O valor das compras “sociais”

O fato de nós, seres humanos, não agirmos como máquinas matemáticas, nos possibilita que usemos o dinheiro não apenas de modo puramente racional (buscando, por exemplo, economizar o máximo possível em qualquer compra), mas também visando a atender outras finalidades, como as de natureza emocional, espiritual, social etc.

É dentro dessa temática que o leitor João Francisco me enviou a seguinte mensagem:

“Guilherme, domingo passado eu estava dirigindo em direção ao restaurante, e, ao parar no semáforo, um rapaz estava vendendo jornal. Em princípio, eu não iria comprar o jornal, afinal de contas, hoje em dia quase ninguém precisa pagar para se informar. Contudo, diante das condições escaldantes daquele dia de sol quente, e pensando que aquela era provavelmente a única fonte de renda do rapaz, resolvi fazer a compra, não propriamente para ler as notícias do jornal, mas sobretudo para ajudar o rapaz.

Penso que isso poderia muito bem ser tema de um artigo do blog: as coisas que compramos não apenas para satisfazer nossas necessidades, mas sobretudo para ajudar aos outros”.

Taí, João Francisco, sua sugestão virou uma ótima pauta para o blog.

A propósito do tema, eu mesmo me vi numa situação parecida tempos atrás, quando percebi que uma sala comercial de lojas de roupas tinha virado uma livraria.

Livrarias são, infelizmente, “artigos em extinção” nos dias atuais. Com as facilidades propiciadas pela Internet, as pessoas raramente compram livros em lojas físicas. Muitas livrarias tradicionais fecharam as portas, demitindo milhares de funcionários, e tornando, por via de consequência, mais difícil a vida de milhares de famílias que dependiam do emprego em livrarias.

Por tudo isso, fiquei surpreso com a abertura de uma nova livraria no referido local. Fiquei ali, por uns 15 a 20 minutos, observando os títulos disponíveis e, ao final, realizei a compra de um livro, não tanto pelo preço dele, que inclusive estava mais caro que se eu comprasse pela Internet, mas sim com um nítido propósito de ajudar a pequena empresa a ter uma sobrevida num mercado tão competitivo.

É claro que “uma andorinha só não faz verão”, mas pelo menos eu procuro fazer minha parte.

O amigo Valdemar, do blog O Bolso da Bombacha, relata frequentemente, por exemplo, que gosta de fazer as compras de mercado não nas grandes redes varejistas de supermercados, mas sim nos pequenos mercadinhos locais, onde, muitas vezes, se encontram alimentos mais frescos, e o atendimento é mais personalizado.

Nas feiras livres de ruas, além de todas as vantagens acima, ainda é possível obter descontos mediante negociações, o que nunca ocorreria em uma compra num supermercado integrante de uma empresa com ações negociadas em Bolsa de Valores.

Fazer compras com pequenos produtores rurais familiares e em estabelecimentos comerciais mantidos por micro empresários, não deixa de ser uma forma de fazer compras sociais, onde o valor que se obtém na compra não é oriundo apenas do preço, mas também é resultado da satisfação de poder ajudar a outrem.

O dinheiro é uma ferramenta de troca, e, na posição de compradores, nosso primeiro instinto é fazer com que paguemos o menor valor possível.

Isso não é errado: pelo contrário, trata-se de uma necessidade, haja vista que precisamos ser racionais e objetivos nos nossos gastos, a fim de evitar desperdícios e poupar e investir para objetivos de médio e longo prazos, principalmente para a velhice.

Contudo, como eu disse no parágrafo de abertura desse texto, não somos máquinas de economizar, e devemos, na medida do possível, temperar nossas escolhas financeiras, em termos de gastos, com outros valores igualmente importantes, até porque muitos de nós podemos nos posicionar, ou conhecemos alguém, que se encontra no lado dos vendedores.

Compras de serviços

Tudo isso fica ainda mais evidente em certas situações de compras de serviços.

Li uma vez um artigo da Mara Luquet numa revista de finanças que me chamou a atenção. Ela dizia mais ou menos o seguinte: de um modo geral, as pessoas aceitam passivamente os preços das vendas de “produtos”, mas barganham até onde não podem mais as vendas dos “serviços”.

Por exemplo: o preço da faxina, dos serviços domésticos, de pequenos consertos domésticos etc. Quase sempre quem faz esse serviço são pessoas de menor renda, sem emprego estável, e com dificuldades de obter colocação profissional. E as dificuldades para obter uma remuneração adequada e justa quase sempre resultam em uma batalha de preços e de discussões acaloradas, como, aliás, se pode verificar desse artigo escrito em 2010, que continua recebendo comentários até hoje.

Normalmente, o custo de vida em cidades menores é menor do que em cidades maiores, o que faz com que os preços em geral dos produtos e serviços também caia proporcionalmente.

Um amigo me contou um caso ocorrido com ele que ilustra bem a ideia de fazer uma compra social.

O sapato dele descolou e, como tinha uma reunião importante numa cidade do interior, foi à procura de um sapateiro.

O sapateiro fez a cola, costurou, lustrou etc. Serviço completo.

Meu amigo, acostumado com os preços exorbitantes das grandes cidades, já foi formando um preço mental daquele serviço todo: R$ 20? R$ 30? R$ 50?

O valor que o sapateiro cobrou foi tão irrisório (não lembro se R$ 2 ou R$ 4), que meu amigo se sentiu envergonhado e, diante do trabalho excepcional do sapateiro (diz meu amigo que o sapato continua funcional até hoje, passados mais de 3 anos daquele episódio), ele deu um valor muito maior, que era o preço que ele estava imaginando.

Conclusão

Não se acanhe em ajudar quando “sentir” que for o caso.

O bem que fazemos aos outros um dia retornará para nós: é a lei espiritual do retorno, implacável e inexoravelmente aplicada no dia a dias das relações sociais e humanas.

Se em 2010 eu disse que o dinheiro nada mais é do que uma ferramenta para melhorar a qualidade de sua vida, após tantas experiências positivas com compras sociais eu posso afirmar, uma década mais tarde, que o dinheiro também serve para melhorar a qualidade de vida das pessoas que se posicionam na função de vendedores.

Afinal de contas, dessa vida não levamos absolutamente nada, exceto o legado que deixamos através de nossos exemplos, nossos comportamentos e nossos valores, praticados diuturnamente. 😉

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12 Responses to O valor das compras “sociais”

  1. Simplicidade e Harmonia 24 de fevereiro de 2020 at 7:16 #

    Excelente post, Guilherme!

    Seu texto me lembrou um outro que escreveu sobre a compra dos panos de prato.

    Muitas vezes, uma atitude que para nós não significa muito, pode fazer muita diferença na vida de outra pessoa.

    Boa semana,

    • Guilherme 27 de fevereiro de 2020 at 15:42 #

      Obrigado, Rosana!

      De fato, eu frequentemente procuro pautar minhas escolhas na possibilidade de impactar positivamente a vida de outras pessoas.

      Boa semana também!

  2. Adri 24 de fevereiro de 2020 at 8:33 #

    Concordo plenamente com o texto. Só lembro que grandes redes de supermercados alem de recolherem impostos sobre as vendas, também geram varios empregos não e sim especializados e com recolhimento dos encargos trabalhistas.

  3. MJC 24 de fevereiro de 2020 at 21:57 #

    Eu procuro ajudar até certo ponto.

    Recentemente uma colega do trabalho começou a vender docinho. Não gosto de comer sobremesa, principalmente por conta do açúcar. Comprei na primeira vez que ela ofereceu e, agora, ela oferece pelo menos umas 3x na semana. Não comprei mais.

    Certa vez também uma amiga disse que estava comprando de produtores locais uma cesta de verduras pra semana. O preço era uns 30% mais caro do que a minha compra semanal de frutas + verduras, mas fui lá dar uma chance. A tal da cesta só tinha praticamente folhas + algumas outras coisas em quantidade muito pequenas.

    Antes de comprar eu achei ok: vou pagar 30% mais mas o dinheiro vai pro produtor direto, sem intermediário e tal. Mas depois de pegar a cesta só fiquei pensando que estava sendo abusado: paguei 30% a mais do que eu gastaria na semana por praticamente só folhas e tive que complementar ainda minha compra semanal.

    Procuro ajudar, mas se eu achar que estão abusando, vai ser uma vez só. Se for algo não abusivo (mesmo que mais caro que o normal), não importo e continuo comprando.

    • Guilherme 27 de fevereiro de 2020 at 15:45 #

      Ótimos testemunhos, MJC.

      Também acho importante mensurar o valor da ajuda sob essa sua ótica.

      Afinal de contas, há certos limites além dos quais a nossa disposição em ajudar pode acarretar em negatividade para nossa vida.

      Por isso, as reflexões devem ser sempre frequentes e avaliando o cenário como um todo.

      Abraços!

  4. André 26 de fevereiro de 2020 at 9:09 #

    Olá Guilherme!

    Um grande texto para refletirmos!

    Eu costumo majoritariamente avaliar o custo-benefício das trocas. Não importa, por exemplo, o local: se a mercearia de bairro oferecer uma relação de troca melhor que o supermercado, não vejo problemas nenhum em fazer as compras por lá.

    O fato de sempre acreditar no custo-benefício existe porque, se pensarmos de forma mais ampla, incentivar trocas não produtivas faz com que mais pessoas sejam prejudicadas no futuro, uma vez que estamos permitindo a sobrevivência de trocas menos eficientes e eficazes. É um princípio do mercado eficiente.

    Porém, há realmente o outro lado: o de auxiliar as pessoas. Eu prefiro fazer isso com o ensino e aprendizado para que elas se tornem mais produtivas, mas muitas vezes elas precisam no momento mais do peixe do que a aprender a pescar.

    É aí que seu post entra para trazer um pouco mais de equilíbrio para a gente. Obrigado!

    Abraço!

    • Guilherme 27 de fevereiro de 2020 at 15:48 #

      Olá, André!

      Muito interessante essa sua forma de pensar o custo/benefício das trocas sob a perspectiva dos mercados eficientes!

      Em última análise, é isso mesmo que acontece, em termos racionais no funcionamento da economia como um todo.

      Em determinadas situações, contudo, pode ser interessante quebrar esse paradigma, introduzindo elementos não puramente matemáticos nas escolhas, e, assim, equilíbrio às relações.

      Abraços!

  5. Vania 29 de fevereiro de 2020 at 19:08 #

    Muito interessante este artigo.
    Quero fazer algumas considerações. Eu gosto de consumir localmente, e não é apenas para ajudar as pessoas. Temos que olhar o preço que pagamos de forma um pouco mais ampla.
    Quando vou no restaurante familiar a duas quadras de casa, ou escolho um presente comprado de um artesão, não estou apenas ajudando essas pessoas. Estou fazendo com que meu bairro fique movimentado, tenha progresso, faco com que a renda circule aqui pertinho de mim. No final, isso é benéfico pra mim mesma: o bairro melhora, se torna mais seguro, meu imóvel se valoriza, as casas do entorno são mais bem cuidadas já que mais renda está circulando ali,
    Quando compro uma cesta de frutas e legumes de produtores próximos, provavelmente estou comprando produtos sem agrotóxicos, e como não “viajaram” tem bem mais nutrientes. Isso é comprovado, uma cenoura colhida hoje tem mais vitaminas que aquela colhida há dois dias atrás. Então, no final sou eu que ganho, em saúde.
    Se não houver produtores próximos, certamente há uma feira, e comprando nela colaboramos para manter esse modo de comercio nascido na Idade Média, e tão simpático e benéfico a todos que sobrevive até os dias de hoje.
    A costureira, o sapateiro, o pequeno marceneiro da vizinhança tem em mim uma cliente, e dou franca preferencia por comprar o que é produzido no Brasil. Que meu dinheiro circule, gere progresso e alimente famílias aqui mesmo em meu país, que aliás está bem precisado.
    Até o custo ambiental é menor, quando se compra o que é produzido mais próximo de nós. Existe inclusive um movimento, o “locavorismo” que propõe o consumo local como forma de minimizar o uso de combustíveis e energia.

    • Guilherme 5 de março de 2020 at 7:45 #

      Excelente depoimento, Vânia!

      Não tinha pensado sob essa ótica (girar a economia local, custos ambientais menores etc.). É um efeito dominó que se acaba criando, beneficiando diretamente a comunidade local. Bem interessante.

      Gostei do “locavorismo”. Vou pesquisar mais a respeito.

  6. Aposente Cedo 1 de março de 2020 at 11:38 #

    Conheci o blog logo com esta brilhante reflexão!
    Eu ainda adicionaria mais: nós (eu, você e grande parte dos leitores) somos privilegiados, seja financeiramente ou intelectualmente; seja porque tivermos “sorte” ou 100% por esforço próprio.
    Esse privilégio cria, a meu ver, uma certa obrigação moral ainda maior.
    Muitos de nós acreditamos que estamos salvando o planeta ao não pedir o papelzinho da máquina de cartão de crédito ou fazendo um trajeto de bicicleta. Se temos mais e se podemos ajudar mais, seja despendendo tempo ou dinheiro em favor dos outros, repassando conhecimento gratuitamente…

    Acho que sempre vale nos esforçarmos pra fazer mais e com mais frequência!

    Abraço

    • Guilherme 5 de março de 2020 at 7:46 #

      Obrigado, AC!

      E você tem total razão: tudo o que fazemos no nosso dia a dia pode contribuir para tornar o mundo ainda melhor. Afinal, são com os pequenos passos que a humanidade avança!

      Abraços e parabéns pela iniciativa de criar um blog também!

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