[via San Francisco Magazine] O melhor conselho de investimentos que você nunca irá ouvir

A San Francisco Magazine publicou, em dezembro de 2006, um interessante artigo intitulado “The best investment advice you’ll never get” (algo como “o melhor conselho de investimentos que você nunca irá conseguir”). Apesar de já terem se passados quase 4 anos, a base daquela matéria ainda continua atual, e pelo menos a sua parte inicial – que contém a essência da reportagem – merece ser reproduzida aqui, para reflexão.

Em agosto de 2004, às vésperas da histórica IPO do Google, o vice-presidente sênior da empresa, Jonathan Rosenberg, percebeu que o Google estava a ponto de gerar centenas de jovens multimilionários impetuosos, querendo fazer multiplicar seu dinheiro. Jonathan temia que eles se tornassem presas fáceis dos corretores de Wall Street, consultores financeiros inescrupulosos e gestores de fortuna, oferecendo seus produtos com altos custos embutidos, mas não mencionados de forma explícita.

Então ele teve uma idéia: para protegê-los dos predadores de Wall Street, resolveu realizar uma série de palestras, com alguns dos nomes mais renomados da arte de investimentos. Somente depois é que o pessoal dos fundos de investimentos, corretores de Wall Street e gestores de fortunas poderiam entrar em contato com os jovens funcionários do Google. Sergey Brin e Larry Page, fundadores do Google, e o CEO Eric Schmidt, ficaram encantados com a ideia e deram seu aval.

Perante uma platéia formada por engenheiros brilhantes, programadores e cybergeeks, o primeiro a palestrar foi William Sharpe, ganhador do Prêmio Nobel de Economia em 1990. A platéia estava ansiosa esperando dicas sobre como montar uma estratégia otimizada de alocação de ativos, e como analisar os investimentos de modo a tirar proveito máximo dos produtos oferecidos no mercado. Mas, ao invés de fórmulas complexas e teorias mirabolantes, ele optou por fornecer uma fórmula simples: “não tentem bater o mercado. Coloquem suas economias num fundo indexado, que irá fazer seu dinheiro crescer com muito menos custo, seguindo os movimentos de mercado”.

Pois bem.

Na semana seguinte, foi a vez de Burton Malkiel, autor do clássico “A Random Walk Down Wall Street”. O livro sugere  que um macaco “com os olhos vendados” vai, no longo prazo, ter tanta sorte em escolher uma carteira de investimentos ganhando dinheiro, como um gerente profissional. E que ele disse aos funcionários do Google? “Não tente bater o mercado, e não acredite em quem lhes diga que possa”.

Finalmente, a última palestra foi com o John Bogle, que bate como ninguém no atual sistema financeiro norte-americano. O conselho de Bogle foi tão simples e direto quanto o de seus antecessores: “os consultores financeiros e corretores inescrupulosos irão atrás de você querendo tomar seu dinheiro com promessas de lucros mirabolantes, e ocultando as exorbitantes taxas de administração e demais custos de transação. Ignore-os e invista em um fundo de índice passivo”.

A estratégia funcionou. Quando os tubarões da indústria foram finalmente autorizados a entrar no santuário do Google, eles foram bombardeados com perguntas sobre suas comissões, taxas e custos ocultos, comentários sobre fundos indexados e por aí vai. É evidente que o pessoal da indústria financeira ficou desanimado com tanta pergunta “bombástica” caindo para cima deles. Eles não esperavam esse tipo de reação. A atitude de Jonathan provou ser a correta.

Por que os fundos indexados não são apreciados pela indústria de investimentos?

São dois os motivos. Primeiro, porque esses fundos representam uma afronta ao ego dos investidores profissionais, que querem provar sua capacidade de montar uma carteira que vença o mercado. Afinal, eles são treinados e pagos para fazer isso. Ademais, e em segundo lugar, os fundos de índice são produtos que não fazem os corretores e consultores financeiros ganharem muito dinheiro. Como diz a matéria:

“If you have your money in an account that’s following the natural movements of the market—also called passive investing—you don’t need fancy managers to watch it for you and charge big bucks to do so.”

Numa tradução livre:

“Se você tem seu dinheiro em uma conta que está seguindo os movimentos naturais do mercado, também chamado investimento passivo, você não precisa de gestores de fantasia para fazer a mesma coisa, e cobrar muito dinheiro para fazê-lo.”

No Brasil

O problema é que, no nosso país, ao contrário dos Estados Unidos, o mercado de produtos financeiros baratos para investidores individuais ainda é incipiente, pouco diversificado e pouco abordado pela mídia. E fundos indexados negociados em Bolsa são produtos financeiros baratos. Assim como o Tesouro Direito operado via corretoras que cobrem baixas taxas de administração. Por isso, toda divulgação realizada em blogs como esse, esse e esse é sempre muito bem-vinda, e merece toda exposição possível.

Entretanto, a gestão ativa cumpre também seu papel dentro da estrutura do mercado. É com compradores e vendedores que se mantêm os preços em movimento. E isso é o que impulsiona o mercado. “Se os fundos de índice tomassem todo o mercado, o próprio mercado iria morrer de morte natural”, de acordo com William Sharpe, assertiva essa com a qual concordamos. É o mesmo que ocorre com os especuladores: eles são importantes para prover liquidez ao mercado.

Um dos problemas de se investir em fundos indexados é de ordem psicológica, pois é difícil para o ser humano aceitar retornos médios para nossos investimentos. Mas, muitas vezes, obter retornos médios pode ser a melhor maneira de controlar o risco, pois se evita perda de dinheiro ao se apostar apenas em uma ou poucas empresas. Pode não ser a solução “ótima”, mas é uma solução “boa”. E o ótimo, como já frisamos anteriormente, é inimigo do bom. 😉

É isso aí!

Um grande abraço, e que Deus os abençoe!

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5 Responses to [via San Francisco Magazine] O melhor conselho de investimentos que você nunca irá ouvir

  1. Jônatas R. Silva 8 de julho de 2010 at 9:03 #

    Guilherme,
    Administração financeira e investimento é algo simples, mas as pessoas adoram confundir com um monte de termos técnicos.
    Profissionais financeiros, assim como qualquer outro profissional, faz uso do jargão para impressionar seus clientes. É a lei da “selva”.
    Eu sempre desconfio de falsos gurus com propostas mirabolantes. Seguir a tendência é uma boa forma de sucesso. Você não ficará rico do dia para a noite, mas também não perderá tudo numa previsão errada.

    Abraço!

  2. Guilherme 8 de julho de 2010 at 11:23 #

    Jônatas, concordo integralmente. Os “especialistas” gostam de nos confundir. Educação financeira é o caminho para evitarmos essas perigosas armadilhas.

    É isso aí!
    Um grande abraço, e que Deus os abençoe!

  3. Cristian Souza 8 de julho de 2010 at 15:42 #

    Prezado Hotmar,

    Você teria informações sobre como funciona o imposto de renda no paradigma de investimentos em ETF nos Estados Unidos?

    Suscito a questão para saber se nos Estados Unidos a tributação de um ETF seria a mesma da de outro papel de empresa negociado nas bolsas de lá.

    Em recente artigo você pontuou muito bem que no Brasil devemos comparar os ETFs com Fundos de Ações, porquanto invariavelmente incidirá, no resgate, o IR de 15%. Mas o mesmo ocorreria nos EUA?

    Caso lá a tributação seja diferente da sistemática brasileira (com tributação idêntica a outros papéis de empresas), acredito que o conselho amplamente difundido do ETFs (Fundos Passivos) seria mais aplicável para aqueles investidores, já que a regra tributária seria idêntica.

    Para nós, entretanto, não seria mais interessante a montagem de uma carteira individual que replicasse os 15 principais papéis do índice Ibovespa, por e.x., desde de que observado o limite de isenção de R$20 mil mensal em resgates?

    Acredito que a faixa de isenção de tributação na venda de papéis (R$20 mil mensal), caso não seja modificada a regra no futuro, traz um grande diferencial para quem planeja, por exemplo, resgates mensais regulares para complementação de renda na aposentadoria (espécie de previdência privada).

    Sei que você e alguns outros blogs já discutiram o tema amplamente, salvo o engano, em abril deste ano. Contudo não encontrei ninguém que fizesse uma análise sob este prisma, que explicasse em detalhes o sistema dos produtos financeiros de lá (ETF, 401K, etc.), realçando a eventual diferenciação da carga tributária incidente no resgate dos ETFs brasileiros vs. os americanos…

    Só tenho medo de estarmos analisando e importando “conselhos” de lá, os quais seriam melhor aplicáveis para o paradigma deles e não ao nosso…

  4. Cristian Souza 8 de julho de 2010 at 15:56 #

    Não tinha percebido a autoria do excelente artigo. Retifico, então, o início de meu comentário para “Prezado Guilherme”.

    Abs,

  5. Guilherme 8 de julho de 2010 at 18:03 #

    Cristian, pelos estudos que realizei até agora – alguém me corrija caso eu esteja errado – uma das grandes vantagens do sistema norte-americano é a possibilidade de montar uma cesta de previdência privada com fundos de índice passivo *escolhidos* pelo investidor, numa conta diferida de impostos, como os planos 401(k).

    Em outros termos, isso significa um produto mais personalizado e adaptado ao perfil do investidor, que não precisa “engolir” os produtos oferecidos pelas operadoras.

    No Brasil, isso funciona de maneira totalmente distinta. Por exemplo, se você quiser investir num PGBL para ter o benefício fiscal, deverá aceitar os investimentos oferecidos pelo seu banco. Você não tem ingerência alguma sobre o “recheio” do plano, podendo apenas mudar de “veículo”, ou seja, de banco/seguradora.

    Nos Estados Unidos, você pode personalizar o “recheio” do plano de previdência privada. Ou seja, pode montar um plano 401(k) com um fundo de índice passivo que siga o S&P 500 ou o Dow Jones, e assim por diante.

    Diante dessas ponderações, há, sim, possibilidades de ganhos na montagem de uma carteira que replique o Ibovespa, ao invés da utilização de um fundo de índice passivo “puro sangue”, justamente por conta dos 15% de IR, que podem fazer muitos estragos à medida que o tempo passa, e o “bolo” cresce.

    Essa é, por exemplo, a tática do Investimentos & Finanças. Embora os custos operacionais aumentem um pouco, vejo que os benefícios de isenção de IR e recebimento de dividendos tendem a compensar largamente essa estratégia de aplicação única.

    Outra coisa que existe nos EUA, mas não por aqui, é a comercialização de fundos de índice passivo com taxas inferiores a 1% na própria rede bancária. Fundos de ações com taxas de 0.2%, 0.3%, na rede bancária, são coisa comum nos EUA, mas inexistentes no Brasil, onde tais fundos só existem no ambiente de Bolsa.

    Uma alternativa “mista” é mesclar as duas estratégias: usar uma parte dos investimentos aplicando em ETF, para captar o rendimento total do mercado, visando projetos específicos de longo prazo que exigem o desembolso de altas quantias de uma só vez (p.ex., compra de um imóvel), e outra parte para financiar uma aposentadoria privada, por meio de recebimento de rendimentos mensais, aplicando em ações.

    Preparei um artigo discorrendo sobre essa estratégia híbrida, e entrará no ar semana que vem. Pode ser uma saída intermediária interessante, ainda mais considerando que devemos ter “minis-carteiras” de investimentos ajustadas a objetivos específicos.

    É isso aí!
    Um grande abraço, e que Deus os abençoe!

    É isso aí!
    Um grande abraço, e que Deus os abençoe!

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