Resenha: The Glass Cage – How our computers are changing us, de Nicholas Carr – Parte 2

Essa é a continuação da resenha do livro The Glass Cage – How our computers are changing us, de Nicholas Carr.

A primeira parte pode ser conferida aqui.

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A automação em diversas profissões

Nas ciências exatas, engenheiros e arquitetos que antes realizavam seus trabalhos usando as mãos, e, portanto, usando a coordenação motora, combinada com a acuidade dos olhos, para fazer os esboços de projetos em folhas de papel, utilizando canetas, lápis, réguas e compassos, agora podem fazer tudo em telas de computador, movimentando basicamente os olhos, em programas como CAD e similares, que oferecem inegáveis benefícios em termos de produtividade e redução de custos e de tempo.

Porém, mesmo nesse campo de atuação muitos profissionais estão percebendo uma degeneração de suas habilidades, já que, ao se transferir todo o trabalho para máquinas cada vez mais robustas e mais inteligentes, eles percebem um declínio de sua criatividade e capacidade de pensar de modo crítico e reflexivo.

Isso porque pensar de modo criativo não envolve apenas o uso do cérebro, mas sim o uso do corpo como um todo, ou seja, cérebro, olhos, tronco e membros – nesse caso específico, as mãos. Quando todo o trabalho fica confinado numa tela de vidro, a tendência é ocorrer uma perda, ainda que parcial, mas significativa, das habilidades psicomotoras relacionadas ao uso do corpo para realizar projetos e sintetizar ideias, já que praticamente só se usam os olhos.

O autor diz (p. 148), que “nós pensamos não apenas com nossos cérebros, mas também com nossos olhos e ouvidos, nariz e boca, membros e tronco. E quando usamos ferramentas (lápis, papel, compasso, régua) para ampliar nosso entendimento, nós pensamos com eles também”.

O fato é que “os processos biológicos que constituem o ‘pensamento’ emergem não apenas das computações neurais do cérebro, mas também das ações e percepções sensoriais do corpo inteiro” (p. 149).

E aqui vem a ironia: quanto mais descobertas há na função essencial das ações físicas e percepções sensoriais no desenvolvimento de nossos pensamentos, memória e habilidades, menos tempo gastamos agindo no mundo real, e mais tempo vivemos e trabalhamos através do meio abstrato das telas de computadores.

Isso é fácil de constatar sobretudo com as crianças e adolescentes: a maioria delas prefere ficar interagindo com telas de vidro de seus celulares do que brincando ao ar livre, em parques ou atividades lúdicas, que envolvam o uso de mais partes do corpo além do cérebro.

Perdendo a capacidade de pensar, de memorizar, de interagir…

Essa intrusão da tecnologia é um fato inevitável que vem ocorrendo em praticamente todas as profissões, e revela algo assustador.

Segundo o autor (p. 112), “quanto mais habilidades são construídas dentro da máquina, mais ela vai assumindo o controle de todo o trabalho, e menos oportunidades haverão, para os trabalhadores, a fim de eles desenvolverem seus mais profundos talentos, tais como interpretação e julgamento, que, assim, declinam”.

Uma passagem curiosa do livro diz respeito a um grupo de índios canadenses que costumava usar apenas os conhecimentos adquiridos por meio das tradições empíricas – posição das estrelas e da Lua no céu, cantos dos pássaros, movimento dos animais, frequência das marés etc. – para se mover em seus territórios. Ou seja, as memórias geoespaciais estavam ativamente desenvolvidas em seus cérebros, simplesmente porque foram bem construídas em seus circuitos mentais.

A um grupo de jovens dessa tribo foram dados aparelhos GPS e, é claro, essa tecnologia foi rapidamente adotada por eles – lembre-se do viés do ser humano, dito anteriormente, de preferir a facilidade sobre os esforços.

Ocorre que eles se habituaram tanto ao GPS que, quando lhes foi retirado o uso do aparelho eletrônico, eles ficaram – sim, você acertou – completamente incapazes de se mover pelos seus territórios.

Nicholas Carr diz (p. 135) que “um dos mais debilitantes sintomas de demência, que inclui o Mal de Alzheimer, é a degeneração hipocampal e entorrinal (áreas específicas do cérebro), e a consequente perda da memória espacial. A maneira como as pessoas exercitam suas habilidades de navegação influencia a funcionalidade e até mesmo o tamanho do hipocampo – e pode promover uma proteção contra a deterioração da memória. Quanto mais as pessoas trabalharem de forma árdua para construírem seus mapas cognitivos de espaço, mais fortes ficarão os circuitos de memória responsáveis pelo armazenamento dessas informações”.

A questão é que a memória é uma das áreas vitais do cérebro que está sendo cada vez mais delegada para as máquinas. Na nossa infância, éramos treinados para armazenar e memorizar fatos importantes do Brasil e do mundo, aprender a fazer cálculos de cabeça etc. Hoje, se você perguntar a uma criança quem descobriu a América, é capaz dela dizer, sem rodeios: “não sei. Espera um pouquinho que vou buscar a resposta no Google”.

Que geração estamos criando?

Carr diz (p. 137), num trecho brilhante, sobre a importância de exercitarmos a memória:

“Em virtude da memória ser aquilo que não apenas nos faz lembrar de eventos passados, mas também nos faz responder de modo inteligente a eventos presentes, bem como serve para planejar nosso futuro, qualquer degradação de suas funções tende a piorar a qualidade de nossas vidas”.

Achei fantástico esse trecho do livro, pois nos faz refletir sobre até que ponto ficar delegando, para as máquinas, funções cerebrais tão importantes como a constituição de memórias, é saudável até para nossa existência enquanto seres humanos.

Será que chegaremos a um ponto de desenvolvimento tecnológico e de inteligência artificial onde as máquinas, atualmente nossos servos, serão nossos mestres de tal modo a nos eventualmente tornar dispensáveis?

Essa também foi a conclusão do leitor Henrí Galvão em comentário escrito na primeira parte da resenha. Confiram:

“Como os algoritmos provavelmente vão ocupar cada vez mais espaço nas mais diversas áreas, a tendência é que cada vez mais profissionais se tornem “dispensáveis”, por assim dizer”.

Como os computadores estão mudando nós

O subtítulo do livro é bem interessante e sugestivo, mas não tem nada de metafórico. Simplesmente é o que está ocorrendo hoje.

Com todas as pessoas esperando gerenciar suas vidas através de telas de vidro, a sociedade naturalmente adapta suas rotinas e procedimentos a fim de adequá-las às rotinas e procedimentos do computador. Nada mais natural.

O problema é que, à medida que nos habituamos a realizar esse tipo de adaptação, mais a tecnologia vai tirando poder de nós. A tecnologia – ou os seus criadores – vão impondo limites às nossas vidas, e vamos nos adaptando a essas restrições e limitações.

Deveríamos, então, eliminar a tecnologia?

Não! Como diz o autor, “a tecnologia está na nossa natureza. É através das nossas ferramentas que damos forma aos nossos sonhos, que os trazemos ao mundo real. A tecnologia, ao nos proporcionar meios de irmos além de nossos limites corporais, também altera a nossa percepção de mundo, e o que o mundo significa para nós. Usada de modo bem pensado, a tecnologia se torna muito mais do que um meio de produção ou consumo. Torna-se uma ferramenta de experiências, que nos conduz a meios de tornar nossas vidas mais ricas e engajadas” (p. 215-218).

O problema das tecnologias digitais da automação, objeto central do livro, é que elas, ao invés de nos convidar para explorar o mundo através de nossos sentidos e expandir nossas possibilidades, frequentemente criam o efeito contrário. As tecnologias digitais de automação são projetadas para serem “desconvidativas”. Elas nos tiram do mundo real. As telas de vidro revelam apenas uma sombra do mundo. E elas nos prendem. Como se fossem gaiolas de vidro – glass cages.

O autor conclui que, para assegurar o bem-estar do futuro da Humanidade, nós precisamos colocar limites à automação, mudando a nossa ênfase, a fim de priorizarmos o florescimento social e pessoal, ao invés de ficar focando somente nos avanços tecnológicos.

Isso porque (p. 232), “uma das coisas mais marcantes do ser humano é também uma das primeiras que negligenciamos: cada vez que nós colidimos com o real, nós aprofundamos nosso entendimento de mundo, e nos tornamos mais conscientes de que somos parte dele. A automação sem dúvida facilita as coisas que nós queremos, mas ela também nos distancia do trabalho e da arte da construção do conhecimento e do saber, na medida em que nos tornamos cada vez mais criaturas de telas de vidro”.

Pense, por exemplo, no caso da tribo de índios canadenses, que construiu todo um acervo de conhecimento geoespacial a partir do contato com o real, com a natureza, e de como o uso do GPS acabou desconstruindo esse conhecimento. Ou no caso de muitos médicos, relatado no post anterior, que não se engajam no diálogo com os pacientes, preferindo consumir sua atenção com as telas de computador, diminuindo, assim, as chances de prescrição de melhores tratamentos. A “colisão com o real” é importante para aprofundarmos nosso entendimento de mundo.

Conclusão

Como eu disse ao resenhar o livro anterior do Nicholas Carr, o autor se inclui no grupo de pessoas que é bastante cética quanto aos propalados benefícios da tecnologia.

Isso porque existe todo um movimento, orquestrado pela mainstream e pelos gigantes da tecnologia, como Google, Amazon, Facebook e Apple, pintando o futuro da tecnologia como se ele fosse um mar de rosas – basta ver as incontáveis palestras TED no YouTube, com todo o entusiasmo de empreendedores e palestrantes vislumbrando um futuro “maravilhoso” à medida que as tecnologias avançam e se aprimoram. Em relação ao último evento da Apple (onde ela apresentou seus novos iPhones), algumas pessoas disseram, com bom humor, que o jeito que Tim Cook (CEO da Apple) falava sobre os novos aparelhos da Apple era como se estivesse apresentando um produto que “iria salvar a Humanidade”.

Esse é o jogo das empresas de tecnologia: te convencer de que você precisa comprar as últimas novidades no setor.

Mas nem tudo é um mar de rosas, e Carr consegue provar, com argumentos contundentes, que a automação deve ser usada com sabedoria, já que um uso excessivo dela provoca deterioração e degeneração de muitas de nossas habilidades cognitivas e de memória, o que pode provocar até alterações adversas em nossas interações sociais, e inclusive em nossas emoções.

Nesse contexto, ter uma dose de ceticismo não deixa de ser saudável, a fim de termos um posicionamento crítico sobre a adoção da automação em nossas vidas.

Esse livro, como o anterior, é excelente, e nos convida a profundas reflexões sobre o modo como temos conduzido a vida em face das tecnologias digitais de automação. Vale a pena a leitura!

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9 Responses to Resenha: The Glass Cage – How our computers are changing us, de Nicholas Carr – Parte 2

  1. ANDRE R AZEVEDO 24 de setembro de 2018 at 14:55 #

    Quando assistíamos Blade Runner, Total Recall a até Matrix as coisas ainda pareciam muito distantes. Contos de Issac Asimov e o épicos 2001 de Stanley Kubric, então, nem se fala…

    E o futuro chegou! Tempo de lidar com a realidade, né?

    Parabéns pelas resenhas, Guilherme! Muito boas!

    Abraço!

  2. jeferson k 24 de setembro de 2018 at 20:04 #

    Achei interessante os comentários referente as gigantes das tecnologia, elas são muito poderosas…Mas sambam na nossa frente colocando o preço que quer, lançando o que quiser, quando bem entendem também.
    Sempre imaginei que poderiam lançar coisas melhores de uma vez, mas ficam se segurando só para ter “gerações de produtos” e vender todo ano uma versão.
    uma especie de obsolescência programada

    • Guilherme 26 de setembro de 2018 at 17:17 #

      Isso, Jeferson, os interesses corporativos clamam pela obsolescência programada, para sempre terem “necessidades” para venderem.

      Abraços!

  3. Economista Visual 27 de setembro de 2018 at 20:10 #

    Fala Guilherme,

    É aquela famosa frase que erroneamente atribuem a Einstein, mas que não deixa de fazer sentido: “quando a tecnologia ultrapassar a interatividade humana, o mundo terá uma geração de idiotas”

  4. Simplicidade e Harmonia 1 de outubro de 2018 at 8:47 #

    Guilherme,

    Excelente continuação da resenha.

    “um declínio de sua criatividade e capacidade de pensar de modo crítico e reflexivo.”
    Infelizmente isso está ocorrendo cada vez com mais frequência.

    Como você disse, precisamos ver tudo com um certo ceticismo, pois aceitar tudo “mastigado” muitas vezes nos distancia até mesmo de nós mesmos, de nossa essência e objetivos.

    Boa semana,

  5. Henrí Galvão 1 de outubro de 2018 at 14:15 #

    Cara, não tem nem como dizer o quão emocionado eu fiquei de ter sido mencionado nesse texto.

    E acho importante ressaltar aqui quem me levou a pensar nisso: Yuval Harari, através de seu livro Homo Deus.

    Inclusive Harari dá até um nome pra esse fenômeno de se confiar demais em algoritmos eletrônicos: dataísmo.

    Os dataístas, segundo ele, “são céticos no que diz respeito ao conhecimento e à sabedoria humanos e preferem depositar sua confiança em megadados e em algoritmos computacionais.”

    Querendo ou não, todos estamos nos tornando um pouco dataístas. E esse livro do Carr me parece um ótimo contraponto a isso.

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