Timing Gap: retornos ponderados pelo tempo (time weighted returns) vs. retornos ponderados pelo dólar (dollar weighted returns)

Agradecimentos

Não poderia recomeçar a escrever no blog sem antes agradecer as várias mensagens de encorajamento postadas aqui no blog, no Twitter, ou via email particular. Essa energia positiva desempenhou papel fundamental para que eu tivesse tranquilidade para tocar a vida em suas variadas facetas. Obrigado a todos pela compreensão! Que venha o Valores Reais 2.0! 😀

Calma! Não se assuste com o título desse artigo. Vou explicar detalhadamente abaixo o significado dos termos técnicos acima delineados, bem como as repercussões práticas desses mesmos termos na sua filosofia pessoal de investimentos. O que vocês lerão abaixo é inédito no Brasil, pelo menos do grande público, e só discutido, muito provavelmente, nos ambientes acadêmicos das escolas de negócios brasileiras (ou nem isso…)

Mas esse assunto é importante demais para ficar restrito ao ambiente acadêmico, dada a sua repercussão eminentemente prática na vida de qualquer investidor no mercado financeiro, e particularmente no mercado de ações. As considerações abaixo tiveram como fonte principal o livro The Power of Passive Investing: More Wealth with Less Work, de Richard Ferri, cuja resenha espero publicar em breve.

Market timing

Resumindo de forma bem simples, market timing é a estratégia de fazer decisões de compra e venda de ativos financeiros pela tentativa de prever os movimentos futuros de preços de mercado, baseadas, por exemplo, em análise de cenário macroeconômico e análise técnica.

O market timing está na essência de uma alocação tática de ativos, que muda o peso dos ativos dentro da carteira conforme previsões de mercado e tendências de preço – Richard Ferri é um crítico ferrenho dessa estratégia, e já já vocês saberão o porquê disso. Já na alocação estratégica de ativos, o investidor mantém uma proporção fixa de ativos em cada classe, rebalanceando-a de tempos em tempos, anualmente, por exemplo. Na alocação tática, o rebalanceamento não ocorre em períodos certos de tempo, ele varia conforme as condições de mercado,  conforme o “timing” do investidor, aproveitando e “surfando” em tendências que podem ou não se confirmar, na tentativa de ganhar rendimentos extras.

Gap

Gap é lacuna, buraco, vácuo. Normalmente, quem investe supondo que tem habilidades no mercado tem uma atuação ativa, fazendo market timing. A consequência é, em quase 100% dos casos, ter retornos piores do que os oferecidos pelo mercado. Essa diferença negativa entre o retorno do investidor e o retorno do mercado é, então, o timing gap.

Time weighted return: retorno ponderado pelo tempo

Quando você lê uma notícia como “O Índice Bovespa fechou 2010 com retorno de 1%”, o que você está lendo, na verdade, é um retorno ponderado pelo tempo, isto é, o retorno que um investidor teria se comprasse um fundo que replicasse a carteira teórica do IBov, como o BOVA11 (sem considerar o peso da taxa de administração, corretagens, emolumentos e impostos, óbvio), no último dia de 2009, e a mantivesse até o final de 2010, sem fazer nenhum aporte ou retirada no investimento.

Dollar weighted return: retorno ponderado pelo dólar

Porém, o que foi descrito acima em relação ao exemplo hipotético da carteira BOVA11 não é a realidade de 99% dos investidores. O que todo mundo faz, o que os investidores instuticionais fazem, o que você faz, o que eu faço, é, periodicamente, fazer novos aportes nos investimentos, comprando novas ações/cotas, bem como fazendo retiradas durante esse mesmo intervalo de tempo, vendendo ações/cotas. Ou seja, o retorno ponderado pelo tempo raramente reflete o retorno real de um investidor, porque não contabiliza o dinheiro aportado ou retirado dos fundos.

É aqui que entra o cálculo do retorno ponderado pelo dólar, uma vez que esse método calcula os retornos reais das carteiras.

Um exemplo prático irá esclarecer melhor a diferença.

Suponha que você tenha investido R$ 10 mil num fundo de ações no início de 2009. No final do ano, sua carteira rendeu 15%, fazendo você ter um lucro de R$ 1.500. Feliz com o resultado, você resolve investir mais R$ 10 mil no começo de 2010. Só que, infelizmente, sua carteira tem um desempenho negativo, e o fundo perde 10%. A pergunta é simples: no final desse período de 2 anos, qual foi o retorno ponderado pelo dólar, e qual foi o retorno ponderado pelo tempo?

Foi de 1.7% o retorno anualizado ponderado pelo tempo de tal fundo de ações. Matemática simples: o fundo rendeu 15% no primeiro ano (de modo que terminou o primeiro ano com R$ 11.500) e perdeu 10% no segundo ano (R$ 11.500 – 10% = R$ 10.350). Logo, R$ 10 mil investidos no fundo, em 2009, redundariam em R$ 10.350 no final de 2010. 1.7% de retornos compostos. Mas lembre-se do que eu disse acima: “o retorno ponderado pelo tempo raramente reflete o retorno real de um investidor, porque não contabiliza o dinheiro aportado ou retirado dos fundos.”

No nosso exemplo prático, o investidor aportou mais R$ 10 mil no final de 2009. Como o fundo perdeu 10% no final do segundo ano, ele terminou com um saldo de R$ 19.350, embora tivesse ganho 15% no primeiro ano. Não, ganha 15% e perde 10% não é saldo final de 5%. A matemática financeira não trabalha com médias simples. Trabalha com médias compostas. E ainda deve contabilizar eventuais entradas ou saídas de capital. Ele não teve um retorno anualizado positivo de 1,7%. Pelo contrário. Ele teve um retorno negativo anualizado de 2,2%esse foi o retorno ponderado pelo dólar. E isso apesar de o fundo ter tido retorno positivo! O gap entre o retorno ponderado pelo dólar e o retorno ponderado pelo tempo, ou melhor, o timing gap, foi de estonteantes 3,9% anualizados!

Mas aí você poderia dizer: ah, mas tá na cara que esse exemplo foi “direcionado”, pois ninguém iria aportar mais dinheiro num fundo que tivesse tido rentabilidade positiva recente”. Será?

O que vemos no mercado financeiro é justamente o oposto desse senso comum: pessoas aportando mais dinheiro em fundos/ações que tiveram ótimo rendimento passado, e pessoas vendendo ações e resgatando dinheiro de fundos justamente quando eles tiveram rentabilidade negativa recente. As pessoas têm uma tendência incrível de segurar por muito tempo posições perdedoras, só admitindo a venda quando já houve um enorme prejuízo, e de vender antes da hora, de modo muito rápido, posições em ações/fundos que, depois da venda, se valorizam ainda mais. Infelizmente, na realidade dos mercados financeiros, o market timing só redunda em prejuízos.

Estudos realizados por fontes fidedignas de informação, como Morningstar e DALBAR, concluíram sérias deficiências no timing das decisões de investidores. Em geral, em todas as classes de ativos, verificou-se que o timing gap chega a 1,5% negativo. Em alguns mercados foi até pior. De 1989 a 2009, de acordo com a DALBAR, os retornos ponderados pelo dólar (lembre-se: são aqueles que levam em conta aportes e retiradas de capital), dos fundos mútuos de ações nos EUA, tiveram um retorno anual composto médio de apenas 3,2%. Já o S&P 500 teve um retorno médio composto anual de 8,2%. O motivo parece óbvio: as pessoas compram mais na alta, e vendem mais na baixa…

Nos últimos 10 anos, os retornos ponderados pelo dólar, ou seja, retornos reais dos investidores, de todos os fundos nos EUA, foram, em média de 1,68% anualizado, enquanto os retornos ponderados pelo tempo tiveram 3,18% de rentabilidade.

Ôpa, tem alguma coisa errada aí. E para onde foi o gap de 1,5%? Ou seja, quem embolsou a diferença de 1,5% (3,18% do mercado – 1,68% do investidor médio = 1,50% de timing gap)?

Richard Ferri responde que uma parte foi para as corretoras. Outra parte foi para os gestores de fundos, que habilmente separam os investidores de seu dinheiro (taxas de administração e decisões erradas de timing). E a outra parte… (p. 128-129):

“Finally, believe it or not, a portion went to investors who develop a passive strategic asset allocation strategy and rebalance asset classes annually”.

😀

Não preciso dizer mais nada.

É isso aí!

Um grande abraço, e que Deus os abençoe!

 

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21 Responses to Timing Gap: retornos ponderados pelo tempo (time weighted returns) vs. retornos ponderados pelo dólar (dollar weighted returns)

  1. Evertonric 20 de fevereiro de 2011 at 19:03 #

    Legal Guilherme,
    Seja bem vindo de volta ao mercado amigo.
    Em relação ao artigo, acho muito interessante e construtivo os livros americanos, pois como todos sabem, eles tem uma história mais longa no mercado de capitais e óbviamente porque estundam este tema a centena de anos.
    Se todos entenderem a moral da história, vão ver que o melhor a fazer é não acompanhar a multidão. Ou seja, se o mercado esta caindo é porque estão vendidos, e nós entramos comprando…hehehehe
    Grato por compartilhar suas ideias, e a indicação do livro.
    Siga-nos tbem no Finanças Forever. ok.
    http://financasforever.blogspot.com
    Forte abraço
    EvertonRic

  2. Jônatas 20 de fevereiro de 2011 at 20:48 #

    Estava vendo o Ronaldo Fenômeno e ele falou da importância de estudar para ser alguém de sucesso na vida. Falou que ele foi 1 em 1 milhão, que ele é a exceção e não regra.
    Acontece à mesma coisa no mercado, o cara que tenta prever o futuro e vira sucesso é a exceção, a regra é que a quase totalidade perde dinheiro, sustentam as corretoras e garantem o lucro do investir “inteligente”.
    O problema é que a mídia sempre se interessa pela exceção e os incautos se espelham neles. Errado.
    A letra de uma música diz mais ou menos assim “… bom é bem simples…” e para mim no mercado de ações o bom é o simples, é o passivo.

    Guilherme meu amigo, obrigado por voltar a nos brindar com seus artigos maravilhosos. Sem dúvida nenhuma o VR é o melhor blog do Brasil. Inteligente, didático, objetivo e que fala a verdade.
    Livros e revistas são muito bons, mas quem realmente quer desenvolver um senso crítico deve ler de cabo a rabo o VR.
    Grande Abraço!

  3. Henrique Carvalho 20 de fevereiro de 2011 at 21:33 #

    Seja bem-vindo novamente Guilherme!

    E o artigo está sensacional! Parabéns pela abordagem de um tema complexo, traduzido em suas palavras claras e simples.

    Grande Abraço!

  4. Investimentos e Finanças 21 de fevereiro de 2011 at 0:13 #

    Olá Guilherme,

    Ótimo texto; acho que uma das causas principais deste comportamento errado do investidor é o medo quando o mercado ta caindo e a ganancia quando tá subindo. Se o investidor conseguir aumentar os investimentos na baixa vai acabar ganhando mais. Mas para isto é preciso ter inteligência emocional.

    Abs

  5. MJC 21 de fevereiro de 2011 at 7:56 #

    Guilherme, a sua adesão ao twitter foi muito boa, principalmente com a nova frequência de posts. Como não gosto de assinar feeds, fiquei sabendo do novo post por lá. Muito bom.

  6. Willy Fog 21 de fevereiro de 2011 at 12:58 #

    Guilherme meu caro,
    .
    É muito bom ler um texto seu novamente, e muito bom saber que você está na ativa novamente.
    .
    Abcs

  7. Finanças Inteligentes 21 de fevereiro de 2011 at 18:13 #

    Timming! É o que mais valorizo nas operações em renda variável. Pra mim o timming é tudo, faz toda a diferença do mundo quando você vai realizar o lucro ou prejuízo.

    Ninguém nunca vai saber sempre quando comprar ou quando vender, isso não existe. Mas para quem se dedica observar e estudar os padrões clássicos da análise técnica vai conseguir se orientar para não entrar no momento errado. É claro, o mercado é imprevisível e o operador nem sempre vai acertar a compra, o que ele tem que fazer é um gerenciamento de risco além de ter sangue frio pra sair antes de levar um prejuízo maior. Para efeitos psicológicos a parcela de capital destinada a este tipo de operação deve ser pequena, na minha opinião. E não adianta seguir dicas alheias que não funciona, muito menos ficar pulando de galho em galho, aí é suicídio financeiro.

    Abcs,

  8. Deuteron 21 de fevereiro de 2011 at 20:58 #

    Guilherme,

    parabéns pelo novo estilo de vida (também estou atrás dessa meta de vida saudável, acordando cedo 4 vezes na semana para correr as 6:40h por 30min e mais 40 min de academia após).

    Quanto ao Richard Ferri, o cara é sensacional: estou no último capítulo do “All About Asset Allocation”. De longe, o livro mais bem escrito e completo que já li sobre investimentos. Boa parte do que tu falasta no artigo ele aborda no livro acima, que já foi inclusive objeto de resenha tua.

    Grande abraço!

  9. Guilherme 21 de fevereiro de 2011 at 22:12 #

    Everton, obrigado! Gosto muito do Finanças Forever. Você está se revelando ser um escritor de mão cheia. O último artigo que você escreveu http://financasforever.blogspot.com/2011/02/persevera.html foi uma baita innjeção de ânimo! Só não comento lá por causa da falta daquela opção comentar como “Nome/URL”. Parabéns pelo blog e continue assim!

    Jônatas, muitíssimo obrigado pelos comentários! Apesar de não merecê-los, me esforço para melhorar a cada dia que passa!

    Henrique, obrigado! O tema é deveras complexo, por isso a minha preocupação em fazer o difícil tentar parecer simples. Me inspiro muito nos artigos que você escreve no HC Investimentos!

    I.F., obrigado! De fato, você disse tudo: inteligência emocional é pré-requisito para ter sucesso no gerenciamento de uma carteira de ativos!

    MJC, valeu! Retomando a vida no Twitter também!

    Willy, obrigado!

    F.I., você captou a essência da mensagem: estudar é o melhor caminho para ter sucesso em qualquer área. Uma preparação eficiente faz a diferença.

    Deuteron, obrigado! E que disposição, hein!? Correr às 6:40 não é mole não. Presumo que você deva acordar umas 6 ou na faixa das 5 mesmo. E legal que você esteja lendo o livro do Richard Ferri. O cara manda muito bem!

    É isso aí!
    Um grande abraço, e que Deus os abençoe!

  10. http://investindo-todo-mes.blogspot.com/ 21 de fevereiro de 2011 at 23:31 #

    Excelente artigo Guilherme; Parabéns!

    abços

    ITM

  11. Freitas 23 de fevereiro de 2011 at 13:59 #

    Esse artigo é para abri o olho, eu que vivi isso, segurei por um bom tempo um posição perdedora para vender sem ganhar um centavo.

  12. Gisely Chessed 24 de fevereiro de 2011 at 8:41 #

    Que bom que os posts voltaram!

  13. sergio 26 de fevereiro de 2011 at 12:23 #

    Amigo, excelente post ! Que bom seria se todos adotassem como princípio de vida que o futuro não pode ser previsto, vislumbrado ou mesmo imaginado ! A 1a consequência de tal premissa seria o autoperdão pelos erros do passado…

    Mas enfim, algumas observações:

    – o que vc descreve como alocação estratégica de ativos eu conhecia pelo nome de alocação tática, não me recordo onde formei tal conceituação equivocada.

    – O uso do cálculo da taxa de retorno interna para avaliar o retorno dos investimentos permite considerar corretamente o impacto dos aportes e retiradas, infelizmente poucos investidores sabem usar esse método.

    Abç !

  14. Guilherme 27 de fevereiro de 2011 at 21:29 #

    Valeu, pessoal!

    É isso aí!
    Um grande abraço, e que Deus os abençoe!

  15. andre gustavo 9 de março de 2011 at 8:45 #

    Hotmar,sentimos sua falta no Aquela Passagem.Entendo suas razões,mas que vc era “o cara” lá,não tenha dúvidas.Espero que um dia retorne

  16. Guilherme 22 de março de 2011 at 12:43 #

    André, obrigado! Vou voltar a comentar com mais frequência no Aquela Passagem!

    É isso aí!
    Um grande abraço, e que Deus os abençoe!

  17. Luiz 7 de abril de 2011 at 8:08 #

    Pessoal, olhem que matéria interessante sobre gastos com carro! Está no site do UOL cujo título é “Ir de táxi sai mais barato do que ter um carro em São Paulo”.

  18. Guilherme 7 de abril de 2011 at 20:32 #

    Muito interessante a matéria, Luiz!

  19. Financeiro Pessoal 21 de dezembro de 2014 at 14:46 #

    Guilherme my dear,
    .
    É muito bom ler um texto seu novamente
    bom d+ saber que você está na ativa novamente.

    abraço

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