Fundos referenciados DI com rentabilidade negativa (!!??): em breve num banco perto de você

Na semana retrasada publicamos um post, em que comentamos as dificuldades do investidor conservador de ganhar dinheiro com a renda fixa, dado o então patamar da taxa SELIC na casa dos 6% a.a.

Naquela oportunidade, escrevemos não somente sobre a ilusão da rentabilidade nominal de 1% ao mês, como também sobre a necessidade de você maximizar o valor dos aportes, procurar investimentos isentos de impostos e cortar custos.

Cortar custos. Essa é a ação-chave, uma vez que a rentabilidade dos investimentos é (via de regra) imprevisível, mas os custos não. Eles são sempre previsíveis. E quanto maiores eles forem, menor será o retorno líquido de seus investimentos.

Abordamos esse tema em diversos artigos do blog ao longo da última década:

Hoje, irei discorrer especificamente sobre os impactos da mais recente queda na taxa SELIC, de 6% a.a. para 5,5% a.a. em relação aos fundos referenciados DI, que basicamente seguem a variação do CDI e, portanto, da SELIC.

O mercado brasileiro, infelizmente, ao longo das últimas décadas, sempre se acostumou com taxas de juros astronômicas, que chegaram a passar de 40% a.a. no final dos anos 90.

Diante de um histórico em que predominavam taxas SELIC na casa dos dois dígitos, era relativamente fácil para os bancos criarem fundos de investimentos referenciados DI – em que o gestor não tem trabalho algum – com taxas igualmente astronômicas de administração, já que os custos permaneciam “invisíveis” para os investidores.

Imagine, por exemplo, uma taxa SELIC de 45% a.a., como ocorreu no final dos anos 90. Um fundo referenciado DI com taxa de administração de 4% a.a. praticamente “passava ileso” aos olhos dos investidores mais desatentos, em vista da gordura proporcionada pela elevada rentabilidade nominal.

O problema é que o cenário das taxas de juros mudou abruptamente no final dessa década de 10, mas os grandes bancos de varejo não. Eles continuam apostando na ignorância financeira de milhares e até milhões de brasileiros para manterem inalteradas as taxas de administração de tais fundos de investimentos, e, assim, continuarem a obter vultuosos lucros com elevadíssimas taxas de administração cobradas em fundos de gestão absolutamente passiva.

A Infomoney publicou semana passada uma matéria enumerando os 10 piores fundos DI do mercado, e os números são assustadores: juntos, eles somam mais de 990 mil investidores, com um patrimônio investido de mais de cem bilhões de reais.

O problema? Rentabilidade líquida final que retorna aos investidores.

Como as taxas de administração variam de 3,70% a.a. a surreais 5% a.a., a rentabilidade líquida final não passa, em média, de 50% do CDI. Façam os cálculos: com uma rentabilidade mensal média de 0,5% ao mês, isso significa um retorno médio de 0,25% ao mês ou menos. E olha que estamos falando de um retorno bruto, pois ainda devem ser descontados os impostos…

Não por acaso, todos esses fundos pertencem a grandes bancos de varejo: Banco do Brasil, Caixa Econômica Federal, Santander, Safra, Banco de Brasília e Banrisul.

Peguemos um exemplo de um fundo extraído dessa lista: FICFI Caixa Prático RF Curto Prazo.

Esse é um típico exemplo de fundo referenciado DI imprestável: taxa de administração de inacreditáveis 5% a.a.

Analisando esse fundo no site da Vérios, veja como foi o desempenho do fundo nos últimos 12 meses, comparando ao CDI – a linha do CDI é a linha preta, ao passo que a linha do fundo da Caixa é a linha azul:

Não, você não viu errado. Nos últimos 12 meses, o fundo referenciado DI da Caixa teve uma rentabilidade de 1,12%. Não foi uma rentabilidade de 1,12% ao mês. Foi uma rentabilidade 1,12% nos últimos 12 meses. Em agosto, ele rendeu míseros 0,06%.

Tá, mas aí você deve se perguntar que só uns gatos pingados devem investir nesse fundo.

É aí que você está redondamente enganado: esse fundo tem mais de 15 mil investidores, que, juntos, perfazem um patrimônio total de 16 bilhões de reais.

Não, você (de novo!) não leu errado. Não são R$ 16 milhões de reais. São R$ 16 BI. Mil vezes mais.

Pelo andar da carruagem, esse fundo caminha para ser um dos primeiros fundos 100% conservadores a perder dinheiro caso se confirmem as previsões do mercado de taxa SELIC a 4,75% ao ano até o final de 2019. Ou seja, o extrato vai logo logo começar a apontar perda de patrimônio. E isso num fundo conservador, cuja principal missão é a de preservação de capital.

Trocando em miúdos: daqui a pouco os cotistas desse fundo – bem como de todos os outros fundos referenciado DI cuja taxa de administração supere a taxa SELIC – vão ter que tirar dinheiro do bolso para investir, o que contraria totalmente a lógica de investir para ganhar dinheiro. Vai ser o investimento para perder dinheiro. A perda fixa, de que tanto falam, está prestes a se realizar – a tal da profecia autorrealizável 🙁

Conclusão

No final de 2016, publiquei um texto em que comentava, de maneira lateral, a existência de um fundo referenciado DI (também da Caixa) que cobrava 1,5% a.a de taxa de administração – demasiadamente cara, óbvio (não tão cara quanto à do fundo mencionado no artigo, mas ainda assim muito cara).

Naquela época, o tal fundo DI tinha um patrimônio líquido de inacreditáveis R$ 5 bilhões, e eu escrevi:

“Um desastre para os investidores, uma maravilha para o banco.

Aí você já pode imaginar: “como tem gente acomodada nesse Brasil…”.

E eu respondo: “E como!”

Pior é saber que muita gente coloca dinheiro nesses fundos DI com o objetivo de formar uma reserva para a aposentadoria. Tudo errado!

As pessoas têm que fazer aquilo que precisam, que é investir nos instrumentos adequados aos seus objetivos financeiros, pagando os menores custos possíveis; e não aquilo que gostariam, que é deixar o dinheiro aplicado na comodidade de um produto bancário – e um produto bancário ainda por cima muito caro.

É por essas e outras que não é à toa que as pessoas ficam tão preocupadas quando ouvem falar em Reforma da Previdência: porque a maioria delas nunca poupou nada enquanto esteve em plena idade produtiva.

É claro que preocupações com o INSS/RPPS devem fazer parte dos debates na sociedade, mas isso não isenta você, caro(a) leitor(a) do blog, de começar desde já a fazer planos independentes de aposentadoria financiada pelos entes estatais”.

Resgato aquele texto porque a renda fixa vai ser inevitavelmente o seu porto seguro para a aposentadoria financeira.

Por mais que você atualmente invista majoritariamente em ações, fundos imobiliários, até imóveis físicos, ouro, dólar etc., você terá que ter, no futuro, uma reserva de liquidez para bancar os gastos quando deixar de ter um salário mensal.

E, para essas específicas situações, a coisa mais contra-indicada no mundo é se sujeitar ao risco de ter que entregar a maior parte da rentabilidade, de um patrimônio duramente acumulado ao longo de décadas de trabalho árduo e pesado… para o banco.

Não faça isso. Sempre preste atenção aos custos dos investimentos.

Saia da zona de conforto e seja um ativista dos investimentos – pelo menos dos seus próprios investimentos. Sei que provavelmente nenhum leitor antigo e assíduo do blog investe em fundos DI com taxas tão escorchantes quanto aquelas de 5% a.a., mas deve ter um ou outro que ainda insiste em fundo DI de bancão que cobra 1% ou mais de taxa de administração. Não faz sentido!

Simplesmente não faz sentido. É como entregar uma parcela de seu patrimônio para o banco, como forma de agradecimento pelo serviço de custódia. Esqueça isso. Seja egoísta com seus investimentos.

Não aceite comprar investimento caro. Só compre investimento barato. A lógica do mercado financeiro, principalmente a lógica dos fundos DI, é contrária à dos passivos: quanto mais barato o produto, de melhor “qualidade” ele será.

Veja a tabela dos fundos referenciados DI de seu bancão: pode ser Bradesco, BB, Itaú, Santander, Caixa, qualquer um. Veja lá e observe uma coisa curiosa comum a todos eles: a menor taxa de administração é restrita para quem tem capacidade de aporte na casa do R$ 1 milhão, dos R$ 2 milhões. Se você tiver só cem reais, mil reais, vão te abrir as portas somente dos produtos que não prestam, dos produtos com taxas de administração mais altas. Faz sentido? Só se for pro banco! Pra você não faz.

O negócio, repito, é sair da zona de conforto e melhorar a diversificação, procurando produtos baratos e confiáveis, com baixo grau de risco, em corretoras e bancos de médio e pequeno porte.

Pois o que você precisa não é de custos compostos, mas sim de juros compostos. 😉


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13 Responses to Fundos referenciados DI com rentabilidade negativa (!!??): em breve num banco perto de você

  1. MJC 23 de setembro de 2019 at 7:01 #

    Essa semana tinha um fundo RF do Santander que estava cobrando 5.5% de taxa de administração.

    Depois da divulgação, cortaram as taxas para acho que 2.5%. Bem menor, mas altíssima ainda…

  2. Longe do Limite 23 de setembro de 2019 at 10:12 #

    A mudança nunca virá de quem está levando vantagem com a situação. Precisa doer no bolso primeiro.

    Foi assim na corretagem dos títulos públicos, FIIs e ações.

    Foi assim também na taxa de custódia dos títulos públicos.

    E será assim nas taxas de administração dos fundos.

    Abraço!

    • Guilherme 26 de setembro de 2019 at 17:28 #

      Excelente, LL!

      A dor é uma excelente professora para ensinar como se deve investir de modo adequado.

      Abraços!

  3. André 23 de setembro de 2019 at 11:21 #

    Grande Guilherme! Serviço de utilidade pública esse texto!

    É realmente absurdo ouvir isso. Os grandes bancos ganham em cima da desinformação da população. O alento é que nos últimos anos, as informações estão sendo mais disseminadas. A multiplicação dos bancos digitais tem ajudado o debate.

    Mas esse fundo da CEF já está agora com rentabilidade negativa não? Nem precisa esperar a próxima queda da SELIC… Como os gerentes irão explicar isso ao cliente que minimamente, espera que seu dinheiro só não “diminua”?

    E outro ponto que vale citar: estamos falando de taxas negativas SEM considerar a inflação. Se a considerarmos, esses clientes já estão perdendo dinheiro há muito tempo.

    Abraço!

    • Guilherme 26 de setembro de 2019 at 17:32 #

      Bem lembrado, André!

      A inflação torna ainda pior esse tipo de fundo!

      Agora, os gerentes desses bancões realmente ficaram numa sinuca de bico….rs

      Ainda bem que a disseminação da informação tem ajudado a esclarecer melhor os serviços bancário para a população.

      Abraços!

  4. IRISMAR FERREIRA DE MELO 24 de setembro de 2019 at 20:28 #

    Ola Guilherme, boa noite. Gostei do seu artigo e o compartilhei em minha rede no LinkedIn.
    Sou seu leitor a muito tempo e sigo o blog por mais de 6 anos. Aprecio sempre sua linguagem acessível e abordagem esclarecedora.
    Meus parabéns por contribuir para a educação financeira do nosso pais.

    • Guilherme 26 de setembro de 2019 at 17:33 #

      Muito obrigado pelas palavras e pelo compartilhamento, Irismar!

  5. Saul 27 de setembro de 2019 at 9:26 #

    bom artigo! Nunca vi sentido em um fundo de renda fixa considerando a simplicidade se se aplicar diretamente no ativo, tenho um fundo de renda variável, neste caso sim, confio a analise de ações para terceiros…

  6. Pride 4 de outubro de 2019 at 22:08 #

    Guilherme, parabéns pelo excelente trabalho, como sempre.

    Esse post me lembrou da seguinte pesquisa: sobre fundos de previdência:

    Dos fundos que existem de 48 meses para cá (587 fundos), temos que apenas 17 batem o CDI neste período.
    Isto mesmo, apenas pouco menos do que 3% dos fundos (2.90%) consegue bater o CDI em um horizonte de tempo um pouco mais longo. Um macaco, fazendo uma prova de múltipla escolha com 5 opções tem uma taxa de sucesso (20%) maior do que a indústria dos fundos de previdência.

    https://www.taginvest.com.br/img/artigos_set16_previdencia.pdf

  7. Guilherme 5 de outubro de 2019 at 14:40 #

    Obrigado, Pride!

    Achei ótima sua referência ao estudo da TAG. Mostra bem quão ineficiente é a indústria brasileira de fundos de previdência. Ineficiente, cara e ruim, diga-se de passagem.

    Abraços!

  8. Dinêi Gazoni 5 de outubro de 2019 at 21:02 #

    Parabéns por mais um excelente texto Guilherme!!!

    Apesar de não comentar muito sempre leio os textos e são inspiradores. Aproveito para comentar sobre a queda da selic.

    Apesar de alguns ficarem aflitos com a queda da selic, isto significa um menos risco em empréstimos, desemprego em queda, empresas desengavetando projetos, etc, ou seja, a confirmar isso, teremos uma expectativa de um bom cenário econômico. Claro que no Brasil até o passado é imprevisível, rsrs.

    Em relação aos fundos de renda fixa, acredito que veremos algumas propagandas de fundos que tem em sua carteira títulos da época da selic em dois dígitos e que daqui para frente devem estufar o peito para dizer que renderam XX por cento acima do CDI.
    Este cenário de mudança no ciclo econômico exige cautela e estudo. Devemos saber filtrar as informações para não sermos levados pela onda do momento.

    Abraços!

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