Seja pão-duro com seus investimentos

No mercado de consumo, quem é pão-duro corre o risco de comprar “gato por lebre”. Isto é, pagar menos muitas vezes pode significar a compra de produtos ou serviços de qualidade inferior, obrigando o consumidor a realizar uma segunda compra, para substituir o primeiro produto/serviço comprado.

No mercado de investimentos, a lógica não é bem essa. Como já afirmamos em outro artigo – A mágica dos juros compostos você já conhece. Mas… e a tirania dos custos compostos?quem paga menos acaba recebendo mais. Se você é pão-duro para comprar, por quê também não sê-lo para investir? Você só tem a ganhar.

Seja pão-duro com os custos operacionais

Não titubeie: se o real tem que valer mais no seu bolso do que no bolso da corretora, escolha uma corretora que cobre os mais baixos custos operacionais – taxas de corretagem, tarifas de custódia, tarifas de saque (acredite: algumas cobram essa taxa…), custos de envio de TEDs/DOCs etc. Já demos as dicas aqui, em outro artigo Dando nomes #2 aos bois (digo, às corretoras): 4 corretoras que cobram taxas não muito caras de corretagem e/ou podem te isentar da taxa de custódia. Se for investir em fundos de ações com cotas negociadas em Bolsa, os populares ETFs, escolha opções com baixas taxas de administração: 4 fundos de ações realmente baratos.

Se for investir no Tesouro Direto, não esqueça de escolher corretoras que cobrem baixas taxas de custódia. A propósito, esse artigo vem a calhar: Tesouro Direto – ranking dos agentes de custódia.

Se o seu interesse for aplicar em fundos referenciados DI, não aceite altas taxas de administração, principalmente porque esse é um investimento puramente passivo, em que o trabalho do gestor consiste em “colar” o dinheiro aportado ao fundo num índice de referência. A propósito, vide o artigo Dando nomes aos bois (digo, aos fundos): 3 fundos referenciados DI não muito caros.

Seja rigoroso com os custos, e faça valer o poder da diversificação. Saiba que há alternativas de investimentos, em renda fixa, que não cobram taxa de administração, como CDBs, letras de crédito imobiliário,  debêntures e cadernetas de poupança – embora com rentabilidades nem sempre atraentes, além da liquidez ser mais restrita. Mas ser pão-duro com os investimentos não significa apenas reduzir os custos operacionais. Você também terá que saber lidar com os tributos, de forma lícita, obviamente.

Seja pão-duro com os tributos

O Governo quer ser seu sócio nos seus ganhos de capital. Mas é possível montar estratégias inteligentes que podem diminuir o impacto tributário sobre seus ganhos financeiros.

Nas ações, além da isenção tributária para vendas no mês de até 20k (que também vale para o ouro ativo financeiro), e sobre os dividendos recebidos, ainda é possível reduzir o estoque de imposto a pagar, conforme expliquei nesse artigo: [Informativo INI] Como diminuir o estoque de imposto a pagar, na venda de ações.

Na renda fixa, a principal dica é manter seus investimentos o maior tempo possível aplicado, para se beneficiar da menor alíquota de imposto de renda, que é de 15% sobre os ganhos de capital, para investimentos mantidos por no mínimo 720 dias (na prática, 2 anos).

Nos investimentos imobiliários para geração de renda, a melhor alternativa, dentre imóveis e fundos imobiliários, do ponto de vista estritamente tributário, é o investimento em fundos imobiliários, como explicamos aqui: 3 estratégias com investimentos em fundos imobiliários – FIIs. Os aluguéis dos FIIs são isentos do imposto de renda.

Quem sofre uma pesada carga tributária em seu contracheque pode abater o imposto de renda na declaração de ajuste anual, por meio de planos PGBL, com todas as cautelas referidas acima, e ainda ter cuidado com as taxas de carregamento – não se esquecendo, por óbvio, que o imposto de renda é diferido, ou seja, ele incide sobre a totalidade do patrimônio, por ocasião do resgate futuro.

Não esqueça também do IOF, aplicável, de forma regressiva, nas operações financeiras em fundos de investimentos em renda fixa, com prazo inferior a 30 dias.

Há algumas raras alternativas de investimento em renda fixa que também são isentas do IR, como a poupança, certificados de recebíveis imobiliários e as letras de crédito imobiliário (que também são isentas de taxas de administração).

Num cenário em que a SELIC fique bem próxima da rentabilidade da poupança (6,17% a.a. + TR), a poupança pode ser um instrumento de investimentos mais interessante – além de ter outros atrativos, conforme explicamos aqui: As vantagens ocultas da poupança – e não vou falar do IR! Mas o problema da poupança é que ela quase sempre perde da inflação. Daí o terceiro inimigo do nosso comportamento pão-durista: a inflação.

Seja pão-duro com a inflação

De nada adianta você driblar as taxas de administração e os tributos, se a rentabilidade de seus investimentos perder da inflação. Em outros termos, o que importa não é a rentabilidade bruta nominal, mas sim a rentabilidade líquida real – conforme explicamos aqui: O Ibovespa não está perto de atingir seu topo histórico. E essa não é uma pergunta. É uma afirmação. E como obter retornos reais? Em investimentos que, historicamente, possam ganhar da inflação.

Isso inclui investimentos em Bolsa de Valores (embora isso não seja garantia de nada, pois rentabilidade passada não é garantia de rentabilidade futura), e aplicações em renda fixa atreladas ao CDI/SELIC, como a LFT: Não é a LFT um investimento que nos protege da inflação no presente?

Investimentos em imóveis (cujos aluguéis normalmente são indexados a algum índice de preços), e em ouro também podem garantir rentabilidade líquida real, embora não seja garantia de que isso possa vir a ocorrer.

Mas o único investimento que apresenta uma correlação positiva com a inflação é mesmo a NTN-B, título do Tesouro Direto atrelado ao IPCA, que nada mais é do que uma cópia das TIPS norte-americanas. Eles garantem juros reais, protegendo o poder de compra de seu investimento – embora haja tributação. Como a porção dos juros reais também sofre os efeitos do imposto de renda, a estratégia mais eficiente para reduzir o impacto dos tributos é manter o investimento por prazo superior a 2 anos, para se beneficiar da menor alíquota do imposto de renda (15%).

Conclusão

Se você quiser ter o maior retorno líquido real sobre seus investimentos, você deve ser proativo na gestão de sua carteira, o que não significa necessariamente ser um gestor ativo de sua carteira, mas sim recusar a postura passiva de aceitar qualquer produto financeiro que lhe seja recomendado por seu gerente, por seu consultor, por seu cunhado ou por seu corretor. Parafraseando William Bernstein, “cada real gasto, em corretagens, taxas de administração e demais tipos de tarifas pagas a uma corretora, banco ou gestor de fundos, é um real irremediavelmente perdido por você“.

O problema dos custos dos investimentos é que muitos deles são ocultos, principalmente a inflação, o que exige um esforço redobrado por parte do investidor. Mas, com esforço, dedicação e disciplina, é possível ser pão-duro com os investimentos, e desfrutar de retornos positivos reais em sua carteira de ativos. Afinal, quanto menos você pagar, mais você irá receber. E mais, no caso dos investimentos, é sempre sinônimo de melhor. 😉

É isso aí!

Um grande abraço, e que Deus os abençoe!

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17 Responses to Seja pão-duro com seus investimentos

  1. Jônatas 24 de novembro de 2010 at 8:48 #

    Muito bom Guilherme, excelente recomendação,

    Só deixo uma dica para o pessoal com menos conhecimento financeiro. Querer evitar gastos com consultoria muitas vezes é um tiro no pé. É preferível pagar um consultor financeiro e obter boas recomendações a querer fazer tudo sozinho com pouco conhecimento e fazer escolhas ruins. O negócio é estudar sempre e, caso não esteja seguro, consulte alguém mais experiente.

    Gui…. destaco essa frase sua “você deve ser proativo na gestão de sua carteira, o que não significa necessariamente ser um gestor ativo de sua carteira”.

    Bem semelhante ao que escrevi no meu artigo de hoje, minha frase:

    “Investir de forma passiva não significa ser passivo em relação aos seus investimentos”.

    Abraço, fica com Deus!

  2. Henrique Carvalho 24 de novembro de 2010 at 10:29 #

    Excelente Guilherme!

    Muito importante dar atenção aos custos nos investimentos, já que eles detém uma importante parcela de nosso retorno líquido e real.

    Abraços!

  3. Finanças Inteligentes 24 de novembro de 2010 at 10:41 #

    Mesmo para as aplicações com IPCA + X% ainda sim é arriscado perder pro mercado, pois o IGP-M está passando dos 10% este ano. Será que o IPCA reflete a real situação da inflação no Brasil?
    E tem mais um complicador agora com Meirelles fora do BC…

    Abcs,

  4. Arthur 24 de novembro de 2010 at 11:08 #

    @Finanças Inteligentes
    A questão do IPCA é muito importante, pois acho que o verdadeiro indicador da inflação é o IGP-M, cf. já foi dito no Clube do Pai Rico, referido aqui.
    Alguém sabe quando o TD vai reabrir a venda de NTN-C, que era atrelada ao IGP-M?

    Abs

  5. Luiz Antonio 24 de novembro de 2010 at 11:11 #

    Excelente artigo!!
    Englobou vários pontos importantes, de maneira bem simplificada.

    Abraços!

  6. MJC 24 de novembro de 2010 at 13:33 #

    @Finanças Inteligentes
    Por outro lado, em alguns anos o IPCA foi inferior ao IGP-M, como em 2003, 2005, 2009 etc.

    O ideal mesmo seria cada um calcular o seu indicador.

  7. Investidor Independente 24 de novembro de 2010 at 17:42 #

    Bem completa essa análise. Parabéns

    http://www.investidorindependente.blogspot.com

  8. Guilherme 25 de novembro de 2010 at 10:00 #

    Jônatas, ótimo complemento! Gostei da coincidência entre nossos pensamentos…sincronia total!

    Henrique, Luiz Antonio e I.I., obrigado!

    F.I,, Arthur e MJC, realmente é complicada a questão do índice inflacionário. A propósito do tema, sugiro a leitura do excelente artigo postado no O Pequeno Investidor: http://opequenoinvestidor.com.br/2010/11/como-as-acoes-podem-proteger-seu-patrimonio-contra-a-inflacao/

    É isso aí!
    Um grande abraço, e que Deus os abençoe!

  9. Jônatas 25 de novembro de 2010 at 10:54 #

    @Jônatas
    Só complementando, ouçam a dúvida e resposta do Mauro hoje na CBN.

    http://cbn.globoradio.globo.com/comentaristas/mauro-halfeld/MAURO-HALFELD.htm

    Se ele tivesse optado em pagar alguém para ajudá-lo teria dito menos dor de cabeça.

    Abraço gente!

  10. Guilherme 28 de novembro de 2010 at 15:01 #

    Jônatas, bom link esse q vc postou. Sempre ouço os comentários do Halfeld, e ele, como de costume, traz ótimas novidades.

    É isso aí!
    Um grande abraço, e que Deus os abençoe!

  11. Rosana 6 de julho de 2014 at 12:28 #

    Guilherme,

    Muito bom seu post.

    Gostei da sua frase:
    “O Governo quer ser seu sócio nos seus ganhos de capital.”
    Infelizmente a cada dia que passa, isso se torna mais intenso em relação a tudo, devido a altíssima carga tributária sem retorno de qualquer tipo para o cidadão honesto.

    Muito boa a sua explicação sobre a NTN-B. No início eu tinha muita dificuldade em relação a escolha dos títulos, de forma que investia muito em títulos pré-fixados. Hoje percebo que os pós-fixados são bem mais interessantes. O que escreveu, para muitas pessoas, poderá “encurtar o caminho” que fiz.

    ““cada real gasto, em corretagens, taxas de administração e demais tipos de tarifas pagas a uma corretora, banco ou gestor de fundos, é um real irremediavelmente perdido por você“.”
    Eu acho que se as pessoas em geral pensassem nessa frase de forma mais abrangente não fariam tantas dívidas, que são a alegria dos bancos e administradoras de cartão de crédito.

    Abraços!

    • Guilherme 7 de julho de 2014 at 18:56 #

      Olá Rosana, obrigado!

      De fato, quanto menos pudermos fazer do governo nossos sócios nos lucros, melhor. E uma alternativa que vem ganhando espaço ultimamente são os investimentos isentos de imposto de renda.

      Sobre os pós-fixados, creio que hoje em dia, com uma SELIC ainda alta, acaba compensando mais atrelar os investimentos ao CDI/SELIC.

      E, sobre a última frase, tem total razão, é muito melhor ser credor de banco, através de investimentos e recebimento de juros, do que ser devedor de banco, através de pagamento de juros.

      Abç!

      • Rosana 9 de julho de 2014 at 8:34 #

        Guilherme,

        “Sobre os pós-fixados, creio que hoje em dia, com uma SELIC ainda alta, acaba compensando mais atrelar os investimentos ao CDI/SELIC.”
        Por que você considera os títulos atrelados à SELIC melhores do que os atrelados ao IPCA?
        Sempre achei que em tempos de incertezas em relação a inflação, a NTN-B seria a melhor opção.
        Agradeço mais uma vez por sua atenção!

        • Guilherme 9 de julho de 2014 at 10:33 #

          Oi Rosana,

          É por causa das circunstâncias do momento econômico em que estamos vivendo, com uma SELIC em patamares elevados e com dúvidas sobre sua direção, investimentos atrelados à SELIC acabam ganhando mais espaço na questão “segurança”.

          A longo prazo, e desconsiderando esses movimentos circunstanciais de mercado, ainda considero a NTN-B a melhor opção, como você bem disse, pois há garantia maior de proteção contra a corrosão inflacionária!

          Abç!

          • Rosana 10 de julho de 2014 at 7:16 #

            Guilherme,

            Agradeço por sua resposta, agora entendi! 🙂
            A longo prazo, também considero a NTN-B a melhor opção.
            Abraços,

            • Guilherme 10 de julho de 2014 at 19:42 #

              De nada! 🙂

              Vamos que vamos com as NTN-Bs para o longo prazo. 😀

              Abç

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  1. Lauro Wolff Valente - 24 de novembro de 2010

    Seja pão-duro com seus investimentos http://migre.me/2rI1H

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