Rentabilidade passada não é garantia de rentabilidade futura. E a taxa de administração como critério importante para escolher um investimento

O leitor Luciano escreveu:

Hotmar, referente aos fundos de índices eu percebi que o PIBB tem uma taxa de administração um pouquinho menor que a do BOVA11, é verdade? Outro ponto interessante é a diversificação que o PIBB proporciona, investindo também em outros ativos, como você falou… esses ativos seriam o Tesouro Direto? Sabe, Hotmar, eu sempre fico na dúvida referente a esses dois índices, porque muitos analistas de mercado falam que o BOVA11 tem mais liquidez. Na sua opinião Hotmar, sendo um fundo de ações onde o horizonte seria a longo prazo, vale mais a pena arriscar uma rentabilidade melhor no PIBB?
Forte abraço, parabéns pelo texto.
Luciano

Postei uma resposta lá no tópico sobre investimentos indexados, e aqui é a ocasião propícia para expandir o debate também para outro tema que considero fundamental: a rentabilidade futura vs. rentabilidade passada.

Sobre a taxa de administração: é verdade, o PIBB11 é mais barato que o BOVA11, a taxa de administração do PIBB11 – apenas 0,059% ao ano – coloca esse fundo, segundo o Mauro Halfeld, como o fundo com a menor taxa de administração do mundo. Taxa de administração menor impacta diretamente a rentabilidade líquida, de forma inversamente proporcional, ou seja, quanto maior a taxa, menor a rentabilidade.

Sobre a diversificação do PIBB, sim, títulos públicos. Verificamos, por meio da página do PIBB, que existem aplicações tanto nas LFTs quanto em prefixados.

De fato, o BOVA11 tem mais liquidez no mercado (embora seja artificial, como alertou o Viver de Renda), e, quanto à questão da rentabilidade, acredito que o investidor deve ter uma postura de foco adequada ao objetivo. Em outras palavras, ele deve focar sua atenção naquilo que se alinhe aos objetivos dele. Se o objetivo é rentabilidade maior, a longo prazo, ele deve priorizar o foco no maior rendimento, e não na maior liquidez.

A liquidez é mais importante para traders, para quem quer especular, enfim, por outros motivos. Sabemos que rentabilidade passada não é garantia de rentabilidade futura, portanto, não se sabe se o PIBB11 (ou BOVA11) irá render tanto no futuro quanto rendeu, p.ex., nos últimos anos/meses. Mas temos condições de saber com certeza qual fundo no futuro será mais caro em relação ao outro: basta analisar a taxa de administração – isso partindo da premissa de que não haja alteração nessa parte fixa do custo do investimento (e geralmente não há).

Assim, considerando que o PIBB11 tem uma taxa de administração menor que o BOVA11, e vendo que os custos impactam diretamente a rentabilidade de um investimento, e partindo do pressuposto de que o foco do investidor deve ser, numa análise comparativa, a qualidade intrínseca de seu investimento (barato/caro) e não fatores extrínsecos (liquidez) ao investimento por si só considerado, e tendo em vista ainda que ambos são investimentos de idêntica natureza – fundos de índice passivo – a escolha tende a recair sobre o PIBB11.

Falo que tende a cair porque outros fatores podem implicar num ganho a favor do BOVA11, como a taxa de aluguel de ações, que é maior no BOVA11 que no PIBB11, compra e venda de opções do BOVA11 etc. No entanto, novamente caímos na questão da natureza intrínseca do investimento: o fato de o aluguel ter maior rendimento no BOVA11 e/ou o fato de o BOVA11 permitir o uso de opções, são eventos extrínsecos que não alteram a realidade do investimento em si mesmo considerado, ou seja, no fato de que o PIBB11 tem embutida menor taxa de administração.

Pode-se argumentar que poderiam existir períodos em que a rentabilidade no BOVA11 (que espelha o IBovespa) seja superior ao PIBB11 (que espelha o IBRX-50, portanto, tem menos empresas no índice), entretanto, não creio que pequenas rentabilidades maiores do IBOV em dado lapso temporal compensem o elevado custo de administração do BOVA11, que é fixo e não muda no decorrer do tempo (a menos, é claro, que seja alterado esse item para baixo).

O horizonte de investimento também é fator a ser considerado, tendo em vista que, para os que adotam a estratégia do buy&hold, pouco relevância faz o PIBB11 ser cotado a R$ 92,38 ou R$ 92,50, num dado dia. Se ele realmente mantiver as ações a longo prazo, a liquidez deixa de ser um fato principal para se tornar um critério secundário na análise da seleção do investimento.

O raciocínio é parecido quando escolho agente de custódia para operar no Tesouro Direto: já que os títulos vendidos por todas as corretoras/bancos são os mesmos, dou preferência a aquele em que pago a menor taxa de administração possível.

O mesmo raciocínio vale para comparação de fundos que tenham natureza semelhante oferecidos pelo mercado (fundos referenciados DI, por exemplo): já que é impossível conhecer a rentabilidade futura, presto atenção na parte fixa dos custos, pois essa é previsível e afeta negativamente o investimento.

Em resumo: dadas as condições atuais de cada investimento, minha escolha é PIBB11. Mas essa é apenas uma opinião pessoal. As informações acima devem ser interpretadas por cada um, dentro dos critérios e objetivos de cada um, a fim de que possa pensar por si mesmo, e decidir qual é a melhor ação/fundo, tendo em vista suas metas pessoais de investimento.

Outra coisa importante é o investidor ter em mente que rentabilidade passada não é garantia alguma de rentabilidade futura, ainda mais em se tratando de ações, cujo mercado é de renda variável. O erro que percebo – e que é muito comum – é as pessoas escolherem o investimento tendo como critério principal taxas de retorno passados. Não está correto. Para mim, mais importante que conhecer rentabilidade passada é saber a taxa de administração, pois esse é um item que fatalmente impactará a rentabilidade futura.

O raciocínio é simples: se não temos como saber quanto ganharemos no futuro, temos como saber quanto perderemos no futuro. A perda é representada pela taxa de administração. E quanto maior ela é, menor será o rendimento líquido a ser recebido no futuro.

A taxa de administração é cruel: ela incide sobre todo o patrimônio do fundo, e não apenas sobre a rentabilidade. Sobre a rentabilidade, impactam outros eventos, tais como imposto de renda, IOF (em certas ocasiões), taxa de performance (caso o regulamento do fundo o preveja) etc. Imagine que você tenha um carro: se você é proprietário do veículo, você pagará o IPVA. O mesmo raciocínio se aplica a fundos de investimento: se você é proprietário de (cotas do) fundo, você pagará uma taxa sobre essa (fração) de propriedade, representada pela taxa de administração.

Perceberam como a taxa de administração é ruim? A base de cálculo dela é sobre todo o patrimônio do fundo, e não apenas sobre o ganho de capital. Ela é severa porque alarga a base de cálculo, e, quanto mais larga a base de cálculo, menor será o retorno do investimento para o aplicador.

Apesar de isso ser uma obviedade e tanto, a maioria das pessoas continua fazendo confusão quanto a esse item:

“Não há consciência de que a taxa incide sobre o patrimônio, muitos pensam que é apenas uma fatia da rentabilidade ou mesmo que, quando há prejuízo, o fundo não cobra nada.” Mas isso não é verdade, pois a base de cálculo é o patrimônio total, sem ligação com a rentabilidade. Pela taxa, parte do patrimônio fica com o gestor dos fundos, diz Márcia, o que reduz o rendimento”.

O problema reside no fato de que as pessoas, quando vão escolher algum fundo de investimento, preferem olhar, nas tabelas de fundos dos bancos, a taxa de rentabilidade passada, colocando em plano secundário a taxa de administração. Elas crêem, inconscientemente, que o fundo com o maior retorno é o que proporcionará a maior rentabilidade no futuro. Elas se preocupam mais com o acréscimo de dinheiro (representada pela rentabilidade passada) do que com a preservação de capital (embutida na taxa de administração). O fator emocional conta muito: a ganância (pela rentabilidade passada maior) pesa mais que o item custo reduzido (taxa de administração).

O que elas não percebem e não se dão conta é que, mais importante do que ter ganhos futuros é evitar perdas futuras. Muitas vezes elas fazem isso induzidas pelos prospectos desses fundos, que dão mais visibilidade às expectativas futuras de retornos do que aos custos do investimento. Porém, o investidor inteligente sabe que manter os custos dos investimentos sob controle é requisito essencial para ter sucesso nas aplicações financeiras. Ele próprio prefere “se pagar” pelo tempo investido pesquisando sobre investimentos.

É por essas e outras que a minha preferência é sempre aplicar em produtos financeiros com as menores taxas de administração possíveis, porque isso garantirá a maior rentabilidade líquida possível.

Sobre a comparação de PIBB11 vs. BOVA11, não deixem de ler o artigo do Viver de Renda.

Que você também tenha uma postura ativa na seleção de seus investimentos, e não se deixe levar pelo canto da serei… quero dizer, não se deixe impressionar pelos retornos do passado. Além de não desprezar o dinheiro que vai embora com a taxa de administração, claro. 😉

É isso aí!

Um grande abraço, e que Deus os abençoe!

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9 Responses to Rentabilidade passada não é garantia de rentabilidade futura. E a taxa de administração como critério importante para escolher um investimento

  1. Willy Fog 8 de agosto de 2010 at 14:07 #

    Uma dúvida Guilherme: este link para o artigo de taxa de administração do AE investimentos está certo? Pois não consegui encontrar tal artigo.

    Abcs

  2. Guilherme 8 de agosto de 2010 at 14:52 #

    Willy, o artigo de fato existia, entretanto, a AE resolveu suprimir esse e outros artigos bons que existiam. De qualquer forma, vou reformular o artigo suprimindo esse link.

    É isso aí!
    Um grande abraço, e que Deus os abençoe!

  3. jz 2 de dezembro de 2010 at 19:19 #

    muito bom. estou lendo quase tudo que tem aqui. vagando pelos arquivos e a cada leitura aprendo mais. sou estudante de Publicidade, mas nos últimos meses tenho despertado um grande interesse, por economia, principalmente financias pessoais. tenho uns objetivos, quero ter uma vida confortável quando estiver com idade elevada e nao puder suportar o desconforto de hoje. por isso me preocupo. e esse ano de 2011 vou começar com meu primeiro investimento em TD e logo após nos demais.
    Adorei a passagem do texto quem que diz: “as essa é apenas uma opinião pessoal. As informações acima devem ser interpretadas por cada um, dentro dos critérios e objetivos de cada um, a fim de que possa pensar por si mesmo, e decidir qual é a melhor ação/fundo, tendo em vista suas metas pessoais de investimento”. vou continuar com minhas leituras. vou continuar aprendendo. PAZ

  4. Guilherme 2 de dezembro de 2010 at 21:24 #

    Belo depoimento, jz! Sucesso na sua jornada, e conte sempre conosco!

    É isso aí!
    Um grande abraço, e que Deus os abençoe!

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