Há coerência entre suas atitudes diárias e seus objetivos de longo prazo?

Aquilo que você faz hoje está de alguma forma facilitando o cumprimento de suas metas no futuro?

Se você quiser se tornar fluente em inglês, quantos minutos de inglês você estudou hoje para alcançar esse objetivo?

Se você quiser passar num concurso, quantos minutos você estudou hoje para realizar esse sonho?

Se você quiser largar de ser sedentário, quantos minutos você caminhou hoje para cumprir essa meta?

Se você quiser ter liberdade financeira, quantos minutos você gastou hoje estudando sobre investimentos ou pensando em meios de controlar melhor seu orçamento doméstico, tais como comprar coisas mais baratas ou ter evitado fazer compras desnecessárias?

O texto de hoje é um convite à reflexão: à reflexão sobre a importância de o presente caminhar de mãos dadas com o futuro.

Dizendo isso em outros termos: de nada adianta você ter objetivos e metas de longo prazo se no dia a dia você não faz absolutamente nada que o conduza até esses objetivos futuros. É preciso haver coerência de comportamentos, pois aquilo que você faz ou deixa de fazer hoje irá reverberar no seu futuro.

O presente anda de mãos dadas com o futuro, logo, tudo aquilo que você fizer hoje, e mais, tudo aquilo que você faz repetidamente no dia a dia, como um hábito, irá trazer consequências para o seu futuro.

Trazendo esses conceitos para o contexto financeiro, o recado aqui é muitos simples: a busca da liberdade financeira é absolutamente incompatível com o consumo irresponsável, que muitas vezes se confunde com o consumo no crediário, com o ato de fazer dívidas para comprar, em vez de fazer antes o patrimônio para só então gastar.

E por quê estou dizendo isso?

Sobretudo por causa do “timing”, conforme bem dito pela amiga Rosana em comentário ao artigo publicado na semana passada.

Novamente se aproximam as festas de final de ano, a Black Friday, o Natal, o Ano Novo, as confraternizações, as festas, as férias, e muitas pessoas já pensam em diversas maneiras de aumentar seu consumo.

Para pessoas que não têm o controle sobre seu orçamento doméstico, o último trimestre do ano, composto pelos meses de outubro, novembro e dezembro, costuma ser o trimestre campeão de gastos, por uma série de fatores que se acumulam nesse período: rendas salariais incrementadas pelo recebimento de décimo terceiro, bônus salarial, férias etc., dando a falsa impressão de que se pode gastar mais; as festas de final de ano, já mencionadas acima, que, por si sós, funcionam como gatilhos mentais para estimular as pessoas a gastarem mais; e, finalmente, o próprio ambiente em que você se encontra inserido, propício para te fazer comprar coisas e mais coisas. Nessa época do ano, mais do que em qualquer outra época, tudo conspira para você se tornar um escravo ainda maior das dívidas, do patrão e da necessidade de trabalho para bancar mais dívidas e mais gastos e mais consumo. Ufa!

Fuja da corrida dos ratos.

Se você pretende um dia viver com estabilidade e segurança financeiras, é preciso dar um basta a essa roda viva do consumo, é preciso dizer não às propagandas sedutoras pedindo para você comprar só mais uma coisinha, é preciso ter uma força mental interior suficientemente forte para fazer com que suas atitudes diárias nesses próximos 3 meses estejam sintonizadas com seus objetivos de longo prazo de construção de patrimônio e acúmulo de ativos, e não com objetivos de curto prazo de gastar, consumir e desperdiçar.

O endividamento só irá te afastar cada vez mais da tão sonhada liberdade financeira, e acredite, o que não vai faltar nos próximos meses é propaganda dizendo que você pode comprar agora e começar a pagar só em janeiro de 2019.

Promova um alinhamento de atitudes

Se um de seus objetivos é de ter uma vida financeira mais saudável, um dos melhores meios para alcançar tal objetivo é estabelecer uma coerência de comportamentos, que o faça agir no curto prazo da mesma forma que você agiria no longo prazo.

Vou recapitular a metáfora que eu trouxe no artigo da semana passada, a respeito da nutrição, pois ela facilita bastante o entendimento.

Pense numa pessoa que pesava 123 quilos, sedentária, fumante, com colesterol alto e probabilidade alta de ter diabetes, que consumia só porcaria, tomava 2 litros de Guaraná por dia, pulava o café da manhã, não se alimentava entre as refeições (por exemplo, entre almoço e jantar), e que, durante 8 meses, passe por uma “terapia de choque” na questão nutricional, e consiga, aliado aos exercícios físicos e corte do cigarro, ter o peso reduzido para 77 quilos, eliminando os riscos associados ao colesterol alto e à diabetes.

Será que, após 8 meses de hábitos alimentares devidamente internalizados em sua mente, ela vai conseguir voltar à “dieta do mal”, se alimentando de hamburgueres no almoço e na janta e tomando 2 litros de refrigerante por dia? Dificilmente.

E isso porque os bons hábitos alimentares decorrentes de uma autocontenção no consumo de alimentos, bem como os novos hábitos esportivos, produziram resultados tais que fica praticamente impossível voltar ao “antes”.

Com as finanças ocorre situação semelhante.

A partir do momento em que você passa a ter um forte e consistente controle orçamentário, passa a anotar suas despesas e a administrar os gastos em cada categoria de despesas, e, como efeito disso tudo, passa a sobrar dinheiro todo mês não só para investir mas também para gastar com mais qualidade, fica difícil voltar a ser indisciplinado e irresponsável novamente.

Se o que você quer para a sua vida é ter um controle dos gastos, e acha que uma ida ao shopping no final de semana para comprar um sapato de R$ 400 não irá atrapalhar esse objetivo de longo prazo, você está enganado(a), pois o nosso futuro é a soma dos pequenos atos que realizamos no dia a dia.

Logo logo você irá achar normal ir ao shopping no outro final de semana para comprar outro par, sob o argumento de que recebeu um dinheiro extra proveniente do décimo terceiro, e, além disso, faz o seguinte raciocínio: “que mal faz gastar R$ 400 se meu objetivo é ter, sei lá, um milhão de reais no futuro? R$ 400 perto de um milhão não é nada”.

O problema é que esse raciocínio está errado, pois é justamente o tipo de hábito mental que você incorpora no dia a dia que irá definir seus padrões de consumo e de poupança. O problema não está no preço, mas sim na repetição de comportamentos que esse tipo de raciocínio causa a médio e longo prazos.

Pessoas que dão o devido valor ao dinheiro e a objetivos como liberdade financeira, equilíbrio orçamentário e acúmulo de patrimônio levam a sério cada tipo de gasto, por mais irrelevante que possa parecer. Não se trata de uma atitude que leva à mesquinharia ou ao pão durismo, mas sim de um modelo mental de comportamento que faz a pessoa estabelecer uma coerência entre atitudes do cotidiano com seus objetivos de longo prazo.

Pessoas que buscam tais objetivos (liberdade financeira, equilíbrio orçamentário e acúmulo de patrimônio) consideram as atitudes tomadas no dia a dia como meios para facilitar (facilitar, e não dificultar) as conquistas das metas de longo prazo.

Pense no sujeito que vai abastecer no posto cuja gasolina está em promoção, com desconto de 20 centavos por litro; ou daquele que escolhe um banco onde não pague tarifas; ou ainda daquele outro que se contenta com um carro bem mais modesto do que poderia comprar, ou viva num imóvel bem mais simples do que aquele que poderia viver: atitudes como todas essas denotam a busca implacável do produto ou serviço em que o dinheiro gasto seja bem mais empregado. É claro que devemos focar nossas energias nos maiores gastos, mas isso não pode servir de desculpara para negligenciarmos nos gastos menores. É preciso equilíbrio e bom senso nessa área tão espinhosa das finanças pessoais.

Não é por outra razão que Thomas Stanley afirmou, em sua célebre pesquisa sobre os hábitos dos verdadeiros milionários americanos, que a frugalidade é a pedra de toque na construção da riqueza, e é a pedra angular porque esses prodigiosos acumuladores de riqueza estabeleceram há muito tempo uma completa e inigualável coerência entre suas atitudes no dia a dia e seus objetivos de longo prazo.

Conclusão

Muitas pessoas sabem que, para conseguir um trabalho melhor, precisam se qualificar profissionalmente: fazer cursos, fazer faculdades, estudar mais. Se você está nesse grupo que quer melhorar profissionalmente, você está estudando para tal objetivo?

Outras tantas sabem que precisam parar de fumar antes que um câncer tome conta do pulmão. Se você está nesse grupo, por qual motivo ainda não largou o cigarro?

Outros, ainda, sabem que sem uma reserva de emergências como escudo protetor em dias ruins, vão ter que continuar recorrendo ao cheque especial. E por que essas pessoas ainda insistem em gastar mais do que ganham, e insistem em não fazer um controle de gastos?

O artigo de hoje é um complemento ao artigo da semana passada, e procura, além disso, estabelecer pontes para o futuro.

Se você quiser dar mais harmonia à sua vida, é preciso que seus comportamentos diários reflitam suas aspirações quanto ao futuro. E isso significa, no contexto da busca de maior liberdade financeira, agir em conformidade com esses objetivos, mas agir em conformidade não lá na frente, porque pode ser tarde demais, mas sim agora, hoje, no dia a dia.

Pessoas que professam uma coisa (“economizar é importante”, “gastar menos do que ganha deve ser prioridade”), mas agem fazendo outra coisa (fazendo dívida no cartão, usando cheque especial etc.), não são apenas incoerentes: estão se auto sabotando.

E isso é péssimo e pode trazer danos irreversíveis para tais pessoas, já que elas estarão vivendo uma vida que não espelha seus (supostos) verdadeiros valores, trazendo confusão, estresse e problemas emocionais difíceis de serem resolvidos a curto prazo – e isso sem contar os problemas financeiros propriamente ditos.

Aja enquanto houver tempo disponível, e sempre mantenha uma postura de equilíbrio em suas finanças, a fim de que seu futuro financeiro seja construído em bases sólidas com atitudes que demonstrem educação financeira no dia a dia. 😉

Créditos da imagem: Free Digital Photos

 

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13 Responses to Há coerência entre suas atitudes diárias e seus objetivos de longo prazo?

  1. Simplicidade e Harmonia 22 de outubro de 2018 at 7:20 #

    Guilherme,

    “Fuja da corrida de ratos.”
    Gostei por ter abordado esse tema em seu post, pois às vezes os objetivos pessoais – até mesmo os de longo prazo – não são realmente nossos, mas fruto das propagandas sedutoras da atualidade. E nessa época de final de ano, a situação se intensifica. Por isso é muito importante sabermos quais são realmente nossos objetivos para nos dedicarmos à eles.

    Não precisamos de muitas coisas, mas sim distinguirmos o que é realmente importante e que nos auxiliará no desenvolvimento pessoal e profissional. Precisamos ir em busca do que no faz bem de verdade!

    Assim como um copo de água é formado por muitas gotas pequeninas que parecem insignificantes sozinhas, mas que forma o todo quando juntas, nossas atitudes diárias parecem não fazer muita diferença, mas no resultado final ocasionam um grande impacto – de forma positiva ou negativa.

    Agradeço pela citação!

    Boa semana,

    • Guilherme 25 de outubro de 2018 at 13:40 #

      Oi Rosana,

      Excelentes seus comentários.

      Destaco particularmente esse trecho:

      “Precisamos ir em busca do que no faz bem de verdade!”

      Esse é o grande desafio dos dias atuais, com tanta gente querendo fazer nossa cabeça!

      Abraços!

  2. Rafa 22 de outubro de 2018 at 9:14 #

    Excelente texto.
    Eu queria saber uma opinião sobre faculdade. É correto pensar em ter no futuro uma liberdade financeira, quando se precisa gastar com faculdade particular? Devo pensar que é sempre investimento ?

    • Welington 22 de outubro de 2018 at 9:51 #

      Com certeza, estudo é sempre um investimento, como você vai ter uma renda maior se não tiver uma formação (Claro que é possível, mas as chances estão contra você).

      E na minha opinião, ninguém vai conseguir a liberdade financeira guardando 100 reais por mês, por isso foque em primeiro se qualificar para ter uma renda maior e depois em investir.

    • Tiago Cruz 22 de outubro de 2018 at 9:57 #

      Uma vez um rapaz perguntou ao Bill Gates no AMA do Reddit: Bill Gates, eu ganho menos de US$ 100 mil por ano, no que deveria investir?
      Bill Gates respondeu: Educação.

      Se você investir em educaçao com afinco, se esforçar e estudar coisas ligadas ao progresso de sua carreira sempre terá retorno.

      Educação é sempre um investimento, mas tem trilhas educacionais que te levam mais rápido ao retorno financeiro.

      • Guilherme 25 de outubro de 2018 at 13:42 #

        Rafa, concordo com o que disseram o Welington e o Tiago Cruz.

        Estudar sempre aumenta suas chances de conseguir melhor situação financeira. Ele não garante melhoras, mas potencializa as chances de melhora.

        Além disso, o estudo é como um investimento de longo prazo: no curto prazo pode até parecer que não valeria a pena, mas os grandes resultados se verificam a longo prazo.

  3. André 22 de outubro de 2018 at 11:12 #

    Olá Guilherme!

    Quando me deparei com o título do seu post, lembrei daquela máxima massificada, mas muito verdadeira: “é absurdo esperar um futuro diferente fazendo as mesmas coisas no presente”.

    E a sequência da leitura encaixou-se plenamente na frase. As pessoas precisam entender o conceito real de frugalidade (assunto sobre o qual você já escreveu e está linkado no texto de hoje do blog) e como ele pode fornecer, no futuro, o maior bem que podemos buscar: a liberdade.

    Só com ela poderemos fazer o que gostamos e estar sempre com quem queremos. Pode parecer contraditório, mas os jovens, com todo esse tempo disponível, não sabem como o estão, aos poucos, perdendo.

    Abraço!

    • Paulo Lucas 24 de outubro de 2018 at 9:01 #

      Ótima colocação André. Ponderar as decisões financeiras contribui para um futuro sólido e pleno.

      • Guilherme 25 de outubro de 2018 at 13:43 #

        Excelente depoimento, André!

        Gostei muito do seu texto sobre os jovens. Acho que todos temos uma responsabilidade de alertar a essa nova geração da importância de agir de forma independente e com autonomia para condução de suas próprias vidas.

  4. Henrí Galvão 26 de outubro de 2018 at 15:10 #

    Ainda estou pra ver com calma o artigo da semana passada (em parte porque estou curtindo muito explorar a sua lista de resenhas e Top 50), mas o que você menciona aqui sobre os hábitos dos milionários de acordo com Thomas Stanley me lembrou de uma entrevista recente da Cristiana Correa pro podcast Nerdcast Empreendedor.

    No caso, ao falar das pessoas que ela estudou (Abilio Diniz, Jorge Paulo Lemann e por aí vai), ela falou algo muito interessante: “é gente que não engorda”. Justamente por serem pessoas que reconhecem o valor da disciplina e dessas pequenas escolhas diárias que fazem uma grande diferença no longo prazo (como a Rosana comentou acima).

    • Guilherme 27 de outubro de 2018 at 13:47 #

      Bem interessante esse detalhe, Henrí!

      Às vezes conseguimos aprender mais sobre os hábitos das pessoas reparando nesses pequenos detalhes.

      Há outra passagem do livro clássico do Stanley que achei fantástica, e pretendo usar como base para escrever um artigo no futuro. Tem tudo a ver com essa história de descobrir os “grandes resultados” através dos “pequenos hábitos”.

      • Henrí Galvão 27 de outubro de 2018 at 13:53 #

        Acho que é uma ótima ideia pra post!

        • Guilherme 28 de outubro de 2018 at 13:43 #

          Opa, valeu! Só pra adiantar um pouquinho: é uma saborosa história envolvendo um buffett servido a milionários de Nova York. O que eles decidiram comer tem tudo a ver com essa questão de como pequenos hábitos às vezes dizem muito sobre construção de riqueza, valores e foco.

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