da montagem de uma estratégia de investimentos focada na diversificação, disciplina e alocação de ativos.

Diversificação significa não concentrar seu portfólio numa só classe de ativos. Por exemplo, não concentrar tudo em ações. Disciplina significa fazer aportes regularmente, e não investir tudo de uma só vez, e parar, agindo como um típico investidor-torcedor. E, finalmente, alocação de ativos significa equilibrar o portfólio com dinheiro distribuído em diferentes classes de investimentos, com parâmetros objetivos de rebalanceamento.

Vamos aos estudos objeto da pesquisa realizada para aquele artigo.

Investimento concentrado 100% em um único fundo de ações, de uma só vez

Suponha que o investidor tenha feito um aporte único de US$ 100 mil em 1º de janeiro de 2000, num fundo que contempla um índice amplo de ações, o S&P 500, que seria mais ou menos como o IBovespa dos gringos, guardadas as devidas proporções, claro (tendo em vista que o S&P 500 engloba 500 empresas, e o nosso Ibovespa abrange pouco mais de 60 empresas).

Deixando o dinheiro parado lá, e não investindo quantia adicional alguma nos anos seguintes, ele veria os 100k iniciais se transformarem em, pasmem, meros US$ 89k em dezembro de 2009. Ajustado pela inflação, os $ 100k iniciais valeriam somente $ 69k – embora saibamos que a inflação deva ser interpretada com as devidas cautelas.

Esse é o perigo de: (a) investir altas somas de uma só vez; (b) investi-las somente em uma classe de ativos; (c) investi-las sem aportes adicionais, “torcendo” para o dinheiro crescer.

Investimento repartido: 50% em dois fundos de ações, ainda de uma só vez

Vamos adicionar um ingrediente ao investimento: o tempero da diversificação.

Considere que o investidor tenha aportado $ 50k num fundo de ações que represente um índice mais amplo, o Vanguard Total Stock Market Index Fund, que seria mais ou menos como o nosso BRAX11. E outros $ 50k num fundo de ações estrangeiras, que nos Estados Unidos é muito comum.

O resultado já é melhor. Os $ 100k iniciais se transformariam, sem aportes adicionais alguns, em $ 109.334. Ainda assim, o investimento inicial seria corroído pela inflação, convertendo-o em meros $ 85k.

Investimento repartido com 3 classes de ativos, ainda de uma só vez: acrescentando renda fixa

Vamos adicionar então uma terceira classe de ativos, representada pela renda fixa, que, no caso do estudo, foi simbolizado pela introdução de títulos (bonds).

O investimento original ficaria assim distribuído: $ 50k em títulos, $ 25k em ações estrangeiras, e outros $ 25k em ações domésticas.

O resultado? $ 145. 619, ou $ 112.971 corrigidos pela inflação.

Investindo $ 100k iniciais, e aportando $ 1k a cada mês, com rebalanceamentos periódicos

Vamos adicionar um tempero importante nessa estratégia de investimentos: dinheiro novo entrando na conta, acrescido de rebalanceamentos periódicos, destinados a manter a mesma proporção original.

O investidor aportou os mesmos $ 100k, sendo $ 50k em renda fixa, $ 25k em ações domésticos, $ 25k em ações internacionais, e todo mês colocava $ 1k (suponho que tenha sido na mesma proporção original, ou seja, 50/25/25). Mais: a cada ano, ele rebalanceava o seu portfólio, de modo a manter a alocação original.

O resultado?

Impressionantes US$ 313.747, ou US$ 260.102 em dólares de janeiro de 2000 (corrigidos pela inflação).

O gráfico abaixo ilustra o desempenho das diferentes estratégias de investimentos:

Críticas

Já posso ler a mente de alguns leitores…

“- O estudo foi tendencioso, ele começou pegando o Índice S&P 500 justamente quando ele estava com um P/L de 43!”

É verdade que o estudo pegou o índice quando estava em níveis estratosféricos, mas… será que não é esse o comportamento da maioria dos investidores? Será que você não comece a investir em ações exatamente quando ela está subindo, com o preço sendo cotado nas alturas, sendo falada pelos seus amigos, nos jornais e na mídia?

“- O estudo foi tendencioso (2), se ele tivesse pegado o Índice S&P 500 entre 1990 e 2000 o resultado teria sido claramente a favor do investimento concentrado em ações e, portanto, a estratégia de alocação de ativos teria redundado em riscos menores, mas também em ganhos menores!”

Olhar pelo retrovisor é facil… se alguém criar uma máquina do tempo em que eu possa investir no passado, sabendo o que vai ocorrer no futuro, por favor me avise… 😛

E na próxima década? As ações vão bombar novamente? Se eu colocar tudo em ações, posso ter um rendimento espetacular, é certo. Mas se a Bolsa novamente sucumbir… os danos serão irreparáveis. Uma vez que não sabemos o que vai ocorrer no futuro, podemos pelo menos controlar nossas ações em relação a ele.

“- O estudo é difícil de ser replicado na prática brasileira, pois, R$ 500 em renda fixa é um valor muito baixo que é comido pelas altas taxas de administração, R$ 250 em ações não dá sem gastar muita grana com corretagens e/ou taxas de administração, e R$ 250 em ações estrangeiras sem chance, pois não temos fundos de ações estrangeiras.

O objetivo do estudo não foi dar dicas práticas de como investir $ 1.000, mas sim demonstrar a importância que certos ingredientes desempenham na “receita de bolo” de um plano de investimentos equilibrado. Esses ingredientes são: regularidade nas aplicações, diversificação de ativos, e monitoramento da carteira, para realização de ajustes periódicos.

“- 10 anos é um prazo muito curto para analisar qualquer investimento que vise a aposentadoria”

Concordo. Aliás, o autor do estudo também concorda, quando afirma que:

“First of all, 10 years is not a particularly long time horizon. Retirement investors may begin saving at 22 and have money in stocks at 82. People who open 529 college savings accounts upon the birth of a child will keep them open for at least two decades and possibly longer. A decade is a particularly short period of time for anyone who will need the money at the end of it.”

Numa tradução livre:

“Em primeiro lugar, 10 anos não é um horizonte de tempo particularmente longo. Investidores em aposentadoria podem começar a poupar aos 22 anos e ter o dinheiro em ações aos 82. As pessoas que abrem contas de poupança, para custear estudos universitários (conhecidos nos EUA como 529 college savings accounts), no momento do nascimento de uma criança, as mantém abertas por pelo menos duas décadas e, possivelmente mais. Uma década é um período de tempo especialmente curto para quem vai precisar do dinheiro no final do mesmo”.

“- na prática o dinheiro da carteira de investimentos será sacado em algum momento dentro do período de 10 anos, seja para pagar uma casa, seja para comprar um carro, e por aí vai…”

Daí a importância de ter sempre uma boa reserva de emergência, capaz de suprir objetivos de curto prazo com folga, além de reservas em dinheiro “carimbadas” para esses outros objetivos que serão necessários cumprir com dinheiro: casa, carro, casamento, viagens, estudos etc.

As 4 lições que ficam para os investidores

1. O que esquenta pode esfriar (ou pelo menos ficar morno)

A primeira lição não é diversificar, mas evitar a crença que o investimento mais quente, ou de maior rentabilidade, no passado, irá garantir ganhos iguais ou maiores no futuro.

Exemplo prático: adivinha qual foi a Bolsa de Valores que mais apresentou rentabilidade nos últimos 10 anos? Vejam o gráfico abaixo, extraído também do NY Times:

Brazil-il-il…

Retorno de impressionantes 20% a.a. (em dólares), entre 1999 e 2009. Mas isso pode ser motivo suficiente e exclusivo para você aportar todo seu capital na Bolsa? Ela pode continuar em ascensão, mas… e se tombar nessa década?

Lembre-se do que eu costumo dizer, principalmente porque temos muito leitores, aqui no site, que são iniciantes no mundo dos investimentos: rentabilidade passada não é garantia de rentabilidade futura.

Se você investe em Bolsa desde 2007/2008, qual foi sua reação naquele fatídico mês de outubro de 2008, quando o tombo foi de mais de 20% num único mês? Se você já teve o pensamento de retirar o capital investido assim que o montante acumulado, depois de cair, voltou ao patamar original, então parabéns! Você é um sério candidato a utilizar mecanismos de proteção ao risco, como diversificação e rebalanceamento de ativos.

Se você não pode controlar os eventos sócio-econômico-políticos que influenciam seus investimentos, você tem o poder de controle daquilo que é seu bem mais precioso: sua própria estratégia de investimentos. “Gerenciamento de riscos” pode ser uma expressão complicada e aparentemente afeita só a profissionais do mercado financeiro, mas é plenamente possível de ser aplicada e utilizada por nós, investidores individuais que têm em nossas profissões não financeiras nossa principal fonte de renda.

2. Um aqui, outro ali, aquele outro acolá

A segunda lição, sim, é a da diversificação, que, na verdade, decorre da primeira lição acima descrita. Não colocar todos os ovos na mesma cesta. Livros como “Os axiomas de Riqueza” pregam que se deve concentrar, colocar todos os ovos na mesma cesta, e vigiá-la, tomar conta dela, para que a raposa não a pegue.

Deve-se ter muito cuidado com esse tipo de conselho – aliás, como qualquer outra coisa que é escrita por aí. É preciso testá-la na prática, para verificar seu grau de eficácia. Nas décadas de 80 e 90, mesmo quem concentrou seus investimentos em blue chips, como Paranapanema, Sharp, Varig, Telebras, viu seu patrimônio cair de forma vertiginosa. A concentração tem seus benefícios, mas embute seus riscos também. É preciso saber o que se está fazendo. Esse “saber” demanda gasto de “tempo”, “dinheiro” e “energia” que, muitas vezes, não compensa o benefício, justamente pelo custo que apresenta. Eu tenho a convicção de que é mais interessante viver a vida fora da tela de cotações.

A regra do 100 vs. a diversificação controlada

Muito se fala sobre quanto de seu patrimônio você deve alocar em Bolsa. Para tal, comenta-se muito sobre a regra do 100. Ou seja, você subtrai sua idade, desse número, e o número resultante é o percentual que você deveria alocar em renda variável.

Por exemplo: se você tem 25 anos, subtraia 100 de 25 (sua idade). O resultado final é 75. 75% seria, portanto, o montante que você deveria ter em Bolsa.

Cuidado com essa regra!

Se você tem 25 anos (ou qualquer outra idade que seja), você pode estar se mudando para outra cidade, você pode querer se casar, você pode precisar trocar de carro… e normalmente, o capital que se tem acumulado nesse período é inferior ao que você tem disponível para investimentos de longo prazo, que normalmente implicam baixa liquidez, que normalmente impedem o saque sem que sejam pagas severas penalidades (os PGBLs são o melhor exemplo nesse sentido). Dessa forma, você corre o risco de, seguindo essa regra do 100 (0u do 80, ou do 60, seja o número que for), perder dinheiro em momento errado. Por isso, jovens nem sempre devem concentrar suas aplicações em Bolsa.

O que me deixa preocupado é as pessoas seguirem regras simplistas e não observarem, assim, aspectos técnicos de seus investimentos. Em outras palavras: o que me deixa preocupado é as regras simplistas serem alardeadas muito, em detrimento de estratégias solidificadas, quando se trata de percentual a ser alocado em renda variável. Muito se fala sobre a regra do 100, mas pouco se comenta sobre a alocação de ativos.

3. Devagar e sempre

A terceira lição é a disciplina. O exemplo do NY Times deu a pista: aportes constantes e regulares produzem efeitos muito bons para o futuro. Nada de agir como um investidor-torcedor, portanto.

A disciplina está, na essência, ligada à educação financeira. Não tem muita gente por aí financiando o veículo? Você não conhece pessoas que estão pagando a prestação da casa própria? Pois financie você também um “bem de consumo”. Financie sua aposentadoria em 300 parcelas mensais de R$ 500, e veja quanto patrimônio terá acumulado.

Da mesma forma que você contribui para o INSS, contribua também para seu próprio plano de independência financeira. A vantagem é que você pode escolher o valor da contribuição, o tipo de investimento a ser realizado, e, sobretudo, o tempo que quiser destinar a tal tarefa.

Quanto mais disciplinado você for, quanto maiores forem os aportes (normalmente vinculados ao crescimento na carreira, e, claro, sem descurar do pagamento de outras despesas importantes de curto e médio prazos), quanto melhores forem os investimentos nos quais você alocar seu dinheiro, e quanto melhor gerenciados eles forem, mais cedo você conseguirá conquistar seu plano de independência financeira.

A questão da gerência, aliás, nos remete ao último ponto, alocação de ativos.

4. Asset allocation

O que é alocação de ativos?

Repetir nunca é demais – e é bom para fixar conceitos importantes, como esse. Alocação de ativos consiste em distribuir um investimento em diferentes classes de ativos. Uma carteira de investimentos pode, por exemplo, ter ativos alocados em uma mistura de fundos de renda fixa, ações e imóveis. A proporção adequada de cada ativo na carteira depende muito dos objetivos do investidor.  O objetivo da alocação de ativos é maximizar o retorno com diminuição de riscos. O que, no caso do exemplo descrito no artigo publicado no NY Times, mostrou-se ser uma estratégia vencedora.

É possível diversificar dentro da diversificação maior. Ou seja, investir na Bolsa através de ETFs, investir na renda fixa através de montagem de uma cesta de títulos públicos e privados, investir em imóveis por meio de uma combinação de fundos imobiliários diversificados.

O rebalanceamento permite corrigir distorções na proporção dos ativos, para que eles voltem à posição original. Por exemplo, uma carteira com 50% em ações e 50% em renda fixa pode apresentar, num determinado ano, 30% em renda fixa e 70% em ações. Qual é a saída?

Vender os 20% em ações e realocá-las na renda fixa. Volta-se ao patamar original.

No ano seguinte, suponha que o desequilíbrio fique em 70% em renda fixa e 30% em ações. Qual é a tática? Tirar os 20% excedentes da renda fixa, e transferi-los para compra de mais ações. Comprar na baixa permite diminuir o custo médio de compra das ações. E vender as ações na alta permite embolsar o lucro num momento de valorização da Bolsa. Você vende na alta, compra na baixa (obrigado ao leitor Sandro pela correção!), sem o uso de critérios irracionais e subjetivos, embolsa o lucro, baixa o preço médio de aquisição das ações, mantém seu portfólio constante e vê seu patrimônio crescer (por causa dos aportes extras de dinheiro que você investe todo mês), de forma consistente e quase sempre para cima (não vê seu patrimônio variar negativamente de um mês para outro, ou de um ano para outro).


Conclusão

Estude. Estude. Estude. Nenhuma crise econômica é capaz de derrubar o investidor que, antes de se preocupar em acumular capital financeiro, dedica suas horas e sua energia à acumulação de capital intelectual. Esse sim é à prova de qualquer evento negativo da economia. O capital intelectual é o que irá lhe conduzir por boas escolhas de investimentos, sem descurar para aspectos não-financeiros de sua vida.

Esteja esperto e não se deixe levar pela empolgação ou depressão que ocorre nos mercados. Prepare-se e avance, que os frutos dessa obstinada dedicação hão de valer a pena. Porque terão que valer a pena.

É isso aí!

Um grande abraço, e que Deus os abençoe!

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4 Responses to Anos 2000: década perdida para os investidores norte-americanos?

  1. Sandro 24 de junho de 2010 at 9:34 #

    Vai uma dica, corrija neste paragrafo o que coloquei em CAPS LK:

    No ano seguinte, suponha que o desequilíbrio fique em 70% em renda fixa e 30% em ações. Qual é a tática? Tirar os 20% excedentes da renda fixa, e transferi-los para compra de mais ações. Comprar na baixa permite diminuir o custo médio de compra das ações. E vender as ações na alta permite embolsar o lucro num momento de valorização da Bolsa. Você vende na alta, COMPRA NA BAIXA , sem o uso de critérios irracionais e subjetivos, embolsa o lucro, baixa o preço médio de aquisição das ações, mantém seu portfólio constante e vê seu patrimônio crescer (por causa dos aportes extras de dinheiro que você investe todo mês), de forma consistente e quase sempre para cima (não vê seu patrimônio variar negativamente de um mês para outro, ou de um ano para outro).

    O resto é isso aí mesmo !!! Parabéns !!!

  2. Henrique Carvalho 24 de junho de 2010 at 12:42 #

    Excelente Guilherme!

    O artigo ficou muito bem organizado. Retrata temas interessantíssimos e tem um alto grau de reflexão. Meus parabéns!

    O Brasil tendo o maior retorno anual, retratado no gráfico do NY Times, indica que é possível que tenhamos uma década (2010-2020) com um baixo retorno nas ações. Isso segundo a expectativa da regressão à média, à qual sou partidário para situações de longo prazo, como esta de 10+ anos.

    Essas regras de bolso (como a do 100 – idade) para determinar a alocação em bolsa não são muito efetivas. O importante, como você mesmo cita, é a alocação de ativos e as necessidades pessoais do investidor.

    Entre expansões e recessões, a alocação de ativos é a melhor ferramenta de investimentos que permite o investidor acumular e preservar seu capital no longo prazo. É por isso que gosto de escrever e comentar sobre este assunto.

    Ótima leitura!

    Grande Abraço!

  3. Guilherme 25 de junho de 2010 at 20:09 #

    Sandro, correção realizada! Obrigado!

    Henrique, obrigado pelos comentários! Concordo com vc, alocação de ativos é, como disse o nosso amigo Investimentos e Finanças, um lanchinho grátis.

    É isso aí!
    Um grande abraço, e que Deus os abençoe!

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