De quanto em quanto tempo devo olhar o preço das ações que eu comprei? E dos meus demais investimentos?

Uma coisa comum – que na verdade é um erro – que costuma ocorrer entre os investidores iniciantes é o hábito vício de olharem todos os dias a cotação das ações que compraram.

Isso chega a ser até natural, por questões relacionadas à psicologia comportamental, tendo em vista que normalmente entramos no mercado de ações num ciclo de alta e, quando as ações que compramos vão se valorizando no decorrer dos dias e das semanas, fica aquela sensação de orgulho de achar que entrou no momento certo – tentativa de fazer timing de mercado – combinada com o sentimento de ganância, que leva os investidores iniciantes a quererem investir mais pelo simples fato da valorização contínua e crescente, que acredita que se perpetuará no tempo, num verdadeiro círculo vicioso que se retroalimenta.

O problema é que, junto com o orgulho e com a ganância, vem a ansiedade de querer saber, a cada dia, o valor de seus ativos, e, como o mercado é, por definição, um mercado de risco, essa ansiedade vem muitas vezes acompanhada do medo e do pânico, quando surgem oscilações mais fortes que fazem despencar os preços das ações, como ocorreram nos últimos 2 meses no Ibovespa, quando o Índice perdeu mais de 15%.

O resultado disso tudo é que, nos momentos de depressão dos mercados, o investidor que olha todos os dias os preços de suas ações tende a agir de forma precipitada: vendendo no pânico, para aliviar a dor de curto prazo de ver o preço das ações caindo dia após dia, quando seria hora justamente de comprar mais.

Isso ocorre porque olhar com muita frequência o preço das ações, principalmente quando as ações estão caindo, cria convicções, na mente do investidor, de que algo de errado está ocorrendo no mercado. E tais convicções são muito fortes para levar o investidor a fazer o movimento de venda, justamente na hora errada.

Todos esses movimentos erráticos no mercado de ações são acelerados e amplificados nos dias atuais, pois temos acesso instantâneo não só às informações sobre os preços das ações – basta uma Googlegada pra descobrir o preço de qualquer ativo -, mas também acesso fácil, barato e rápido às ferramentas que nos permitem agir de forma mais rápida possível – basta dizer que, hoje em dia, praticamente todas as grandes corretoras têm aplicativos de celular que permitem fazer operações de compra e venda de qualquer lugar do planeta, apenas com o uso do celular.

No entanto, ver ou querer saber as cotações das ações todos os dias é a pior coisa que um investidor de longo prazo em ações pode fazer, e isso por três motivos principais.

Os 3 motivos para não olhar todo dia o preço das ações

O primeiro motivo, já mencionado acima, está relacionado ao nosso viés psicológico, ou seja, tem a ver com o aumento dos níveis de ansiedade, estresse e tensão, que sobrecarregam os sistemas hormonais, psicológicos e emocionais do investidor, potencializando as chances de ele agir de forma equivocada, motivado pelas razões erradas, sobretudo quando ainda não possui educação financeira suficiente.

O segundo motivo consiste na assunção de uma posição de incoerência com uma estratégia de longo prazo nos investimentos. Ora, se você inicia seus investimentos na Bolsa de Valores porque deseja, dentre outros motivos, formar um patrimônio para bancar sua aposentadoria, por qual motivo você precisa saber, todos os dias, se as ações que você comprou fecharam em alta ou em baixa?

No curto prazo, a ocorrência de eventuais rentabilidades negativas é absolutamente natural. Faz parte do jogo. É impossível ver uma ação que só suba de preço todos os dias. Logo, ter a consciência de que se está investindo no longo prazo implica também a consciência de que oscilações negativas no curto prazo – e até no médio prazo – ocorrerão de forma peremptória.

Saber dos preços das ações todos os dias é tarefa talvez mais apropriada para os especuladores e para aqueles que vivem de fazer trades na Bolsa, que a têm como atividade principal, como os operadores do mercado financeiro.

Para você, a Bolsa de Valores funciona mais como um instrumento auxiliar para geração de renda e formação de patrimônio a longo prazo, logo, agir visando o curto prazo é incoerente com essa estratégia de investimentos.

Para receber as recompensas a longo prazo, é preciso aceitar as dores do curto prazo. E isso ocorre em muitas outras áreas da vida. Para ganhar uma corrida, é preciso suportar as dores do treino. Para passar numa prova, é necessário aguentar as dificuldades impostas por ficar longas horas estudando e abdicando de atividades de lazer. Com as ações não poderia ser diferente.

Finalmente, o terceiro motivo tem um viés biológico, que deita raízes nos mecanismos de funcionamento do cérebro humano.

É que sobrecargas de informação, como o acúmulo exagerado de dados irrelevantes sobre os preços das ações, que sofrem ininterruptas oscilações em todos os dias em que a Bolsa opera, causam o enfraquecimento de nossos circuitos mentais responsáveis pela produção de pensamentos críticos, profundos e reflexivos, bem como à constituição e fortalecimento das nossas memórias.

Que relevância terá, por exemplo, para 2040 (ano de sua aposentadoria), se ontem, hipoteticamente, o ETF BOVA11 fechou a R$ 68,77, e hoje fechou a R$ 69,71, e há 3 meses estava em R$ 75,42? Esses números dizem alguma coisa para o longo prazo?

A única coisa que te interessa, no curto prazo, não é memorizar números de cotações que se alteram milhares de vezes ao longo de um único pregão, mas sim se você está tendo a disciplina de fazer aportes todos os meses e – é claro – estudando todos os meses para melhorar seu cabedal intelectual nas finanças pessoais.

Excesso de informações mais atrapalha do que ajuda. O problema é que o mundo parece conspirar contra a concentração naquilo que é importante.

É como se você tivesse que se concentrar na leitura de um texto de 3 mil palavras escrito numa página de Internet cheia de links, menus, submenus, vídeos, imagens, infográficos, janelas popups, e animações em nada relacionadas ao texto principal. A dificuldade de concentração é enorme, e aumenta na mesma proporção em que mais dados irrelevantes entram no processamento visual e mental de seu cérebro.

E qual é a melhor maneira de evitar que o excesso de informações te atrapalhe?

Não entrando nesse jogo. O que, no caso do conteúdo desse artigo, implica em não ficar olhando os preços das ações todo santo dia.

O horizonte temporal ideal

Dessa forma, conhecidos os malefícios que a frequência diária de visualização dos preços das ações causam sobre o comportamento, o cérebro e as estratégias de investimento do investidor, a pergunta que logicamente surge disso tudo é: qual é o horizonte temporal ideal para acompanhar o valor dos ativos?

Baseado em minha própria experiência pessoal com análise de investimentos, bem como no conhecimento transmitido por outros educadores financeiros e especialistas da área de finanças pessoais, tenho que o horizonte mensal deve ser a meta buscada pelo investidor.

Ou seja, acompanhar a variação das ações preferencialmente quando se fecha o mês parece ser o meio termo ideal para o acompanhamento da evolução dos investimentos, não só do mercado de ações, mas também de outros ativos, tais como fundos imobiliários, fundos multimercado, renda fixa, títulos do Tesouro Direto etc.

Isso se deve ao fato de que um prazo de 30 dias de intervalo permite uma análise mais racional e mais objetiva sobre o desempenho dos ativos, do que aquela análise realizada diariamente. Além disso, tal prazo também não é demasiadamente longo, como um acompanhamento trimestral ou anual, que dificultaria tomadas de decisão e ajustes que podem se fazer necessários no meio do caminho.

Tal horizonte de prazo não impede, contudo, eventuais análises semanais dos investimentos, ou mesmo análises em intervalos menores de tempo, sobretudo quando o mercado passa por turbulências que causem grande volatilidade nos preços dos ativos, abrindo boas janelas de compras a preços mais baixos.

Isso porque notícias de quedas vertiginosas na Bolsa invariavelmente acabam chegando até você, quer você queira, quer não.

E posso dar meu testemunho pessoal nesse caso: embora faça muito tempo que eu deixei de acompanhar diariamente o mercado – pelos 3 motivos enumerados acima – eu sempre fiquei sabendo, por exemplo, de todos os circuit breakers que ocorreram na Bolsa nos últimos 10 anos, porque aquilo que destoa da normalidade acaba chegando até nós de uma maneira ou de outra: é alguém noticiando no Twitter, WhatsApp ou outra rede social, ou é algum amigo/colega que avisa por email, ou comentando numa conversa informal etc.

Ou seja, mesmo que você tenha optado, por vontade própria, por uma dieta restrita de informação, a informação – daquilo que chama a atenção de todos – acaba chegando até você. Não há que se preocupar quanto a isso.

Nesses momentos, aliás, é que o investidor também deve ter uma reserva de oportunidades (que pode inclusive coincidir com a reserva de emergência), isto é, um dinheiro alocado num investimento de alta liquidez, para aproveitar as oportunidades de compras que se abrem de tempos em tempos.

Mas, tirando essas exceções pontuais, considero que um espaçamento de 30 dias para olhar a variação e o desempenho dos ativos é uma boa medida, para a maioria dos investidores.

Conclusão

Apesar de parecer impossível, à primeira vista, deixar de olhar os preços das ações (ou de outros ativos) todos os dias, isso é plenamente factível na prática, desde que o exercício de virtudes como a paciência e a calma seja cultivados pelo investidor, de forma diuturna, constante e disciplinada.

Acompanhar o desempenho dos ativos em horizontes temporais mais largos, como a cada semana ou, preferencialmente, a cada mês, permite também mais espaço para que as próprias ações absorvam os acontecimentos de curto e curtíssimo prazo, que geralmente causam distorções irreais nos preços, e esses, por sua vez, voltem a espelhar os seus respectivos fundamentos.

No longo prazo, em matéria de ações, os fundamentos sempre vencem. Uma empresa boa – ou conjunto de empresas boas – com lucros líquidos consistentes, resultados em franca expansão, e baixos níveis de endividamento, fatalmente refletirá nos preços das ações o valor gerado pelos resultados positivos – sendo o inverso (empresas ruins refletindo-se na queda das ações) também verdadeiro.

A questão é que nós, seres humanos e investidores, somos altamente vulneráveis a sermos explorados em nossas emoções por eventos de curto prazo que, muitas vezes, nada tem a ver com os fundamentos das empresas.

Nesse contexto, faz todo sentido adotarmos comportamentos que evitem que caiamos nessa armadilha de curto prazo, pois isso aumentará a probabilidade de não tomarmos decisões motivadas pelos motivos errados.

Por tudo isso, cultivar a paciência, a disciplina e o controle emocional são ingredientes fundamentais para ter sucesso no mercado de ações, e uma das chaves para conseguir isso é domar nossos instintos mais primitivos de querermos saciar nossa sede por novidades instantâneas, querendo saber se as ações fecharam hoje em alta ou em baixa.

Adotar horizontes temporais mais espaçados para o acompanhamento não só das ações, mas da carteira de investimentos como um todo, se insere, nesse contexto, como uma medida altamente recomendável para que o uso do tempo seja bem empregado, e que consigamos fazer as reflexões e pensamentos críticos necessários para ajustar os investimentos dentro de uma estratégia de longo prazo. 😉

Tenham todos uma boa semana!

Créditos da imagem: Free Digital Photos

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16 Responses to De quanto em quanto tempo devo olhar o preço das ações que eu comprei? E dos meus demais investimentos?

  1. Simplicidade e Harmonia 2 de julho de 2018 at 9:24 #

    Guilherme,

    Seu post foi muito apropriado para o momento, em que as oscilações estão bem intensas.

    “Excesso de informações mais atrapalha do que ajuda. O problema é que o mundo parece conspirar contra a concentração naquilo que é importante.”
    Gostei da sua frase.
    O excesso de informações acaba prejudicando a tomada de decisão. E muito. Também considero mais adequado olhar os preços 1 vez a cada 15 ou 30 dias. O que importa mesmo são os fundamentos da empresa, que naturalmente proporcionará a valorização em longo prazo.

    Uma dúvida: nos últimos meses você tem feito download de fotos do Free Digital Photos? Não estou mais conseguindo devido a expiração do captcha…

    Boa semana!

    • Guilherme 3 de julho de 2018 at 16:22 #

      Oi Rosana, verdade, o que importa são os fundamentos.

      Quanto ao Free Digital Photos, realmente, estou também com problemas na hora de baixar novas imagens.

      O que tenho feito é usar imagens que eu já havia usado em artigos passados.

      Abraços!

  2. ANDRE R AZEVEDO 2 de julho de 2018 at 15:13 #

    Olá Guilherme!

    Bons conselhos! Em geral, esse lance de ficar vendo toda a hora os preços nos induzem a fazer bobagens mesmo…

    Eu costumo, após análises de empresas e FIIs, colocar alertas de preços para tomadas de decisão. A Socopa envia para meu email, o que permite que vc não precise ficar no HB ou checando toda hora os valores. É importante aqui, entretanto, atualizar sempre essa “tabela de alertas”, pois a cada dividendo pago o alerta se vai (ao menos a Socopa avisa isso). FIIs então, o negócio é mensal rsrs.

    Mas confesso que, estando em casa, a gente acaba dando uma olhadinha nele, não tem jeito… Sabe aquela história: “será que não estou perdendo alguma boa oportunidade que não coloquei nos alertas?”.

    No fundo, no fundo, a periodicidade de checar os preços vai muito de sua estratégia. Para os BH, de fato, faz sentido checar apenas mensalmente. Mas confesso que nem nas minhas férias consigo ficar tanto tempo longe hehe.

    Abraço!

    • Guilherme 3 de julho de 2018 at 16:24 #

      Oi André, é verdade, para quem tem muitos anos de experiência no home broker, é difícil deixar de passar pra ver a cotação de algum ativo.

      Gostei do seu depoimento, bem como o serviço de alertas da corretora, que não deixa de ser uma forma de otimizar o tempo.

      Abraços!

    • MOISES MARTINS DE MIRANDA JUNIOR 16 de agosto de 2018 at 8:22 #

      Muito bom o seu texto, Guilherme!

      Quando o “Investidor” fica vidrado em rentabilidade, geralmente ele compra caro e vende barato.

      Por isso tem muita gente fazendo trade em fundos Multimercados e também em fundos de Ações.

      Sobe, compra e o gestor é o cara!
      Cai, vende e o gestor desandou nas avaliações.

      Mas posso te falar uma coisa? o mais difícil é estar num CDB com resgate automático com 100% do CDI numa época de selix a um dígito “somente” e não querer comprar aquela ação “quente” que pagou muitos dividendos — mais de 10% de yield — no ano passado (em dez anos pagou muito somente no último) e aí o boi foi com a corda, como diria aqui em Goiás.

      Ah, acredito que o André aqui autor de um blog, se for o acompanho bastante.

      • Guilherme 16 de agosto de 2018 at 15:54 #

        Verdade, Moisés, o mais difícil para o investidor é segurar a parte emocional.

        A visão de curto prazo de maneira excessivamente predominante também prejudica a muitos pequenos investidores na correta análise de seus investimentos.

        Abraços!

  3. Daniel 3 de julho de 2018 at 7:25 #

    Parabéns pelo artigo.

  4. Isabela 3 de julho de 2018 at 10:26 #

    Guilherme, desculpe… mas você já havia publicado este artigo. Me lembro que até comentei…

  5. MARCOS ARCANJO AGOSTINHO 3 de julho de 2018 at 13:07 #

    Boa sugestão.

    Tentarei adotar.

  6. Guilherme 4 de julho de 2018 at 17:02 #

    concordo que não se deve olhar toda hora, se a visão é de longo prazo..
    mas tb é complicado isso, de “caiu compra mais”
    lembro-me há 10 anos atrás as recomendações do ibovespa, que focavam sempre nas blue chips (como BB, itau, petro, vale, gerdau, usiminas)

    todas elas, ou estão abaixo do q valiam 10 anos atrás ou estagnadas…
    aí eu penso… como encontrar o equilíbrio de olhar toda hora e olhar se não tem alguma decisão errada, pra sair dela enquanto não aumenta mais o prejuízo?

    • Guilherme 5 de julho de 2018 at 6:59 #

      Guilherme, dois são os fatores-chave que respondem sua pergunta: alocação de ativos e diversificação (ETFs).

      Ou seja, o equilíbrio se encontra em, no monitoramento mensal, verificar os percentuais alocados em cada classe de ativos: ações, renda fixa, fundos imobiliários etc., a fim de checar se houve, em função do desempenho passado, alterações significativas a ponto de sugerir um rebalanceamento das proporções.

      Por exemplo, se sua carteira tem uma meta de alocação de 20% em ações e, no desempenho do mês, elas caíram para 15%, a sugestão é comprar uma quantidade tal de ações que recomponha os 20% originais.

      E como fazer isso de modo a não tomar decisões erradas, que aumentem ainda mais o prejuízo, como você questionou?

      Resposta: ETFs. Comprando ETFs, preferencialmente BOVA11 ou PIBB11 ou ainda IVBB11 (ações americanas), as chances de ter prejuízos diminuem consideravelmente, já que você estará comprando uma cesta de ações bem diversificada, e não ações individuais.

      No exemplo citado por você, quem tivesse comprado, há 10 anos, o PIBB11 (pois o BOVA11 ainda não existia), não teve essa preocupação de ter perdas com o valor estagnado das ações componentes da carteira, pois elas foram sendo naturalmente substituídas por ações de empresas que cresceram no Índice, de lá pra cá, como Itaú, Ambev etc.

      Então, resumindo: alocação de ativos e diversificação são os caminhos naturais para conseguir gerenciar bem um portfólio de ativos.

      Abraços!

      • Pedro 8 de julho de 2018 at 9:53 #

        Discordo,

        Por dois motivos:

        – ETF replica indice e índice nao serve pra nada… Estude, escolha boas empresas e acompanhe as mesmas… Deixou de ser empresa boa, vende, simples assim.

        – ETF paga imposto de renda…

        Recomendo a ambos os Guilhermes acompanhar o Bastter.

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