Sobre o coronavírus e as janelas de oportunidades que a Bolsa de Valores de tempos em tempos oferece

Em 2017 foi o Joesley’s Day (post aqui).

Em 2018 foi a greve dos caminhoneiros.

Ano passado foi o medo de que a reforma da Previdência não pudesse ser aprovada.

Em 2011 foi o medo de recessão nos Estados Unidos (post aqui).

Em 2016 foi a crise econômica brasileira (post aqui).

Nesse ano de 2020, particularmente agora na semana do pós-carnaval em fevereiro, tivemos o coronavírus.

O que todos esses eventos têm em comum?

A resposta você já deve saber: janelas de oportunidade para investimento em ações. Chances de comprar ativos de renda variável a preços menores do que vinham sendo correntemente praticados.

No caso específico da semana passada, isso não significa que chegamos ao fundo do poço – afinal de contas, só sabemos se ele chegou ao fundo do poço olhando para o retrovisor (para o passado), e não olhando para o futuro. Porém, isso não significa dizer que não tenha havido uma janela de oportunidades com quedas tão expressivas nas cotações de diversas ações. A janela de oportunidade, no mínimo, foi aberta. Só não se sabe a exata duração dela, nem quando ela chegará ao fim.

Quando o pânico se instala no mercado financeiro, quando o vermelho jorra nas cotações da tela de seu home broker, quando as pessoas só falam em vender e, no limite do desespero, liquidar todas as suas posições em Bolsa, movidas pelas manchetes sensacionalistas da mídia, é nesse momento que você deve atuar em direção contrária.

Não, evidentemente, quando há fundamentos para a queda dos preços das ações (verificável, por exemplo, quando se analisa o balanço de uma empresa, e se conclui que os resultados vieram ruins e as perspectivas futuras são sombrias), mas sim quando existe irracionalidade extrema dos mercados.

Por isso é tão importante, e eu sempre bato nessa tecla, a aquisição de educação financeira. Do estudo prévio. De se investir dinheiro no treinamento da mente, antes de se investir dinheiro na Bolsa. Porque aí você estará se preparando para construir fortalezas mentais sobre o que fazer com as suas sobras de dinheiro, ou seja, com seus investimentos – desde que, por óbvio, você tenha dinheiro, e daí a importância de você estar líquido para as oportunidades, como eu escrevi em 2017.

E você deve agir sempre com foco no longo prazo. Isso é importantíssimo para fazer com que as decisões tomadas pela parte do córtex pré-frontal de seu cérebro (aquele responsável pela execução de tarefas racionais e que visem o longo prazo) se sobreponham sobre a vontade ínsita de sua amídala cerebral (que, com base no instinto, faz prevalecer as decisões emocionais de curto prazo).

É como se dentro de você se digladiassem, na arena das ações, dois personagens: o anjinho e o diabinho. O diabinho, vendo que você está com rentabilidade negativa de mais de 25% em ações de bancos, petroleiras e cervejarias, diz: “venda tudo, porque pode cair ainda mais, você vai precisar desse dinheiro mês que vem pra pagar as contas”. Já o anjinho cochicha no seu ouvido: “ei, as ações estão com um mega desconto. Aproveite a queda pra comprar mais ações com menos dinheiro, e, com uma margem de segurança ampliada, você poderá vendê-las com um lucro maior lá no futuro”.

O domínio das emoções

E por quê é tão difícil ter sucesso no investimento na Bolsa?

A resposta é um misto de diversos fatores, dentre os quais se sobressaem a ausência de educação financeira prévia, a má escolha das próprias ações componentes da carteira de ativos, mas sobretudo a dificuldade de controlar as emoções diante do efeito manada.

Nesses mais de dez anos acompanhando o mercado de renda variável, observo a existência de um padrão que se repete: a maioria das pessoas entram na alta, e saem na baixa.

Provavelmente você deve ter tido, semana passada, uma conversa com alguém que resolveu vender tudo o que tinha em ações (particularmente quando a Bolsa chegou aos 100 mil pontos na sexta-feira); assim como deve ter tido alguma conversa com alguém que resolveu entrar na Bolsa quando ela estava próxima dos 120 mil pontos (o que ocorreu entre dezembro do ano passado e janeiro desse ano).

É da natureza humana acompanhar o “efeito manada”: fazer o que todo mundo faz. A psicologia econômica explica: um viés de segurança e de conforto emocional toma conta da gente, quando resolvemos fazer o que o grupo está fazendo. Afinal, o que a maioria está fazendo deve ser o melhor a fazer em escala individual, certo?

Nem sempre.

Isso porque ter sucesso no investimento em ações requer a construção de habilidades diferenciadas, e uma dessas habilidades consiste justamente em não se deixar levar pelo “efeito manada”. Ou seja, ser meio que “contrarian”, o que pode ser resumido numa frase: vender quando a maioria está comprando, e comprar quando a maioria está vendendo.

Mas esses movimentos devem ser planejados e calculados: a venda deve ocorrer em circunstâncias previamente estudadas, no contexto de uma estratégia personalizada e individualizada de alocação de ativos (quando o percentual destinado à renda variável tenha atingido certo patamar, por exemplo); da mesma forma que as compras devem seguir igualmente uma estratégia personalizada, que pode tirar proveito da mesma técnica utilizada para as vendas, em termos de alocação de ativos, ou seja, reforçar posições em ações quando se vislumbra a necessidade de reequilibrar a carteira.

Não seguir o efeito manada traz em si outra habilidade que o investidor de longo prazo em ações deve construir: ter o famoso sangue frio. Ser racional quando o mercado está sendo irracional.

E isso é uma coisa particularmente difícil em função de nós, seres humanos, termos o ímpeto de querer evitar a dor a todo custo. No âmbito particular das ações, a maneira mais fácil de estancar a dor é se livrando das ações, vendendo tudo, ainda que com prejuízo.

E é precisamente nisso que reside a grande dificuldade da maioria dos investidores iniciantes: eles não conseguem suportar a dor de ver o investimento no vermelho, e correm logo para realizar o prejuízo. É a dor do curto prazo vencendo o prazer do longo prazo, que consiste na possibilidade de desfrutar da valorização das ações num horizonte maior de tempo.

Engraçado que as pessoas costumam ser racionais com o investimento em imóveis, que demandam igualmente paciência e resiliência para ver o investimento crescer, mas não cultivam essas mesmas virtudes quando se trata do investimento em ações. Vários podem ser os motivos. Uns vão associar essa rentabilidade negativa às lembranças das ações do grupo X do Eike Batista. Outros irão buscar do baú da memória investimentos passados em Bolsa que também não deram certo, ou argumentar que em relação aos imóveis isso seria mais fácil pela inexistência de uma Bolsa diária de cotações mostrando o preço segundo a segundo. Outros, ainda, vão culpar o próprio hábito de ficar olhando as cotações no home broker incontáveis vezes ao dia, e com isso vão esgotando gradualmente a paciência para ver as ações se recuperarem e, no máximo, vão vendê-las pelo mesmo preço que compraram, para no final terem a sensação de que pelo menos “empataram” o jogo.

E quando vão reingressar na Bolsa novamente? Sim, depois que for iniciada outra pernada de alta. Depois, e não antes, que deveria ser a lógica.

Mas o ser humano não é guiado pela lógica. Na imensa maioria dos casos, é guiado pelos sentimentos, os quais, somados à falta de prática, e à ausência de treinamento prévio, resultam frequentemente em fracasso no investimento em renda variável.

Conclusão

Em seus mais de dez anos de existência, no período compreendido entre maio de 2009 e fevereiro de 2020, o blog Valores Reais presenciou e testemunhou apenas um único circuit breaker (mecanismo acionado quando o Ibovespa caiu mais de 10% num único dia).

Ele ocorreu em 18 de maio de 2017 (Joesley’s Day) e, naquela ocasião, eu escrevi:

Tony Schwartz disse, no livro Envolvimento total, que nós só sabemos que temos de fato os valores que dizemos guiar nossos comportamentos quando eles enfrentam o teste da realidade.

É na “hora do vamos ver” que verificamos se uma pessoa que se diz paciente é realmente paciente. É quando um motorista te dá uma fechada no trânsito que você constata se você é de fato uma pessoa que se auto-proclama “zen”. É quando você está com fome e aparece na sua frente uma barra de chocolate calórica que verificaremos se você é ou não adepto de uma alimentação saudável.

É quando a Bolsa cai 10% num único dia que vemos quem realmente age na Bolsa com visão de longo prazo.

Não é quando as coisas vão bem que seus valores são melhor examinados e postos à prova. É quando as coisas vão mal.

É fácil dizer que imóveis são o “melhor investimento” quando seu próprio imóvel valorizou 100%. É fácil dizer que você é tolerante ao risco quando sua própria carteira de ações valorizou 300%. O difícil é manter o curso quando os mercados apresentam alta volatilidade e prejudicam, ainda que temporariamente, sua posição de investimentos.

Além de seguir seu plano de investimentos, ter sangue frio e tentar ser racional numa hora em que todo mundo parece ser irracional, é também importante você observar suas próprias emoções, diante de situações como essa.

Aja como um agente observador de si mesmo, e policie-se, a fim de você evitar ser o pior inimigo de si mesmo, fazendo coisas que você mesmo não faria.

Taí.

Essa é uma excelente oportunidade de você se auto avaliar. Se você investe em ações, tendo se observado a si mesmo semana passada, qual foi a sua atitude? Ficou paralisado pela inércia resultante do medo, e não fez absolutamente nada, a não ser vender, ainda que no prejuízo? Ou aproveitou a oportunidade para comprar mais ações, a preços mais baratos?

Já dizia Warren Buffett que a Bolsa de Valores é um excelente mecanismo de transferência de riqueza dos apressados para os pacientes. Semana passada você bancou o apressado ou o paciente?

E se continuar caindo nas próximas semanas, você já tem uma estratégia?

Boa semana a todos!

 

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11 Responses to Sobre o coronavírus e as janelas de oportunidades que a Bolsa de Valores de tempos em tempos oferece

  1. Mauro 2 de março de 2020 at 0:27 #

    Sensacional essa postagem. Aumentei meus aportes em fundos de ações que já tinha e caíram bem semana passada.
    Ainda tenho um dinheiro em caixa aguardando novas quedas, para poder aportar mais.

    • Guilherme 5 de março de 2020 at 7:34 #

      Obrigado, Mauro!

      Realmente, a “maré estava para peixe” a partir da semana passada. Parabéns!

  2. Simplicidade e Harmonia 2 de março de 2020 at 6:42 #

    Guilherme,

    Considero que essa janela de oportunidade possui um diferencial significativo: a quantidade de novos investidores que ingressaram na bolsa nos 2 últimos anos.

    Em 2018 haviam 813 mil CPFs inscritos. Em outubro de 2019, 1,5 milhão. Por isso, como você disse, a educação financeira é tão importante, já que a impaciência e o desespero acabam levando o investidor a realizar um prejuízo provavelmente desnecessário.

    Boa semana!

    • Guilherme 5 de março de 2020 at 7:35 #

      Excelente observação, Rosana!

      Existe todo um novo público que precisa adquirir habilidades relacionadas à educação financeira.

      Abraços!

  3. André 2 de março de 2020 at 8:47 #

    Exatamente, Guilherme! Precisamos ter a cabeça no lugar e avaliar as coisas com racionalidade.

    Publiquei hoje a atualização do portfólio: cerca de 2% negativos. Porém, o pilar de renda variável caiu muito mais. O pilar de ouro/dólar e renda fixa, subiram. Nada melhor que fazer um rebalanceamento. Isso porque, ao menos até agora, nada racional explica o tamanho dessa queda. Já tivemos outras epidemias do mesmo tipo e o efeito foi bem menor.

    Mas seguimos acompanhando.

    Abraço e boa semana!

    • Guilherme 5 de março de 2020 at 7:36 #

      Isso mesmo, André!

      Através dos rebalanceamentos vamos ajustando a carteira conforme as nossas necessidades.

      Abraços!

  4. Adri 2 de março de 2020 at 13:15 #

    O racional seria ter o comportamento que o texto diz a fazer. Mais uma vez, o que se ganhou em meses se perdeu em 3 dias. Quanto tempo demorará a recuperação?
    Li que os ‘grandes investidores’ foram os que debandaram da bolsa não foi os pequenos, as pessoas físicas. Então o comportamento do texto não vale para eles? Qual a razão?

    • Guilherme 5 de março de 2020 at 7:38 #

      Adri, não se sabe quanto tempo demorará a recuperação, mas ela virá.

      O mais importante é aproveitar essas oportunidades e ter a paciência e resiliência necessárias para superar essa fase.

      Quanto aos “grandes investidores”, sim, o texto vale para eles também, e inclusive muitos foram às compras, como o Luiz Barsi e grandes investidores institucionais.

      Ocorre que o mercado é formado também pelos especuladores, que agem com visão de curto e curtíssimo prazo.

      Abraços!

  5. Vania 2 de março de 2020 at 22:16 #

    Ajuda muito quando o investimento em determinado ativo (no caso, ações), não representa uma fatia muito grossa do bolo total. A sensação de que um eventual erro de avaliação nas compras e vendas não comprometerá o futuro com certeza ajuda a manter a tranquilidade. Até nisso a diversificação ajuda.

    Um outro ponto: remando contra a maré, sendo defendi e defendo que o investimento em imóveis é o melhor para boa parte dos brasileiros, pelos aspectos psicológicos, que tem que ser levados em consideração. É como você disse no post, quando se trata de imóveis a pessoa mantem o sangue frio. Se a pessoa acha que seu apto vale 1 milhão, vai se manter nesse valor mesmo que saiba que o vizinho vendeu por $800 mil. Dirá que o vizinho “queimou o imóvel” pque tinha dividas, ou que seu apto tem melhores acabamentos que o do vizinho, enfim não se deixara abalar pela eventual perda de valor de seu imóvel. Na verdade, o brasileiro médio nem acreditará que seu apto talvez não valha tanto quanto imagina. Não fica checando o valor toda hora. Também jamais passará pela sua cabeça vender um imóvel para custear as despesas de um casamento, ou uma viagem ao exterior, nem mesmo uma pós-graduação. No entanto, é muito comum que as pessoas usem parcelas de seus ativos financeiros para custear essas ou outras despesas.
    Isso irá mudando no correr do tempo, e as pessoas acabarão acostumando a investir em ações pensando no longo prazo, na aposentadoria. Mas essa mudança não se dará de uma hora para outra. Blogs como seu tem um papel importante nisso.

    • Guilherme 5 de março de 2020 at 7:40 #

      Excelente depoimento, Vânia!

      Sim, esse tipo de investimento (no mercado imobiliário) tem essas vantagens que você bem elucidou.

      Acho que é uma questão de tempo para as mesmas virtudes da resiliência e paciência serem transferidas para o mercado de ações, acompanhadas, claro, da aquisição de educação financeira para tal.

  6. Rafael Monteiro 9 de março de 2020 at 10:40 #

    Bom dia Guilherme, td bem?
    Muito bom o post. Quando comecei a aportar em ações (+- 2 anos) de cara me esbarrei com o canal do bastter no yt que ajudou muito a lidar com uma filosofia do B&H. Hoje em dia, eu entro no broker 1x por mês, só na hora de aportar. Inclusive, só fiquei sabendo que houve queda do índice ao ler o blog. Acompanho o Eduardo Cavalcanti também e, como ele gosta de enfatizar, temos de agir sem histerismos. A partir do momento que se estabelece o % de cada tipo de investimento temos de testar nossa mente para ver se está ok. Hoje, consigo ficar sossegado com 70% RV e 30% RF, tentei ultrapassar esse limiar, por volta de 80/20 e me sentia desconfortável ao longo do mês.
    Antes de tudo, temos de respeitar nossas individualidades e não querer “copiar” a carteira de determinado influencer que está em alta ou perseguir dicas.
    Abraços, e excelente artigo.

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