Por que o investimento em fundos de índice (ETFs) é tão pouco abordado pela mídia, no Brasil?

Antes de responder a essa pergunta, vamos olhar a inserção publicitária em uma revista norte-americana de finanças pessoais.

Uma propaganda, de um fundo de índice, na revista norte-americana Kiplinger´s

Em primeiro lugar, um esclarecimento. Nos Estados Unidos, o mercado de fundos de índice,  fundos esses também conhecidos como ETFs (Exchange Traded Funds), é bem mais desenvolvido que no Brasil. Lá, as opções de investimentos em ETFs são bem maiores e diversificadas, e o mercado é bastante concorrido, com ETFs criados e administrados por uma gama maior de empresas. Logo, é natural a existência de mais veiculação publicitária desses produtos, que concorrem com os fundos de investimentos tradicionais, também conhecidos, lá, como mutual funds, ou fundos mútuos.

Essa propaganda, que ocupava uma página inteira da revista, tinha uma imagem na parte de cima, e um breve texto explicativo logo abaixo. A imagem é essa abaixo, com o sugestivo título “invista na América. Seus avós investiram”.

É o retrato de uma família que saiu (provavelmente da Europa), somente com seus pertences, em busca de ganhar a vida na “América”, em Nova York (a julgar pela imagem de fundo, que parece a Estátua da Liberdade). Logo abaixo, vinha o texto:

Clique na imagem para ampliação e melhor visualização.

O texto é esse:

“America´s original investors made unimaginable sacrifices to give their children a better life. They left their homes with little more than a suitcase in their hands and hope in their hearts. The harder they worked, the more they succeeded. And the more they succeeded, the stronger the United States economy became. That American dream still exists. If you´d like to invest in it, consider the SPDR Dow Jones Industrial Average ETF. With 30 of America´s blue-chip companies, it acts as a bellwether of the US economy. All wrapped up in an ETF you can buy, hold and sell with the precision of a single stock. Your grandparents left some big shoes to fill. But that doesn´t mean you can´t follow in their footsteps”.

Numa tradução livre:

“Os investidores originais da América fizeram sacrifícios inimagináveis para dar a seus filhos uma vida melhor. Eles saíram de suas casa  com nada mais do que uma mala em suas mãos e esperança em seus corações. Quanto mais duro eles trabalhavam, mais sucesso eles conquistavam. E, quanto mais sucesso eles conquistavam, mais forte se tornava a economia dos Estados Unidos. Esse sonho americano existe. Se você quer investir nele, considere o ETF do SPDR Dow Jones Industrial Average. Com 30 das empresas blue chip americanas, ele age como um termômetro da economia dos Estados Unidos. Tudo empacotado em um ETF que você pode comprar, manter e vender com a mesma precisão de uma única ação. Seus avós deixaram alguns grandes sapatos para trás. Mas isso não significa que você não pode seguir os passos deles [essa última parte da tradução confesso que não entendi muito bem]”.

A propaganda resume bem o que é investir num ETF: é crescer com a economia – ou com um setor econômico – de um País. Como o motor do PIB é constituído pelas empresas, ao investir seu dinheiro num pacote de empresas bem diversificado, você estará se beneficiando do crescimento das empresas, e também da economia, prosperando junto com o País (obs.: no curto prazo, os ETFs tendem a apresentar fortes oscilações, com possibilidades, inclusive, de perdas de rentabilidade. Entretanto, no longo prazo, eles tendem a ser investimentos vencedores).

4 razões para a pouca abordagem dos fundos de índice

Identifiquei 4 motivos pelos quais os ETFs são pouco explorados pela mídia. Vamos a eles.

1. Produto novo. Os ETFs são produtos financeiros relativamente novos no mercado brasileiro. O primeiro fundo de índice com cotas negociadas em Bolsa foi o PIBB, em julho de 2004. Não tem seis anos, portanto. Já os primeiros ETFs da iShares foram lançados no mercado em novembro de 2008, ou seja, ainda nem completaram dois anos de existência.

2. Não é lucrativo para as corretoras. Os fundos de índice têm, no geral, liquidez relativamente baixa, e, além disso, por não serem ações, mas sim fundos que investem em ações diversificadas, fazendo você economizar com corretagens, não são de interesse para as corretoras, que preferem lucrar com as comissões ganhas em cima dos trades de seus clientes em ações propriamente ditas. Além disso, não existem analistas que acompanham fundos de índices. Você já viu alguma corretora indicar, entre as “top picks” do mês de junho, um PIBB11 ou BOVA11 ou ainda SMAL11? Eu nunca vi. E nunca verei. Os fundos de índice recebem, por parte das corretoras, o mesmo tipo de tratamento que os títulos do Tesouro Direto recebem por parte dos bancos. Esses investimentos – fundos de índices e títulos do Tesouro – competem diretamente com as ações e os fundos bancários, respectivamente, e, por isso, são relegados a segundo plano.

3. Fator ganância. É aquela velha história de tentar “bater o mercado”. O IBovespa/IBrX50/100 é o índice de referência para os gestores de fundos de ações e de profissionais que atuam no mercado de ações. Eles tentam provar para seus clientes de que conseguem ser melhores que o índice, e que, portanto, valeria a pena pagar as altas taxas de administração embutidas nesses fundos – que variam de 2% a 4%. Bom, o resultado é pífio: a grande maioria dos fundos de ações de gestão ativa não ganha do mercado. Ou seja, do índice. Além da rentabilidade ser menor, os clientes ainda sofrem com taxas de administração maiores.

4. Fator curto prazo. Os fundos de índice têm melhor serventia entrando na composição de uma carteira de acumulação. Fazer trades curtos com eles é pior do que as ações, porque as ações em geral têm mais liquidez, sofrem com notícias específicas da empresa, e são provocadas por boatos. É possível também realizar trades de curto prazo com os ETFs, afinal, eles são negociados como ações, porém, as possibilidades de ganhos são reduzidas pela menor exposição ao risco desses fundos (uma vez que não há o risco da empresa, mas sim o de mercado), em comparações com as ações individuais (que sofrem, além do risco de mercado, o risco de empresa).

3 vantagens dos ETFs

Apesar de o tema já ter sido abordado em outros artigos anteriores, vamos destacar aqui três vantagens de se investir em fundos de índices.

1. Controle de risco. Um pool de empresas financia sua independência financeira, minimizando os riscos a que você estaria exposto se investisse em apenas um ou duas empresas. A iShares explica isso de forma bem didática em seu site:

“Ao comprar cotas de Fundos de Índice, o investidor diversifica suas posições de risco nos vários ativos que compõem a carteira, evitando assim o risco específico de investir em apenas uma ação. Isto pode lhe proporcionar o benefício de retornos menos voláteis, em média, quando comparados a investimentos em ações individuais”.

2. Relação custo/benefício atraente para o investidor pessoa física. Gasta-se pouco tempo no gerenciamento da carteira – principalmente para quem tem foco no longo prazo – e ganha-se uma rentabilidade próxima à do mercado, com uma diversificação que só seria possível com gastos muito elevados em termos de corretagem. Como explica a iShares:

“o investidor faz uma única negociação e obtém uma exposição diversificada. Caso ele optasse por comprar todas as ações que compõem o fundo, tal investidor teria o mesmo benefício de diversificação, porém com um número superior de operações, adicionando complexidade operacional e custos”.

3. Ganho de tempo. Os investimentos indexados possuem um apropriado efeito de “relaxante natural”, na medida em que eles liberam a sua psique da torturante tarefa de saber se você está ou não ganhando do mercado. Em outras palavras, se você não é profissional da área de investimentos, e não se interessa por se aprofundar em questões complexas e técnicas da área, saiba que, com os ETFs, você poderá alocar toda a sua capacidade produtiva para realizar atividades fora do mercado financeiro. Um dos poucos exemplos práticos que vemos no Brasil, sobre o uso de ETFs como instrumentos de financiamento da aposentadoria financeira, é o Viver de Renda, que ainda nos brinda com atualizações mensais de seu portfólio, em seu blog.

Conclusão

Espero que, com o tempo, os ETFs ganhem mais destaque na mídia, como já ganham nos Estados Unidos, onde são defendidos, por exemplo, por John Bogle e até Warren Buffett. Existem até livros específicos sobre eles, como é o caso do The ETF Book: All You Need to Know About Exchange-Traded Funds, de Richard Ferri. No Brasil, os melhores exemplos da defesa desses investimentos indexados são o Mauro Halfeld e o Viver de Renda.

Espero, também, que o mercado de ETFs se amplie, com a criação de novos fundos, espelhando outros índices, proporcionando, assim, mais possibilidades de escolha para o investidor que queira indexar seus investimentos a baixo custo.

É isso aí!

Um grande abraço, e que Deus os abençoe!

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7 Responses to Por que o investimento em fundos de índice (ETFs) é tão pouco abordado pela mídia, no Brasil?

  1. Viver de Renda 3 de junho de 2010 at 10:32 #

    Hotmar, obrigado pela menção!

    No mais, não concordo que os ETFs não sejam atraentes para as corretoras, é só ver a taxa de turnover de ETFs como o SPY para ver que, infelizmente, lá nos EUA eles utilizam esse excelente mecanismo, em sua maioria, como mais uma ferramenta de market timing. Salvo engano Bogle menciona isso no livro common sense investing.

    Abraços!

  2. Guilherme 3 de junho de 2010 at 11:16 #

    Viver, muito bom seu comentário!

    Viver, quando digo que os ETFs não sejam atraentes para as corretoras, na verdade estou fazendo uma comparação com as ações individuais, que sofrem, além do risco de mercado, o risco de empresa, estando sujeita, portanto, a fatores adicionais de volatilidade.

    O próprio fato de os ETFs serem negociados em Bolsa, e não na rede de varejo, já propicia, por si só, mecanismo de trades curtos e, portanto, ganhos em corretagens, para as corretoras.

    Ademais, nunca via corretora alguma indicando ETFs em suas “indicações do mês/da semana/do ano”, o que reforça as evidências no sentido de que não são atraentes para as corretoras.

    Portanto, é inegável que exista um componente de atratividade dos ETFs para as corretoras, consistentes nas negociações em Bolsa, que faz parte, aliás, de sua natureza intrínseca. Porém, essa atratividade é reduzida frente a opções mais “líquidas” em termos de frequência de negociação (turnover), como as blue chips da Bolsa, cujos negócios em volume, durante alguns minutos, giram mais do que os ETFs durante o pregão inteiro.

    Foi essa a mensagem que quis transmitir no artigo.

    Ademais, ainda não se pode comparar ETFs no Brasil, ainda incipientes, com os ETFs nos EUA, onde ocupam quase 50% do volume de negócios, e onde existe ETF pra tudo quanto é gosto, inclusive ETF de gestão “ativa”, o que é criticado por Siegel, dentre outros.

    É isso aí!
    Um grande abraço, e que Deus os abençoe!

  3. Willy Fog 9 de novembro de 2010 at 19:04 #

    É por aí mesmo Guilherme. Se o próprio investimento em ações é recente no Brasil, imagine então o investimento em ETFs. Vamos esperar que isso mude. Abcs

  4. Guilherme 10 de novembro de 2010 at 9:01 #

    Torcendo mesmo, Willy….

    É isso aí!
    Um grande abraço, e que Deus os abençoe!

  5. Luiz Marcelo 29 de março de 2011 at 6:01 #

    Olá a todos.

    Gostaria de saber se a liquidez do PIBB11 garante que eu consiga vende-los facilmente.

    Tenho puco experiência e minha dúvida é se depois de 20 anos comprando PIBB11, há garantias (ou facilidades) de vende-los para recuperar esse investimento de longo prazo.

    Muito obrigado a todos.

  6. Guilherme 4 de abril de 2011 at 13:05 #

    Sim, a liquidez é boa.

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