Se você gerenciar mal o seu dinheiro, ter mais dinheiro não vai resolver seus problemas

A blogosfera financeira é uma fonte inesgotável de aprendizado, inspiração e motivação, e frequentemente utilizo lições que aprendo em outros blogs para servirem de base para a publicação de textos aqui no site.

O texto de hoje vai nessa trilha, e tem como mote um excelente artigo que li no blog Finanças & Pensamentos, intitulado “40 lições sobre dinheiro aprendidas após 40 anos nesse mundo”, o qual, por sua vez, foi inspirado num texto do blog norte-americano Budgets Are Sexy.

Dentre as 40 lições aprendidas (que poderiam muito bem virar 40 posts), destaco a de número 6:

Se você gerenciar mal o seu dinheiro, ter mais dinheiro não vai resolver seus problemas – Muitas pessoas pensam que se tivessem mais dinheiro, seus problemas financeiros desapareceriam. Mas as pessoas que administram mal o seu dinheiro terão problemas financeiros, quer façam um pouco, quer façam muito. Concentre-se em administrar o dinheiro que possui e, quando conseguir mais, ficará melhor.

O problema não está no objeto, mas sim no sujeito

Ao ler essa lição, logo me veio à mente (a) as histórias dos “milionários de loterias” e (b) aqueles casos de pessoas que acham que aumentos de salário vão resolver seus problemas financeiros (que geralmente são empregados do setor privado e servidores públicos).

Vejamos os casos dos milionários de loterias retratados em matérias jornalísticas: nas raras vezes em que eles aparecem na mídia logo que ganham o prêmio, tratam de gastá-lo com tralhas e símbolos que denotam status: carros, roupas, relógios etc.

Porém, depois de alguns anos, quando a mesma mídia vai atrás de saber o que ocorreu com eles, o que se vê, na absoluta maioria dos casos, é que eles retornaram à “estaca zero”: gastam todo o dinheiro que ganharam, ficam sem nada, fazem dívidas, e passam a depender da ajuda de parentes, amigos e do Estado. Muitos morrem na miséria.

Outras pessoas, principalmente as da classe média que trabalham na condição de empregados e servidores públicos, acham que aumentos de salários vão resolver seus problemas – provavelmente porque já gastam tudo o que ganham.

Se o sujeito ganha R$ 5 mil, e gasta R$ 5 mil, é lógico que ele vai querer um aumento de salário, para R$ 7 mil. E não pensem que é para investir os R$ 2 mil de aumento, mas sim para aumentar os gastos de R$ 5 mil para R$ 7 mil – ou mais, todos os meses. Aí, depois que tem um aumento de salário, ele vai lutar para ter outro aumento de salário, tudo para justificar seu inflacionamento no estilo de vida.

O problema, como se percebe, não está em ter mais dinheiro, mas sim em ter mais inteligência financeira. Em outras palavras, educação financeira.

A importância do orçamento doméstico

Vamos a um exemplo prático que resume bem o significado do título desse post. Você pode gerenciar mal seu dinheiro, e ter mais dinheiro sem precisar recorrer a um pedido de aumento de salário. Como?

Fazendo um empréstimo consignado. Um CDC. Usando o limite do cheque especial. Você gerencia mal seu dinheiro, e, ao receber seu salário, faz um empréstimo e passa a ter mais R$ 2 mil na conta. Pergunto: isso vai resolver seu problema? Ter mais dinheiro (ainda que com dívidas) vai resolver seus problemas, se você continuar gerenciando mal o seu dinheiro?

A resposta, evidentemente, é “não”, porque o problema principal não está na falta de dinheiro, mas sim na falta de gerenciamento. Não é o dinheiro que é mal, mas sim o gerenciamento que é mal. Não se resolve falta de gerenciamento com suprimento de dinheiro, da mesma forma que não se resolve o problema do sobrepeso simplesmente comprando menos alimentos.

E isso nos leva a um ponto crucial, essencial para resolver os problemas em sua raiz: o que é, o que significa “gerenciar mal o dinheiro”?

Gerenciar mal o dinheiro é não controlar o orçamento doméstico. É não saber quanto entra e quanto sai de sua conta bancária. Gerenciar mal o seu dinheiro é deixar o dinheiro te controlar, em vez de você estar no controle do seu dinheiro.

Se você gerencia mal o seu dinheiro, você gasta mais do que ganha. E, nessas condições, ter mais dinheiro não vai resolver seus problemas, porque você dará um jeito de gastar esse dinheiro adicional e mais o dinheiro que não tem.

Você não irá mudar seus hábitos financeiros porque houve uma entrada adicional de dinheiro. Pelo contrário, essa entrada adicional de dinheiro apenas potencializará comportamentos que você já tinha anteriormente.

Veja, por exemplo, o caso dos acumuladores de riqueza, dos poupadores, daqueles que gerenciam bem seu dinheiro. Se você gerencia bem seu dinheiro, ter mais dinheiro apenas potencializará aquilo que você já vinha fazendo antes, ou seja, provocará um incremento ainda maior em seu processo de acúmulo de patrimônio.

Dito isso em outras palavras: se você gerencia bem seu dinheiro, ter mais dinheiro não significa apenas ficar cada vez mais afastado de problemas, mas também significa ficar cada vez mais próximo de soluções, de liberdade e paz financeiras. E quem não quer gerenciar bem seu dinheiro se os frutos que se consegue são esses?

Lembra daquele ditado: “os ricos ficam cada vez mais ricos, e os pobre cada vez mais pobres”? Pois é, uma das possíveis explicações para esse ditado ser verdadeiro não tem nada a ver com o dinheiro (a ferramenta, o objeto), mas sim com comportamentos financeiros e hábitos enraizados na mente das respectivas pessoas, ricos e pobres. Ou seja, tem tudo a ver com os sujeitos.

Se os ricos ficam cada vez mais ricos é porque eles adotam comportamentos que andam nessa direção, poupando, investindo e acumulando com sabedoria.

Se há, por outro lado, ricos que ficam pobres, como os milionários de loterias, algumas celebridades e inclusive jogadores de futebol famosos (por incrível que pareça!), a culpa não é do dinheiro, a culpa é dessas pessoas, é do comportamento deles, que decidiram gerenciar mal seu dinheiro, consumindo passivos e destruindo sua liberdade financeira.

Da mesma forma, se há pobres que ficam ricos, através do estudo, carreiras etc., não é porque maços de dinheiro foram andando sozinhos até a casa deles, mas sim porque eles estudaram, trabalharam e gastaram tempo na sua educação financeira, investindo, controlando o orçamento doméstico e fazendo sobrar dinheiro no final do mês, ao longo dos anos. Esse é o ponto.

Conclusão

É por isso que estudar finanças é tão importante: para você desenvolver habilidades mentais que o façam ser capaz de administrar qualquer quantia de dinheiro, seja ela pouca, seja ela muita.

E pode ter a certeza de que, se você administrar bem o pouco, esse pouco vai virar muito ao longo do tempo, pois você, além de estar desenvolvendo as habilidades mentais certas, estará tendo o aliado mais forte na construção da riqueza, que é o trabalho exercido pelos juros compostos.

Portanto, se você tiver enrascado com dívidas, tendo estresse com contas a pagar e o dinheiro anda curto, está mais do que na hora de aprender mais sobre investimentos e finanças pessoais, porque é precisamente isso que fará abrir horizontes para uma vida financeira mais tranquila e melhor organizada. Bora começar!? 😉

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22 Responses to Se você gerenciar mal o seu dinheiro, ter mais dinheiro não vai resolver seus problemas

  1. Finanças & Pensamentos 3 de dezembro de 2018 at 2:41 #

    Olá Guilherme! Fiquei honrado com a citação! Seu blog é um dos primeiros conteúdos que me despertaram para a educação financeira, juntamente com Rafael Seabra e Bastter há 4 anos atrás. Já aprendi demais por aqui nesse tempo, e toda segunda fico esperando artigo novo… As blogosferas financeiras brasileira e estrangeira são de grande valia para crescimento da educação financeira. Todos os dias somos bombardeados pela mídia com más informações e pelos bancos com péssimas recomendações sobre finanças e investimentos. É preciso desintoxicação com conteúdo de qualidade como o do Valores Reais! Grande abraço! http://www.financasepensamentos.blogspot.com

    • Guilherme 4 de dezembro de 2018 at 15:39 #

      Olá, FP, eu quem agradeço pelas palavras e por acompanhar o blog há tanto tempo!

      Você tem razão, a blogosfera financeira é um oásis para adquirir conhecimento de qualidade, e dentre os blogs participantes incluo o seu!

      Grato pelas palavras!

      Abraços!

  2. André 3 de dezembro de 2018 at 9:56 #

    Olá Guilherme! Excelente ensinamentos!

    Uma forma complementar de abordar a questão, que vc citou indiretamente mais ao final do texto, é considerar a dificuldade de conseguir o tal “dinheiro”.

    Se a gente o adquire através da conquista, ou seja, através do estudo, do trabalho e de nossas realizações, é mais fácil atribuirmos e ele o valor devido. Mais: como tudo isso leva um tempo, passamos inevitavelmente pela experiência em saber merecê-lo e multiplicá-lo.

    O que vem fácil, vai fácil, como vc citou no caso das loterias. As pessoas não passaram por essa travessia. E os resultados posteriores mostram que, com certeza, o problema é o sujeito, e não o objeto.

    Não conhecia o blog do Finanças e Pensamentos. Vou adicioná-lo no meu feed para receber as próximas atualizações.

    Abraço!

    • Guilherme 4 de dezembro de 2018 at 15:40 #

      Oi André, ponto muito bem observado: o que vem fácil, vai embora também fácil. A valorização faz as coisas mais bem apreciadas e preservadas sobretudo.

      O blog do FP é ótimo mesmo!

      Abraços!

  3. Marcelo 3 de dezembro de 2018 at 15:07 #

    quem não controla o pouco, não merece o muito. se não me engano está até na bíblia isso.
    então, antes de arrumar mais dinheiro, a pessoa precisa aprender a administrar o que já possui.

  4. Vania 3 de dezembro de 2018 at 18:07 #

    De fato, essa é uma regra de ouro.

  5. Antonio I Vending Machines 4 de dezembro de 2018 at 9:37 #

    Não poderia concordar mais. Isso vale para cada aspecto de nossa vida.
    Em negócios é a mesma coisa. Se algo não está funcionando, ao invés de olhar para fora e tentar culpar todos os fatores externos, olhe para dentro e questione-se o que você poderia ter feito (ou fazer) de diferente para alterar o resultado? É aí que a maioria das pessoas falha…..acham que a culpa é sempre de terceiros e acabam se acomodando.

    Ao invés de buscar aprender mais, pensar em soluções diferentes, elas se escondem atrás de desculpas…

    • Guilherme 4 de dezembro de 2018 at 16:55 #

      Isso mesmo, Antonio.

      Olhar para si é o mais importante nessas horas de auto-avaliação.

  6. Dinheiro Investimento e Lazer 4 de dezembro de 2018 at 16:53 #

    Concordo, saber administrar bem o dinheiro e investir é fundamental para ter sucesso na sua vida financeira!

    Abraço e bons investimentos.

  7. Simplicidade e Harmonia 5 de dezembro de 2018 at 9:05 #

    Guilherme,

    Seu post ficou ótimo para essa época do ano, na qual muitas pessoas gastam mais por impulso do que por necessidade.

    Precisamos fazer o melhor com o que temos, inclusive com o dinheiro. São comuns os casos de pessoas que ganharam grandes prêmios em loterias e que perderam tudo. É como você disse, o problema está no sujeito que possui o dinheiro e não no dinheiro em si.

    Boa semana!

    • Guilherme 7 de dezembro de 2018 at 15:23 #

      Bem lembrado, Rosana, numa época como essa, posts como esse ajudam as pessoas a desenvolverem melhor sua relação com o dinheiro.

      Abraços, e bom final de semana!

  8. Longe do Limite 5 de dezembro de 2018 at 9:13 #

    Mais um belo artigo, Guilherme. Parabéns!

    Acredito que a catarse de ganhar uma substancial quantia de dinheiro deixa as pessoas desnorteadas, fazendo-as acreditar que, agora, elas poderão ter/fazer tudo que se privaram na vida.

    E é esse imediatismo que ferra tudo.

    Os bens são limitados, ao contrário dos nossos desejos. Mas o conceito de escassez é desconhecido pela esmagadora maioria da população.

    Se alguém ainda duvida disso, sugiro que prestem muita atenção quando saírem reportagens acerca da mega da virada – em especial, na parte em que as pessoas contam ao(à) repórter o que fariam com o prêmio.

    Abraço!

    • Guilherme 7 de dezembro de 2018 at 15:25 #

      Obrigado, LL!

      Você abordou um ponto muito interessante: o imediatismo. As pessoas em geral têm muita dificuldade de pensar e agir visando o longo prazo.

      Essas entrevistas da Mega da Virada representam bem a média do pensamento da população sobre o dinheiro.

      Abraços!

  9. Henrí Galvão 5 de dezembro de 2018 at 14:43 #

    É um fenômeno bem comum de fato, e acho que tem tudo a ver com aquela ideia de termostato financeiro. Bem ou mal, todos temos um nível de renda com o quão estamos mais “confortáveis”, e um aumento substancial sem ao menos alguma deliberação a respeito só tende a deixar mais transparentes todas as distorções que uma pessoa pode ter quanto ao uso do dinheiro.

    Agora há pouco falávamos do podcast Radical Personal Finance. Pois ao ler esse seu artigo não tive como não lembrar do André Bona, que há poucos dias estava falando exatamente sobre isso no seu podcast/canal do YouTube.

    • Guilherme 7 de dezembro de 2018 at 15:26 #

      Verdade, Henrí!

      Gostei da comparação com o termostato financeiro. Tal qual com esses medidores, precisamos sempre estar vigilantes para controlar bem os gastos de dinheiro.

      Abraços!

      • Henrí Galvão 8 de dezembro de 2018 at 11:39 #

        É um conceito muito elegante de fato. Não sei quem foi o primeiro a usar essa expressa, mas acho que o cara que a popularizou de fato foi o T. Harv Eker em Os Segredos da Mente Milionária.

        • Guilherme 8 de dezembro de 2018 at 13:15 #

          Provavelmente, Henrí. Aliás, esse clássico do Eker, juntamente com um livro do Mauro Halfeld sobre investimentos, foram minhas portas de entrada para o mundo da educação financeira.

          Acho que comecei bem com o pé direito. 🙂

  10. Anônimo 8 de dezembro de 2018 at 16:47 #

    Mais uma ótima discussão sobre lidar com o dinheiro. Na minha repartição é comum colegas sempre reclamarem que o salário está pouco, más quase não ouço sobre maneiras de diminuir custos e aumentar renda sem ser o salário.

  11. Diário de um Poupador 11 de dezembro de 2018 at 0:22 #

    Guilherme, show de bola. Cada vez mais fica claro que controlar o orçamento, gerenciar o patrimônio, administrar as receitas, e manter as despesas sob controle é especial a qualquer pessoa que tenha o objetivo da independência financeira.

    Um grande abraço e fica com Deus.

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