[34 aos 42 anos] Avistando a aposentadoria na linha do horizonte

Quando eu era criança e passava as férias na praia, uma de minhas atividades preferidas e divertidas era tentar avistar algum veículo flutuante – navio ou barco – na linha do horizonte, e imaginar quanto tempo demoraria nadando para chegar até lá. 10 minutos? Meia hora? Uma hora?

Mas a existência do barco vagando por tão distantes mares me fazia ter outros tipos de pensamentos: o que será que as pessoas que estão lá estão fazendo? Pescando? Transportando mercadorias? Viajando a lazer?

Quando você é criança, é interessante observar como a imaginação corre solta ao apenas imaginar o que pode estar acontecendo com tais pessoas em locais tão longe ao ponto de serem avistados somente na linha do horizonte… e imaginar que o que acontece de fato lá é algo real, mensurável, concreto. Viajamos na imaginação, viajamos no tempo.

Pois foi exatamente essa a primeira sensação que me ocorreu ao receber uma mensagem do leitor Rodrigo.

Ele estava na seguinte situação: 38 anos, casado, com dois filhos pequenos, com financiamento de imóvel, com financiamento de carro, contribuindo para o INSS, e com uma reserva investida em PGBL com tributação regressiva definitiva. Nesse plano de previdência privada, sem taxa de carregamento, e com 0,9% de taxa de administração, ele pretendia se aposentar aos 60 anos, com resgate total do valor investido ao chegar a essa idade (ele não pretende converter o patrimônio acumulado em renda, mas sim investir por conta própria o montante acumulado), e perguntou qual seria a melhor estratégia para as contribuições, bem como para os resgates.

Pode não parecer, mas pessoas na faixa etária dele (que tem 38 anos), que pretendem se aposentar aos 60, com o perfil de investimentos semelhantes (PGBL com tributação regressiva definitiva) já começam a avistar a aposentadoria na linha do horizonte. Eles já estão avistando, da beira da praia, e sem binóculos, o barquinho da aposentadoria na lá no fim da linha que separa o mar do céu.

E por quê digo isso?

Simples: porque ele teria somente mais 12 anos de contribuição pela frente (ao PGBL), se não quiser ser penalizado em termos tributários. DOZE anos!

Isso mesmo.

Quem opta por investir em PGBL com tributação regressiva definitiva (não vou entrar no mérito da questão se o investimento é bom ou ruim, isso não faz parte do artigo de hoje), obedece à seguinte tabela regressiva de imposto de renda:

Em outros termos: quanto maior o prazo que o dinheiro aplicado ficar investido no plano, menor será a alíquota do IR a pagar – lembrando que, nesse caso, o IR incide sobre todo o valor acumulado, e não apenas sobre a rentabilidade.

Do ponto de vista estritamente tributário, portanto, para ele se beneficiar integralmente da menor alíquota do imposto de renda sobre todas as contribuições realizadas, é preciso que ele pare de pagar a previdência privada em 2030, quando ele completar 50 anos. Por quê?

Ora, porque, como ele pretende se aposentar aos 60 anos, isto é, em 2040, se ele continuar contribuindo depois de 2030, as contribuições previdenciárias privadas realizadas nesse intervalo de tempo – ou seja, entre 2030 e 2040 – não se beneficiarão da menor alíquota de IR, que é a de 10%. Contribuições realizadas entre 2030 e 2032 pagarão 15% de IR, as realizadas entre 2032 e 2034 pagarão 20%… até chegar às contribuições pagas entre 2038 e 2040, que sofrerão a pesada alíquota de 35% sobre todo o montante acumulado nesse específico período (2038 a 2040).

Assim, para se beneficiar integralmente da alíquota de 10% sobre todo o patrimônio acumulado em PGBL, é preciso que ele pare de contribuir em 2030. Na prática, isso significa somente mais 12 curtos anos de contribuições à previdência privada.

As alternativas não alteram o fato principal

Mas há alternativas que podem ser manipuladas pelo Rodrigo, se ele achar esse tempo curto demais para um planejamento tão sério e importante que é a aposentadoria.

A primeira é a de parar imediatamente de fazer novos aportes. Assim, daqui a 10 anos, ou seja, em 2029, ele terá todo o montante acumulado no PGBL com a menor alíquota do IR, que é a de 10%, podendo fazer os resgates pagando menos imposto de renda.

A segunda alternativa é a de adiar o início da aposentadoria, programada para 2040, quando ele completar 60 anos. Se o montante acumulado, quando ele tiver 50 anos, não for considerado suficiente para ele, ele poderá contribuir mais alguns anos, digamos 10, e só sacar o plano quando tiver 70 anos, ou mais.

O problema da primeira alternativa – parar imediatamente de fazer novos aportes – é que talvez ele esteja fazendo esse tipo de investimento justamente por conta do recebimento do benefício fiscal de 12% sobre quem declara o IR no modelo completo – situação mais comum para quem tem rendimentos salariais situados na faixa de 27,5% de IR, e conta com esses aportes para receber restituição de IR todo ano.

Se for realmente essa a hipótese, o efeito negativo de deixar imediatamente de pagar o PGBL é que, no IRPF de 2020, exercício 2019, ele provavelmente terá que pagar IR por ocasião da declaração de ajuste anual, ao invés de receber restituição de imposto de renda.

A segunda alternativa pode ser, em tese, menos problemática, uma vez que, além de fazer os juros compostos trabalharem por mais tempo, resultando num montante acumulado maior, faz com que parte do período a mais contribuído ao PGBL coincida com a aposentadoria oficial pelo INSS, que eu presumo que será menor que o salário que ele atualmente recebe.

Nesses termos, a base de cálculo para o IR, na fase de aposentadoria, seria menor (mesmo considerando que ele vá receber o teto do INSS, ou algo próximo a isso, por conta do fator previdenciário), o que tornaria a decisão de parar de aportar ao PGBL menos problemática, pois teria menos imposto de renda a pagar por ocasião da declaração de ajuste anual.

Porém, qualquer alternativa acima mencionada não vai alterar o fato principal. E que fato é esse?

Simples: o fato de que o Rodrigo já está avistando a aposentadoria na linha do horizonte.

Mid-30’s, não se enganem: a contagem regressiva para a aposentadoria já começou. Quanto você acumulou até agora?

A mensagem de hoje é mais direcionada a um público específico do blog: aquele formado por pessoas que estão na faixa dos 30 aos 40 anos. É uma faixa de idade onde a preocupação de poupar para o longo prazo é maior do que aquela formada pelos jovens na faixa dos 20 anos, mas ainda menor do que aquela formada pelas pessoas que já passaram dos 40 e poucos anos.

Pois o recado aqui é claro e direto, para os mid-30’s: se você ainda sequer iniciou seus aportes para a aposentadoria, então você está atrasado, meu amigo! Comece a economizar para a aposentadoria hoje. Agora. Pois você, quer queira, quer não, já está avistando a aposentadoria na linha do horizonte. Os 50 anos de idade já estão logo ali, entre o final da próxima década (da década de 20) e o começo dos anos 30.

Uma década passa em instantes, e a percepção subjetiva de velocidade do tempo se acelera a cada ano que passa.

Encaremos a realidade: se você é uma pessoa nascida entre o final (finalzinho) dos anos 70 e o começo dos anos 80, o ano em que você completará a idade de 50 anos já está logo ali, na linha que separa o mar do céu.

Mais: se você pretende se aposentar na faixa de idade dos sexagenários (entre 60 a 70 anos), que, aliás, coincide com a idade da aposentadoria oficial (INSS/RPPS), você não tem muito mais tempo a perder. São só mais uns 20 ou 30 anos de contribuição – e olhe lá!

O que você vai fazer? Vai empurrar com a barriga, preferindo apostar suas fichas na aposentadoria do INSS ou do RPPS, que, aliás, só tende a piorar? Ou vai finalmente começar a implantar uma cultura de poupança previdenciária em sua mente?

Não há tempo a perder. Todos sabemos que o futuro financeiro dependerá cada vez mais de nossas habilidades presentes de bem administrar nossas finanças pessoais do que de eventuais benesses patrocinadas pelos órgão estatais previdenciários.

Todos sabemos que a aposentadoria paga pelos cofres públicos não dará conta do recado e não será suficiente para bancar nosso atual estilo de vida.

Portanto, o quanto antes você agir, melhor.

Se você, que está lendo esse artigo, tem seus vinte e poucos anos (que inveja desse grupo!), considere-se um afortunado pelo só fato da idade, pois você tem um caminhão de tempo pela frente, e poderá fazer um planejamento ótimo para cuidar de sua aposentadoria financeira. Esses daí não chegaram nem na beira da praia ainda. Estão na estrada a caminho da praia. Tem, portanto, ainda um longo caminho a percorrer.

Porém, se você estiver como o Rodrigo, situado nos seus trinta e pouco anos, é hora de acordar para a realidade, pois já estão com o pé na areia. Mais: já estão vendo a aposentadoria logo ali, na linha do horizonte, que separa o mar do céu.

Por conta dessa situação, que pode ser boa ou ruim dependendo da maneira como você encara o seu futuro, os mid-30s jamais deixar para depois aquilo que irá impactar gravemente o seu futuro, que são os cuidados com sua poupança previdenciária.

E por “poupança previdenciária” entenda-se não apenas os investimentos nos veículos tradicionais para a aposentadoria, como PGBL/VGBL, mas sim para todo e qualquer investimento que você faça dedicado para a acumulação de recursos visando o longo prazo.

Nesse grupo incluem-se quaisquer investimentos que você faça, mas principalmente aqueles que têm a probabilidade de apresentar retornos significativamente maiores a longo prazo, tais como as ações de boas empresas, os fundos imobiliários para a geração de renda mensal, títulos do Tesouro Direto indexados à inflação etc.

Tão importante quanto escolher bem os investimentos é ter capacidade de aportes. É ter capacidade de colocar mais massa, todo mês, pra fermentar o bolo da aposentadoria. Você está fazendo isso? Ou ainda (ainda!) gastando tudo o que ganha, e não sobra nadica de nada no final do mês?

Faça o esforço. Faça o sacrifício. Comece poupando pelo menos 10% de sua renda todo mês. Doa a quem doer, mas faça. Não deixe pra depois. Não deixe!

Conclusão

Dependendo de quando e da maneira como você planeja e executa sua estratégia de investimentos, o tempo tanto pode ser um aliado de sua gestão de ativos, como pode ser um inimigo implacável. Qual dos dois você prefere?

A resposta soa óbvia, só que não. Muita gente, mais de 96% da população, não investe para a aposentadoria.

A maioria absoluta dos brasileiros confia no INSS, confia na ajuda de pai, mãe, irmão ou sobrinho (às vezes até de avô ou avó). A maioria absoluta dos servidores públicos ainda confia que o regime público de previdência – a União, Estados, Municípios – é o seu melhor “amigo” na hora da aposentadoria. Não são. Jamais serão.

Como eu já disse em outro artigo do blog, não deixe de aproveitar as oportunidades enquanto elas ainda estiverem disponíveis.

Tem emprego? Tem. Tem tempo? Tem. Tem dinheiro? (Se for organizado financeiramente), também tem.

Então mão à obra. Seu futuro eu irá te agradecer por você ter, lá atrás, quando você tinha seus 20’s, seus 30’s, seus 40’s, tido a iniciativa de começar cedo ou o quanto antes. Pois daqui a algum tempo, você não estará apenas avistando a aposentadoria na linha do horizonte. Daqui a algum tempo, você estará na própria linha do horizonte. Dentro daquele barquinho que você, da areia da praia, só avistava de longe. E eu espero que você esteja lá dentro bem financeiramente. 😉

Créditos da imagem: Free Digital Photos

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20 Responses to [34 aos 42 anos] Avistando a aposentadoria na linha do horizonte

  1. MARCOS ARCANJO AGOSTINHO 22 de julho de 2019 at 8:49 #

    Belo artigo…
    Estou a 1 ano da casa dos 30…
    Comecei reserva para renda futuro em 2014 aplicando 5% renda liquida em IPCA 35. Esse artigo me leva a repensar e adicionar mais valor a essa reserva…

    Obrigado pelo alerta!!!
    Abs

    • Guilherme 28 de julho de 2019 at 8:49 #

      Valeu, Marcos!

      Realmente, poupar para o futuro não é uma faculdade, é uma necessidade.

      Abraços!

  2. Fernandes 22 de julho de 2019 at 9:02 #

    Excelente texto, Guilherme. Um dos melhores já escritos por aqui. Tenho certeza que vai contribuir muito para sensibilizar as pessoas. O tempo voa e bem rápido.

  3. Marcelo Guterman 22 de julho de 2019 at 16:59 #

    Guilherme, avisa seu leitor que não vale a pena resgatar do PGBL para fazer outros investimentos. Ele vai pagar 10% de IR na cabeça, e depois vai ter que pagar IR sobre o rendimento dos novos investimentos. Só vale a pena resgatar para gastar o dinheiro. A não ser que ele obtenha um investimento isento de IR, mas aí as alternativas são mais limitadas. E ele sempre pode fazer a portabilidade do PGBL para outros com taxas menores de administração ou mais arriscados buscando ganhos maiores.

    • Guilherme 28 de julho de 2019 at 8:51 #

      Muito bem lembrado, Marcelo!

      A questão tributária sempre deve ser uma variável a ser analisada, em função da enorme fatia que abocanha em investimentos do tipo PGBL.

      Abraços!

  4. Michael 22 de julho de 2019 at 23:16 #

    Mais um excelente texto Guilherme. Realmente com esses planos de previdencia eh muito preciso planejar mesmo, para se aproveitar da regime Regressiva com a menor aliquota de 10%.

    Acredito que, com tal planejamento, felizmente o seu leitor teria mais opçoes na frente, alem de parar de contribuir, ou de adiar a aposentadoria. Deixa-me explicar.

    Com o sistema de PEPS (Primeiro que Entra Primeiro que Sai, equivalente ao FIFO (First In First Out) em ingles, seria possivel sim continuar contribuindo ate o ano de aposentadoria, e, ainda assim, desde o primeiro ano, começar a se aproveitar das aliquotas sempre de 10%.

    Depende, evidentemente, da taxa de retiradas do leitor. Se por exemplo, ele apenas retira os rendimentos dos fundos de investimentos cada ano (deixando o saldo constante), ele poderia ter muitos anos na frente com aquela aliquota. Os outros variaveis seriam o volume e a sequencia de contribuiçoes ja efetuadas ao Plano.

    Toda seguradora disponibiliza tabelas detalhando os saldos em cada aliquota. No caso dos PGBL’s, Contribuiçoes e Rendimentos juntos (pois retiradas dos dois seriam tributados). No caso dos VGBL’s, apenas os Rendimentos (pois retiradas das Contribuiçoes nao sao tributadas).

    Tal estrategia tem mais flexibilidade com outras fontes de renda, especialmente nos anos iniciais de retiradas, quando os saldos sao sujeitos a varias aliquotas alem de 10%. Abraço!

    • MJC 25 de julho de 2019 at 6:33 #

      Boa!

      Pode continuar contribuindo até 2040. Em 2040, tira tudo exceto os últimos 10 anos. E aí a cada mês, tira o equivalente a um depósito (ou faz isso de ano em ano).

      A seguradora que invisto (Icatu) tem um extrato mostrando o IR que incide. Basta tirar o equivalente ao que ela mostra nos 10%.

      • Guilherme 28 de julho de 2019 at 8:54 #

        Isso mesmo, MJC!

        Realmente essa é a melhor saída.

        Abraços!

    • Guilherme 28 de julho de 2019 at 8:53 #

      Excelente explanação, Michael!

      Complementa de forma esplêndida o conteúdo do post, especialmente quando você aborda o sistema PEPS.

      Realmente, o ideal é não parar de contribuir, já que o sistema automaticamente calcula as retiradas em função da menor alíquota do IR.

      Abraços!

  5. Fábio 23 de julho de 2019 at 20:12 #

    Parabéns pelo excelente texto e pela sabedoria, Guilherme! Façamos do tempo o nosso maior aliado.

  6. Executivo Investidor 24 de julho de 2019 at 15:39 #

    Otimo texto e otima reflexao.
    Comecei a poupar ainda na faculdade e hoje, graças aos aportes constantes e ao efeito dos juros compostos ao longo do tempo, estou bem proximo de poder diminuir drasticamente o ritmo.
    Vamos usar o efeito tempo a nosso favor!

    Abs,
    http://www.executivoinvestidor.com

    • Guilherme 28 de julho de 2019 at 8:55 #

      Valeu, Executivo!

      E parabéns por ter começado bem cedo. A segurança e a estabilidade que isso dá são incomparáveis.

      Abraços

  7. O Frugalista 24 de julho de 2019 at 15:48 #

    Acredito que o saque dos valores do PGBL pode se dar de forma parcial, sempre após os 10 anos da aplicação. Então, em tese, a pessoa não precisa ficar 10 anos sem investir, basta resgatar os valores correspondentes às aplicações da década anterior.
    Abs.
    @ofrugalista

    • Guilherme 28 de julho de 2019 at 8:55 #

      Bem pensado, OF!

      Isso é uma maneira de continuar investindo, mas ao mesmo tempo sacando.

  8. Pequeno Investidor 27 de julho de 2019 at 14:58 #

    Excelente texto, Guilherme!

    Despertei para os estudos financeiros a 2 anos e agora cheguei aos 30. Confesso que, quanto mais leio sobre o assunto, mais dá medo de chegar na aposentadoria e não estar pronto

    parabéns pelo blog.

    P.I.

    • Guilherme 28 de julho de 2019 at 8:56 #

      Obrigado, PI!

      Daí a importância de sempre estar acumulando e investindo.

      Abraços!

  9. João Paulo 7 de agosto de 2019 at 22:22 #

    Excelente texto Guilherme. Caiu como uma luva para minha realidade. Tenho 37 anos, e neste ano fiz um PGBL visando apenas uma maior restituição do imposto de renda. Minha ideia seria sacar todo o montante aplicado, mesmo sabendo que teria 10% de IR sobre o valor guardado, após um pouco mais de 10 anos. A ideia seria reaplicar o valor em outro investimento, mas nos comentários vi que existem outras alternativas que não apenas o resgate total. Abraço.

    • Guilherme 11 de agosto de 2019 at 13:14 #

      Obrigado, João!

      Realmente, há várias alternativas sugeridas pelos leitores nos comentários que podem maximizar a estratégia para a aposentadoria.

      Abraços!!!

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