Semana passada o podcast Huberman Lab, já mencionado em diversos outros artigos do blog, fez uma entrevista com outro velho conhecido do blog, o Cal Newport, especialista em questão relacionadas a como produzir um trabalho de qualidade.
Um dos temas que mais têm despertado a atenção dos leitores nos últimos tempos envolve a produção de um trabalho cognitivo de qualidade.
A maioria dos leitores que acessam esse site são trabalhadores do conhecimento: eles precisam usar seus cérebros para produzirem atividades intelectuais. Um projeto de engenharia, um trabalho universitário, um texto jurídico, uma planilha de despesas, um diagnóstico médico, um relatório: tudo isso envolve você usar seu cérebro, usar suas habilidades mentais, usar suas aptidões intelectuais.
O trabalho que usa a cognição como principal ferramenta de serviço envolve tempo, envolve energia, mas envolve, acima de tudo, concentração e foco. É impossível você fazer um trabalho cognitivo bem feito se você estiver desconcentrado.
E qual é o problema aqui? Simples: estamos a todo momento sendo atraídos para o lamaçal de barulho, ruído, estresse e fadiga mentais. E muitas vezes a culpa é…. nossa mesmo. Não conseguimos ficar desligados do mundo exterior. Não conseguimos ficar com uma só aba no Chrome ou Firefox aberta. Temos uma necessidade quase irresistível de ficar checando a timeline de nossas redes sociais a todo momento. É quase impossível ficar com o WhatsApp Web desligado. Se você estiver lendo esse texto no computador, veja quantas abas de aplicativos diferentes estão rodando em segundo plano.
O resultado disso, você já sabe: é a dificuldade de fazer as coisas bem feitas, pois somos a todo momento bombardeados com notificações e interrupções, que prejudicam nossa linha de raciocínio e nos impedem de ter a concentração necessária para produzir um trabalho de excelência.
A dica de hoje, para você ter mais qualidade em seu trabalho cognitivo, é simples, mas de quase impossível execução para mais de 90% das pessoas: desligue o celular por 60 minutos. De preferência, guarde ele em outro cômodo. E por quê é difícil?
Porque as pessoas ficaram tão habituadas a estarem online o dia inteiro (e às vezes até a noite inteira), que pedir para colocar o celular em modo avião é como se pedíssemos para elas alterarem suas identidades a contragosto.
Não é apenas a questão de ficar com o celular ligado por causa de uma emergência que pode aparecer (como se não houvesse emergência antes da criação do celular), mas sim de algo mais profundo: a dificuldade de lidar com grandes períodos de tempo sem ficar sendo interrompido a todo instante. As pessoas não apenas gostam de ser interrompidas: na verdade, muitas delas interrompem suas atividades por vontade própria, a todo instante, a cada 11 segundos (segundo uma pesquisa feita pela Microsoft).
Por mais incrível que pareça, as pessoas se habituaram com a anormalidade, que é o fato de ter sua concentração fragmentada. Hoje em dia, são raras as situações em que as pessoas conseguem ficar assistindo a um filme de mais de 2 horas sem dar uma olhadinha no celular de vez em quando. Até os gestores do YouTube perceberam isso – e olha que a maioria dos vídeos do YouTube são muito menores do que a duração de um filme comercial típico – e apelaram para os Shorts, para concorrer com o TikTok.
Porém, se você é um trabalhador do conhecimento, você precisa abdicar da fragmentação de atenção. Você precisa se concentrar. E uma das coisas mais essenciais para isso é voltar aos tempos antigos (para quem for mais velho, ou seja, nascido de meados dos anos 80 para trás): tirar o barulho das notificações em sua vida.
Por todos esses motivos, faça esse desafio a você mesmo: experimente ficar 60 minutos sem o celular ligado. E, no final dos 60 minutos, veja como foi a qualidade do trabalho que você produziu.

Conclusão
Experimente essa ideia: veja quanto você consegue ficar no mundo offline. E, a partir daí, mensure como foi a qualidade de seu trabalho: quantas páginas estudou, quantas tarefas realizou, quantas coisas realizou, simplesmente pelo fato… de ter conseguido recuperar o domínio pleno de sua atenção, foco e concentração.
Agora, imagine se você conseguisse criar esse hábito, mantendo uma rotina de concentração de trabalho e estudo ao longo de 4 meses, ou ao longo de 10 anos.
Veja o mar de possibilidades que se abririam se você se dispusesse a abrir mão das gratificações instantâneas proporcionadas pelas interrupções e notificações, em prol de um trabalho cognitivo de melhor qualidade. Sua carreira daria um salto, sua saúde mental daria um salto. Enfim, sua própria vida daria um salto. 😉
Boa semana!
Estudo para concursos há um certo tempo e entendi, na prática, o “poder” de deixar o celular BEM LONGE quando for estudar. A ideia da ‘emergência’ ainda me assombra d+ (filho e tal), então eu acabo olhando o celular entre a cada dois ciclos pomodoros de 50′. Sinto que ainda atrapalha…
Olá, TQ,
Você já está indo bem, e certamente acima da média.
Minha sugestão é treinar a “independência” do celular diariamente, dia após dia, até conseguir chegar ao ponto de não ter que ficar olhando para ele sequer entre os ciclos.
Não tenho dificuldade alguma em deixar o celular as vezes horas jogado no meu quarto enquanto faço outras coisas. Provavelmente porque sou velho e sei que o celular não existiu sempre, as novas gerações vão ter que aprender a lidar com isso.
Isso é uma constante na história da humanidade, domina-se uma nova tecnologia e em seguida temos que evitar que ela nos domine.
Abraços.
Verdade, Mendigo.
Gostei da sua última frase:
“Isso é uma constante na história da humanidade, domina-se uma nova tecnologia e em seguida temos que evitar que ela nos domine.”
Abraços
Olá Guilherme, bom dia
Isso ocorre no ambiente de trabalho e com maior intensidade no circulo familiar e de amigos. Percebo rotineiramente que acostumamos com a anormalidade.
Tenho minhas dúvidas se isso vai mudar, por muitas vezes tentei conversar ou refletir sobre um tema de maneira mais profunda, e o que acontecia, meu interlocutor abria o celular e entrava numa rede social.. A minha frustação é instantânea e atualmente discuto/converso de maneira mais profunda em alguns poucos e seletos amigos.
Somos seres adaptáveis, minha estratégia é se adaptar a esse “novo anormal mundo”. E utilizar o tempo de concentração/discussão apenas com aqueles focados e interessados. Para os demais deixo apenas meu silêncio.
Abraços,
Excelente iniciativa, VAR!
De fato, esse é novo “normal anormal”. Tempos sombrios.
Abraços
É complicado mesmo. Os seres humanos estão perdendo a capacidade de ficarem concentrados e pacientes. Não sobra mais momento para reflexões e ‘descanso da mente’. Isso não é saudável. Tento me policiar o máximo possível quanto a isso, e não só com o celular, mas com todo tipo de tela. Acho que o principal passo é evitar instalar aplicativos que roubam nossa atenção.
Ótimas dicas, Anderson.
Acredito também que tudo começa com a autoconsciência. Ter a percepção própria de que o uso irrefletido gera consequências danosas à saúde mental e à própria capacidade de concentração.