Diversificar não é garantia de diminuição de riscos

Semana retrasada, um interessante debate surgiu na caixa de comentários ao texto sobre debêntures.

O leitor Michael teceu as seguintes, e oportunas, considerações (sem destaque no original):

“Fala Guilherme! É bem interessante o “timing” da submissão do artigo.

A mania [pode ler: bolha] de investir nestes papéis [debêntures] já estourou. Os fundos com gestão “profissional” destes ativos já estão sangrando investidores, fugindo de uma forte reprecificação, e assim, infelizmente, travando as suas perdas.

Isso foi o resultado bem previsível de promessas de retornos altos e a tal diversificação da carteira. O problema é que os prêmios nunca justificaram os riscos embutidos – principalmente os de um calote – e os retornos agora são geralmente inferiores ao CDI, um indexador que não para de encolher.

Como você bem sabe, Guilherme, o ato de diversificação não garante absolutamente nada com relação ao risco. Tem que olhar a correlação entre ativos etc. Em muitos casos, incluir esta classe de ativo na carteira seria AUMENTAR o risco.

Outra falha do investidor foi ser induzido a acreditar que a falta de volatilidade histórica significava a falta de risco. Não é bem assim, né? E agora, o que não falta nestes papeis é volatilidade – para baixo.

Mesmo assim, há consultores de investimentos e agentes autônomos declarando que pelos preços baixos atuais – que não param de cair – seria a hora de COMPRAR …..

Guilherme, com certeza a gente vai continuar esta viagem longa e importante juntos. No entanto, neste caso estou fora. Grande abraço!”

O leitor Ynvest, por sua vez, complementou:

“Excelente Michael. Concordo em gênero, número e grau.

É tanta coisa empurrada pro investidor a título de diversificação, que as pessoas acabam entrando em furada.

Me baseando no minimalismo, menos é mais: título público + ações + fundos de ações. Esse último voltei agora no meio do ano depois de 15 anos.

A ideia básica da diversificação: diminuir o risco

Como todos devem saber, diversificar consiste, em uma linguagem bastante simples e acessível, distribuir os ovos em diferentes cestas, a fim de evitar riscos excessivos concentrando os investimentos em uma só classe de ativos.

Suponha, por exemplo, que você tenha um patrimônio de R$ 10 mil, e que todo esse patrimônio esteja alocado em ações da Petrobras (PETR4). É bom? É ruim?

Se você tivesse comprado as ações a R$ 6, como ela estava há 3 anos, certamente teria feito um bom negócio, tendo em vista que hoje elas estão valendo quase R$ 30.

Porém, e daqui pra frente? Será que, daqui a 3 anos, elas se valorizarão no mesmo ritmo que nos últimos 3 anos?

Vamos mais a fundo: e se esse patrimônio de R$ 10 mil, hoje, correspondesse a ações da Eternit (ETER3), compradas igualmente há 3 anos?

Três anos atrás, elas valiam mais de R$ 10, hoje, não chegam a R$ 3.

Logo, desses singelos exemplos já é possível concluir que concentrar todo o patrimônio em uma única classe de ativos te expõe a um alto grau de risco, e te expõe a um grau de risco ainda maior se, dentro de uma classe de ativos, você concentrar todo o seu capital em um único tipo de sub-ativo.

Nos exemplos acima, como não sabemos nada a respeito do futuro das ações, das empresas, e do mercado em geral, é mais prudente e mais cauteloso adicionar uma classe de ativos ao portfólio, visando diminuir o grau de risco da carteira como um todo.

Isso pode ser feito, por exemplo, com um fundo referenciado DI, ou o Tesouro SELIC, que não apresenta correlação com a classe de ativos das ações.

Dessa maneira, ainda que você tenha rentabilidade negativa momentânea com as ações com uma parcela de sua carteira, a outra parcela – a da renda fixa – estará te protegendo de uma rentabilidade ainda pior de sua carteira como um todo.

Quando a diversificação é uma furada

Porém, diversificar por diversificar não garante absolutamente nada. Adicionar uma classe nova de ativos ao seu portfólio requer um estudo prévio de como esse ativo se comportará dentro de sua carteira de investimentos.

Por exemplo, é um mantra comum dentro do mundo da educação financeira que você faça a clássica divisão dos investimentos em renda fixa e renda variável, de modo que a renda fixa sirva como um colchão de proteção, diante dos solavancos que a renda variável proporcionará de tempos em tempos.

Porém, e se o sujeito tiver escolhido, para investir em renda fixa, em debêntures – que são um investimento dentro da renda fixa – da…Rodovias do Tietê?

Essas debêntures, quando foram lançadas ao mercado, prometiam rentabilidade de IPCA + 8% a.a. O que aconteceu é que a empresa “quebrou”, e as debêntures tiverem sua marcação de valor zerada em muitos fundos de investimentos, conforme noticiado nesse link enviado pelo Michael.

Logo, quem tivesse, por exemplo, alocado 100% em ações (via ETF BOVA11, por exemplo), e, de repente, tivesse repartido o capital em 50% ações (BOVA11) e outros 50% em debêntures da Rodovias do Tietê, teria tido prejuízo com a diversificação.

Ou seja, a diversificação teria aumentado o risco.

Como disse o Ynvest, a diversificação teria sido uma baita furada.

Diversificação: uma proteção contra a ignorância?

No campo específico das ações, é conhecida uma frase atribuída a Warren Buffett, que recomenda o investimento em fundos de índice passivos no mercado americano de renda variável, uma vez que, nesse caso, a diversificação, proporcionada pelo investimento em um índice amplo como o S&P 500, constitui uma proteção contra a ignorância.

O próprio Buffett, em sua longa trajetória profissional de sucesso no mercado de ações, preferiu concentrar suas fichas em poucas empresas, escolhidas e selecionadas de forma muito criteriosa, depois de passadas em diversos filtros e testes.

Trazendo os ensinamentos de Buffett para o Brasil, não deixa de ser curioso o fato de que muitos investidores utilizam, como um dos principais argumentos para não se investir nos nossos fundos de índice passivos locais (como o PIBB11, o BOVA11 etc.), o fato de que tais índices apresentam, em sua composição, ações de empresas que eles racionalmente não investiriam, principalmente as empresas estatais (Petrobras, Banco do Brasil, Eletrobras etc.), que ainda têm um grande peso na composição acionária dos principais índices da Bolsa brasileira.

O argumento, para esse grupo de investidores, tem um forte apelo, na medida em que, pelo fato de a Bolsa brasileira ter bem menos empresas do que a Bolsa americana, seria mais fácil fazer a análise individual de cada empresa listada na Bolsa e, assim, obter retornos melhores do que o investimento em fundos de índice.

Embora, sob essas prismas, o ato de diversificar realmente se constitua num escudo contra más escolhas (e particularmente más escolhas de ações individuais), ele, ou seja, o próprio ato de diversificação, deve ser objeto de estudo por parte do investidor.

O que eu quero dizer, em outras palavras, é que a composição de uma carteira de investimentos, ao menos no que tange à distribuição do dinheiro entre as diferentes classes de ativos, deve ser objeto de um mínimo tempo de estudo e dedicação.

Assim, por exemplo, ainda que você decida investir em ações individuais, porque tem a certeza de que esse é o melhor caminho para rentabilizar sua carteira, isso não elimina a necessidade de buscar meios de atenuar os eventuais riscos adicionais desse tipo de investimento, por meio do investimento em outras classes de ativos, preferencialmente não correlacionados às ações.

Da mesma forma, se você decide melhorar a rentabilidade de sua parcela alocada em renda fixa, por meio do investimento em debêntures e fundos de crédito privado, isso não elimina a necessidade de você estudar os prós e contras desses tipos de investimentos para a sua carteira global de investimentos.

Por último, se você foi instigado, por agentes autônomos de investimentos, assessores de sua corretora, ou seu gerente de banco, a investir nos famigerados COEs, em novas emissões de novos (ou velhos) fundos imobiliários (que voltaram com força agora com o fechamento da curva de juros), ou em IPOs, sob o pretexto de que tais investimentos vão “diversificar sua carteira de ativos, proporcionando rentabilidade diferenciada a longo prazo”, isso não suprime a necessidade de você avaliar a conveniência e a oportunidade, e sobretudo se faz sentido, ter esses ativos adicionais em seu portfólio.

Conclusão

Como bem disse o leitor Ynvest, no comentário acima mencionado, “menos é mais” – ou menos pode ser mais.

Ter muitos e diferentes tipos de investimentos em sua carteira pode intoxicar o resultado final de seu portfólio, além de tomar um tempo precioso para gerenciamento e administração.

Dependendo do tamanho de seu patrimônio financeiro, ter, em seu portfólio, dois CRIs com vencimento em 2023, uma CRA com vencimento em 2025, outra LCI com vencimento em 2021, mais uma LCA com vencimento em 2024, duas debêntures com vencimento em 2025, um fundo referenciado DI num bancão e outro fundo DI em um banco digital, dois títulos do Tesouro SELIC, um Tesouro IPCA+ com vencimento em 2045, outro Tesouro Prefixado com vencimento em 2029, 3 fundos multimercado, e mais dezoito ações individuais, além de 7 fundos imobiliários e 2 fundos cambiais, um em euro e outro em dólar, pode ser excessivamente comprometedor de sua carteira de investimentos como um todo, a depender de seus objetivos de longo prazo e da distribuição desse portfólio como um todo.

O ponto de equilíbrio, isto é, a quantidade ideal de classes de ativos, e de diferentes ativos dentro de cada classe, é um fator essencialmente individual, e resultado de uma série de fatores e circunstâncias.

Há aqueles investidores, mesmo os não profissionais, que gostam de acompanhar o mercado e de gastar tempo monitorando seus ativos e estudando sobre as opções de investimentos. Para ele, o ponto de equilíbrio será “X”.

Já para outro investidor pessoa física, que não gosta de gastar tempo acompanhando o mercado financeiro, ponto de equilíbrio será “J”, bem diferente daquele do investidor acima.

Para alcançar esse ponto de equilíbrio, é preciso estudar, aprender, e, principalmente, praticar. Só com o tempo, com a experiência, e com a aprendizagem, através de erros e acertos, é que você conseguirá encontrar a diversificação ideal para a sua carteira de investimentos.

Investir é, definitivamente, uma arte, um processo, e o ato de diversificar, ao invés de agregar valor, pode intoxicar seu patrimônio financeiro. Pense sempre nisso toda vez que alguém vier a lhe oferecer um novo investimento. 😉

 

 

 

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13 Responses to Diversificar não é garantia de diminuição de riscos

  1. André 2 de dezembro de 2019 at 9:58 #

    Olá Guilherme!

    Concordo em gênero, número e grau. Diversificar é importante, mas não significa comprar qualquer besteira simplesmente por… diversificar.

    Há um tempo, não me lembro onde (talvez seja nos meus comentários que sumiram), troquei ideias com alguém sobre a importância da diversificação. Mas o entendimento que se tinha dessa palavra era que ela seria algo oposto a comprar ativos e papéis de qualidade.

    Não é.

    A diversificação é positiva enquanto ela for usada como um seguro contra nossos vieses de mercado. Uma proteção contra nossa ignorância que não queremos assumir nem por nós mesmos. Uma forma de “surfar” momentos para comprarmos ativos baratos tendo recursos em outras classes de ativos.

    Enfim, no conceito de diversificação está embutido a compra de ativos de qualidade. Depois desse debate, até modifiquei uma parte do meu texto de alocação de ativos para deixar claro esse ponto, pois muitas vezes as pessoas entendem de forma errônea o conceito.

    Abraços e boa semana!

    • Guilherme 5 de dezembro de 2019 at 8:10 #

      Excelente, André!

      Gostei particularmente desse trecho:

      “…no conceito de diversificação está embutido a compra de ativos de qualidade.”

      E como se faz para comprar ativos de qualidade? Estudando, claro! Pesquisando, montando a carteira, experimentando, e vendo se faz sentido para o perfil pessoal daquele investidor.

      Ótimos comentários!

      Abraços!

  2. Adri 2 de dezembro de 2019 at 11:42 #

    Bom dia.
    O que está acontecendo com a queda das cotas dos Fundos de Deb Incentivadas é
    devido ao “risco de mercado”, não ao “risco de crédito”.
    Risco de mercado entenda se marcação a mercado, com o spread de juros se fechando.
    As empresas continuam solidas, com a melhora da economia, selic baixa só tendem a melhorarem.
    Continuam honrando pgtos de juros e amortização da sua divida(debenture).
    Empresas como Vale, Petrobras, Klabin, Engie, Copel, Rumo e tantas outras o risco de credito é mínimo.
    Sempre vai ter casos isolados de calote no mercado, agora a Rodov. Tiete.
    Para quem comprou debenture incentivadas, não através de fundos, através de IPO ou mercado Secundário e “com intenção de levar até o vencimento” não precisa ter a preocupação da volatilidade da marcação a mercado do valor da debenture.
    Nos fundos a’ marcação mercado’ ocasionou a queda forte do valor da cota.
    Neles existem varias debentures com vencimentos variados e a saída forte de cotistas nesses fundos obriga a venda antecipada das debentures no momento em que a marcação a mercado baixou o valor dos títulos.
    Quanto mais resgates mais demora a recuperação.
    Por que os gestores dos fundos recomendam entrar agora?
    A resposta é porque a cota dos fundos estão baixas (compre na baixa e venda na alta, não é sim com ações?).
    É a mesma dinâmica dos títulos públicos do T.Direto, onde a “marcação a mercado” faz o título ser volátil.
    Quem aplica no T.Direto sabe que o valor do título sobe e desce, mas se levar o título até o vcto recebe o que contratou.
    Prejuízo ou rendimento abaixo do CDI ocorre também com fundos MM e FIA e agora também com Fundos de Deb Incentivadas. O sr. mercado vai ensinando.
    Aplicar em Fdo Deb Incent é recomendado para diversificar o “risco de crédito”, e agora sofre com o “risco de mercado”.
    Para o investidor que possui dinheiro nesses tipo de fundos, e eu tenho um pouco, resta permanecer ou resgatar e devolver o ganho, ou realizar prejuízo, pois parece que esse movimento nada favorável para esses fundos vai continuar por algum tempo.
    Risco nos investimentos sempre vai existir, conhece los antes e aceitar se vierem ocorrer. Acho a diversificação pode minimizar esses riscos.
    Quem quer rentabilizar mais tem que diversificar e correr riscos na proporção do retorno.
    Quem não quer risco e acho perfeitamente natural, nada contra, existem os investimentos como poupança, Tesouro Direto.

    • Guilherme 5 de dezembro de 2019 at 8:15 #

      Adri, você deu uma verdadeira aula sobre os riscos inerentes aos fundos de debêntures incentivadas. Parabéns!!!

  3. MJC 2 de dezembro de 2019 at 14:49 #

    Isso lembra também os CDOs e a crise de 2008.

    Colocar um monte de crédito podre num único pacote não é uma diversificação boa. Pior ainda é juntar diversos pacotes desse tipo em um pacotão e assim sucessivamente, praticamente uma referência cruzada… Deu no que deu rs

    • Michael 4 de dezembro de 2019 at 19:12 #

      Deu o que deu mesmo, MJC. E o que me lembra os CDOs e a tal crise de 2008 seriam: os CRI’s e os CRA’s daqui. Eh so comparar as estruturas. E especialmente a dependencia dos investidores e seus assessores nos “ratings” do S&P, Moody’s etc. Houve casos de ratings iniciais de AAA se tornando CCC…….

      • Guilherme 5 de dezembro de 2019 at 8:49 #

        Caramba…….rsrs…..

        Eu também tenho uma certa aversão a esses “ratings”…. afinal, por mais bem elaborado que seja o estudo, pode sempre existir um ponto invisível capaz de desestruturar esses ativos…

  4. TumTum 2 de dezembro de 2019 at 15:02 #

    Boa tarde, Guilherme!
    Fale sobre mais ETFs! Tem um post seu de 2018 que gosto muito (“como eu obtive rentabilidade de 26%”) em que você aborta ETF e em especial o BOVA11.

    Eu tenho preferido (mesmo no Brasil) aportar em PIBB11 do que fazer stock picking, mas é cedo pra dizer que estou tendo sucesso, pois fui beneficiado da alta recente que fez a cota pular pra 185,00 “do nada”.

    Abs!

  5. TumTum 2 de dezembro de 2019 at 21:08 #

    OBRIgado MJC, vou ler!

  6. Michael 4 de dezembro de 2019 at 19:03 #

    Fala Guilherme!

    Eu concordo INTEGRALMENTE com o Andre e o MJC – alem, claro, do Ynvest.

    “Diversificar” infelizmente aqui no Brasil representa apenas uma campanha de marketing induzindo a compra de ativos podres. Resulta frequentemente no desequilibrio dos portfolios – o contrario do objetivo, que seria segurar o risco embutido nas carteiras.

    Agora mesmo, apenas para a tal “diversificaçao” as corretoras e agentes autonomos estao ativamente recomendando ativos denominados em dolar, ou ate a abertura de contas la no exterior. Eh claro que tais ativos, para viagens planejadas no exterior, ou como um contrapeso de ativos locais de risco, como açoes, poderiam sim fazer o maior sentido.

    Infelizmente a recomendaçao – sem o entendimento dos objetivos do investidor – apenas aumenta a volatilidade da carteira e possiveis perdas no resgate antecipado. Um exemplo gritante seria a recomendaçao de fundos locais de cambio – ou ate BDR’s!! – sem a devida orientaçao. (Uma ideia Guilherme para um artigo futuro seu seria se vale a pena ou nao de investir em instrumentos em dolar ou ate abrir conta no exterior).

    Abraço!

    • Guilherme 5 de dezembro de 2019 at 8:53 #

      Ótimas dicas e ideias, Michael!

      Pois é, estamos vendo novamente o mesmo filme de antes: com a alta do dólar, chovem recomendações de investimento em ativos estrangeiros ou em fundos cambiais……..aí, quando a maré se inverte, as pessoas que compraram na alta vão vender na baixa, e o ciclo se repete…..

      Vou sim pensar em produzir um artigo a respeito!

      Abraços!

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