Com a Copa do Mundo se aproximando, voltou com força um passatempo que era comum no passado, mas que se esvaiu quase que por completo nessa era da desmaterialização das coisas: os álbuns de figurinhas.
Para além de questões mercadológicas e financeiras envolvidas – afinal de contas, esses álbuns e pacotes de figurinhas geram muito dinheiro para as empresas que os fabricam e os comercializam – há uma série de temas que podem ser explorados como reflexão.
Por exemplo: será que não estamos vivendo num ambiente de excessiva digitalização? Esses álbuns nos remetem a hábitos e comportamentos do passado, onde as relações eram marcadas por convívios presenciais (trocas de figurinhas repetidas envolviam presença física) e o objeto das relações era tangível e concreto (as próprias figurinhas).
Hoje em dia, parece que tudo se resolve em ambiente digital, online. Pessoas brigam, discutem, conversam, riem, interagem, vivem… em frente a telas de celulares e computadores. Gastam-se infindáveis horas diárias rolando feeds e timelines em redes sociais, comprando-se e vendendo-se coisas em lojas virtuais, conferindo status e atualizações em apps, de modo que pouco tempo é dedicado para os afazeres no mundo concreto e off-line.
E assim, aos poucos, atividades simples como apreciar a natureza, conversar numa mesa de jantar ou simplesmente caminhar nas ruas vão se perdendo. Os álbuns de figurinhas resgatam um pouco essa essência da vida: o concreto, o tangível de pegar numa figurinha e colar, o se relacionar com o outro de modo presencial, o de interagir em ambientes de verdade, o de restaurar uma comunicação, no mundo real, que vai ficando cada vez mais rara.
Além disso, os álbuns resgatam outras coisas e valores importantes, como, por exemplo, o hábito de apreciar passatempos e hobbies. Desacelerar da vida cheia de trabalhos, prazos, compromissos profissionais, metas e relaxar.
E tudo isso nos convida a uma reflexão: será que não podemos estender essa concretude, representada pelos álbuns de figurinhas, a outras áreas de nossa vida? Será que não podemos apreciar mais a vida e nos distrairmos mais? Parece que tudo na vida agora se resume a metas, prazos, compromissos, projetos… de modo que pouco espaço vai sobrando na vida para a distração, o descanso, o tempo reservado para passatempos e atividades mais lúdicas e descontraídas.
Vi outro dia um empresário dizendo que precisava tirar finais de semana de vez em quando com a família como elemento essencial para manter a sanidade em tempos de insanidade. Para uns, “perda de tempo”, afinal, ele poderia estar lucrando se usasse esse mesmo tempo para trabalhar no seu comércio. Mas será que a vida se resume a trabalho?
Precisamos resgatar a essência da vida e priorizar nossos verdadeiros valores, alinhando-os aos nossos comportamentos, de modo a tornar a vida mais leve, com mais significado e com mais sentido, ainda que isso signifique remar contra a maré.
Boa semana!
Caro amigo Guilherme,
gostaria de trazer fatos a sua reflexão: na escola das minhas filhas as figurinhas fizeram enorme sucesso. Desde o início do mês de maio há uma movimentação entre as famílias e as crianças para trocar e jogar bafo com elas.
As famílias ajudando os menores e os mais tímidos, e os mais desenvoltos trocando entre si. Acho que a ausência de celular desde o ano passado ajudou a promover as trocas entre as crianças.
Grande abraço!
Que maravilhoso depoimento, Marcia!
Obrigado por compartilhá-lo conosco.