Como se proteger de crises econômicas *pessoais*?

Na Bolsa de Valores, momentos de crise são ótimas oportunidades para comprar ações, de boas empresas, com grande desconto, ou seja, com boa margem de segurança, como gostava de dizer Benjamin Graham, o mentor intelectual de Warren Buffett. Mas, e como se proteger quando a crise atinge não a macroeconomia, a Bovespa, ou os preços do supermercado da esquina, mas atinge você? Isto é, como fazer para reagir diante de uma situação marcada por problemas econômicos no nível pessoal, como uma súbita notícia de desemprego, uma doença grave em algum membro da família, uma internação hospitalar surgida de forma inesperada, um pedido de socorro de um parente ou familiar próximo?

A resposta tem basicamente três palavras: reserva de emergência.

Também conhecida como colchão de segurança, construir uma boa e robusta reserva de emergência lhe dará a tranquilidade necessária para enfrentar as tempestades da vida não-financeira sem impactar demasiadamente sua vida financeira. Mas não é só isso – aliás, sobre isso já abordamos em outro tópico, comentando as vantagens em ter uma boa reserva em renda fixa.

A idéia que eu defendo aqui é que a reserva de emergência não seja constituída apenas por dinheiro (cash), mas abranja também um pacote completo de produtos e serviços que façam você gastar menos dinheiro quando estiver diante de uma crise econômica em nível pessoal ou familiar.

Vamos ver, portanto, alguns dos itens que podem compor a sua rede ampliada de proteção.

Plano de saúde. Quanto mais completo, melhor, pois menos dinheiro será preciso desembolsar, ou seja, tirar de seu colchão de segurança, já que uma UTI de hospital não sai barato, conforme alertamos em outro tópico. Uma coisa válida a pesquisar é ver se seu plano conta com algum convênio para compra de remédios mais baratos, já que todos sabemos muito bem que, em alguns casos, é o preço dos remédios que pesa mais no orçamento doméstico.

Seguro de vida ou por invalidez. Para quem não tem dependentes, um seguro de vida não será tão necessário. Porém, para aqueles profissionais solteiros que não têm dependentes, ter um seguro que cubra os riscos com invalidez permanente pode ter muito mais valia, no sentido de que a perda da capacidade econômica produtiva poderá causar sérias consequências na manutenção do padrão de vida atual e futuro. Geralmente, os custos de seguros por invalidez ou por morte acidental geralmente são mais baixos que os dos seguros de vida tradicionais. Verifique com um corretor de seguros quais as opções disponíveis no mercado, para efeitos de comparação entre os diferentes planos e coberturas. Vale também checar se eles contam com algum serviço de proteção adicional, como auxílio-funeral e outros tipos de assistências acessórias. A importância dos seguros de vida e por invalidez também foi abordada separadamente em outro artigo escrito aqui no blog.

Seguro residencial. Tão importante quanto proteger a própria vida é proteger os bens que compõem a residência, em caso de eventos como furto, roubo, danos elétricos etc. Novamente, fazer uma comparação entre os diferentes planos ofertados pelo mercado, e não somente contar com aquele que é oferecido pelo banco em que você tem conta, é essencial para contratar o melhor plano sob o aspecto do custo/benefício. Muitos seguros oferecem serviços adicionais, como eletricista, encanador, chaveiro etc., o que pode ser também interessante em momentos de crise. Uma dica aqui é tentar pagar o seguro residencial à vista, já que os planos de saúde e seguros de vida cobram mensalidades, ou seja, desembolso de dinheiro todo mês.

Seguro de carro. Tal como nos itens anteriores, ter uma cobertura para o veículo é importante na medida em que, se acontecer algum evento imprevisto, você sabe que não precisará tirar muito dinheiro da reserva de emergência, isto, é claro, se o seguro que você contratou cubra o evento que ocorreu. É por isso que, às vezes, pode não compensar comprar o seguro mais barato possível, pois a diferença de preço será cobrada no momento em que ocorrer o evento que desencadeou a crise. O dinheiro gasto no seguro, nesses casos, irá comprar também a tranquilidade necessária para os momentos de infortúnio. Muitas pessoas resistem a fazer tal seguro, preferindo investir o dinheiro, que iria para seguro, para um investimento. O problema é que o sinistro – perda, furto, roubo etc. – pode ocorrer um mês depois da aquisição do veículo. A vida é cheia de imprevistos e os imprevistos, é claro, podem ocorrer também em relação aos nossos bens, por mais precavidos que sejamos.

Rede de contatos profissionais e pessoais. Você certamente tem amigos cujas profissões podem ser extremamente úteis para te auxiliar, ainda que minimamente, em momentos de crise, nem que essa ajuda seja na forma de indicar outros profissionais mais experientes e habilitados a lidarem melhor com o problema que está te incomodando. São os casos de médicos, dentistas, terapeutas, psicólogos, farmacêuticos, engenheiros…Nesse sentido, saber construir relacionamentos saudáveis e ter amigos com quem se pode contar nessas horas é de uma valia inestimável na hora de enfrentar as crises.

E a reserva em dinheiro?

Pois bem, dela já abordamos em outro tópico, mas voltamos a repetir aqui: ela deve ser substancial. Os autores do ramo divergem quanto ao mínimo necessário. Alguns falam em 6 meses, outros (Bastter, por exemplo), falam em 24 meses. Não importa. O fato é que ela deve ser grande o suficiente para evitar que você tome empréstimos e agrave mais ainda sua situação de crise pessoal, adicionando um problema financeiro que pode ser difícil resolver mais pra frente. Mas algumas dicas sempre permanecem válidas, e vamos recapitular duas:

Deve estar alocada em um investimento conservador. O princípio que manda aqui é o da preservação de capital. Ações estão fora. Já pensou você precisar sacar seu dinheiro justamente no mês em que a Bolsa desabou mais de 20%, ou sua ação desaba 40%?

Deve ser de fácil liquidez, ou seja, resgate. Dê preferência a poupança, CDBs, fundos DI com resgate em D+0. Portanto, investida em algum produto de banco no qual você é correntista. Ter um bom relacionamento com o gerente do banco nessas horas pode ser crucial, já que você pode precisar sacar do banco uma quantia maior do que a disponibilizada pelo banco. É que todo banco oferece limites diário e mensal para resgates. Procure checar com seu banco quais são esses limites. Você pode ter um limite diário de R$ 5 mil e mensal de R$ 20 mil, e precisar sacar, num único dia, R$ 30 mil. Nesses casos, saber quem é o seu gerente – e o seu gerente também, saber quem é você – pode ser crucial para agilizar o saque e abrir uma exceção aos limites pré-determinados.

Como você pode inferir, construir uma boa rede de proteção requer um investimento tanto em recursos monetários quanto em recursos pessoais, de relacionamentos. Dá um certo trabalho de construir, e custa algum dinheiro manter, principalmente os seguros e assistências. Porém, em troca, você saberá que poderá contar com a tranquilidade financeira na hora de enfrentar as turbulências que todos nós estamos sujeitos a enfrentar, e não adicionará  – ou  não agravará ainda mais – o elemento “crise financeira” aos problemas – emocionais, de saúde etc. – pelos quais você está passando, lhe ajudando, dessa forma, a ter melhores condições de sair da crise o quanto antes possível.

É isso aí!

Um grande abraço, e que Deus os abençoe!

p.s.: a propósito, ontem foi publicado mais um artigo que escrevi para o blog Dinheirama, intitulado “Valorize aquilo que você já tem”. Não deixem de lê-lo! 😀

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5 Responses to Como se proteger de crises econômicas *pessoais*?

  1. Elvis 15 de abril de 2010 at 16:59 #

    Informações de grande valor! Muito útil! Hotmar, obrigado por reservar um pouco (ou muito, não sei) do seu tempo para continuar desenvolvendo um blog como este, conteúdo nota 10.

    Abraço.

  2. Thais Aux 15 de abril de 2010 at 18:35 #

    Eu nunca tinha pensando em todos esses seguros. Realmente, é nessas horas que eles são importantes. Mas saiu hj no Brasil Econômico uma reportagem sobre seguros de nichos – até seguro de roupa! Aí já é meio demais, né???

    Bjs!

  3. hotmar 15 de abril de 2010 at 19:47 #

    Elvis e Thaís, obrigado!

    Elvis, por enquanto, como estou tendo algum tempo disponível, consigo manter essa média de postagens. Não sei quanto ao futuro, se conseguirei manter esse ritmo atual – espero que sim! – porém, se não consegui-lo, avisarei aqui no blog os motivos para tanto.

    Thais, realmente, tá certo q o mercado de seguros ainda tem lacunas que precisam ser preenchidas, mas alguns seguros são exagerados……rsrs….

    Pode chegar ao ponto de investir o dinheiro que iria para um seguro “de nicho” num investimento mesmo, que cubra o risco de perda/deterioração de um bem.

    É isso aí!
    Um grande abraço, e que Deus os abençoe!

  4. Eduardo 15 de abril de 2010 at 23:26 #

    Hotmar, respeito suas opiniões, mas acho que viver com todos esses seguros é inviável. Não ia sobrar dinheiro algum pra outras coisas. Acho que seguro de saúde (talvez um que cubra apenas internações, cirurgias e alta complexidade) e um seguro de vida caso o conjuge ou prole não possa se sustentar na sua falta faz muito sentido. Porém, todos os outros seguros são questionáveis do ponto de vista atuarial. Devemos, na minha opinião, avaliar caso a caso a real necessidade dos outros seguros. Só fazer seguro que vale a pena que se faça.

  5. hotmar 16 de abril de 2010 at 9:39 #

    Eduardo, concordo, como diz um velho ditado: “cada caso é um caso”. 😉

    É isso aí!
    Um grande abraço, e que Deus os abençoe!

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