Por que a rentabilidade dos meus investimentos no Tesouro Direto está negativa?

Uma dúvida que ocorre a muitos leitores iniciantes no mundo dos investimentos é aquela referente à rentabilidade negativa do Tesouro Direto.

Afinal, como ele é aclamado pela quase unanimidade dos educadores financeiros como um dos investimentos mais confiáveis e principalmente mais seguros do mercado brasileiro, por quê então há momentos, como os que estamos vivendo atualmente, em que a rentabilidade dos títulos públicos fica no campo negativo?

Nos comentários ao artigo publicado na semana passada, a leitora Manoela Ferraz suscitou exatamente esse tipo de questionamento:

“Tenho um Tesouro IPCA 2024 em que só tenho perdido dinheiro. Sei que a recomendação é manter até o final do prazo.

Mas há chances de, pelo menos, recuperar o investimento?

E, sendo otimista, posso ter algum lucro? O que faço?

Obrigada.”

A dúvida é pertinente. Vejam o que ocorreu com a rentabilidade bruta acumulada pelos títulos públicos, negociados no Tesouro Direto, nos últimos 30 dias:

Todos os títulos atrelados à inflação estavam com rentabilidade negativa nos últimos 30 dias. E, dos títulos prefixados, só o Tesouro Prefixado 2019 estava no campo positivo.

Assim, em função da relevância da pergunta – afinal, faz todo sentido querer saber se não haveria uma incoerência entre a segurança prometida pelos títulos públicos, e a rentabilidade negativa apresentada concretamente – é que resolvi ampliar o espectro de discussões, na forma de um artigo, para que mais leitores saibam o que está ocorrendo, e, assim, fiquem tranquilos em relação aos seus extratos do Tesouro Direto, de forma a não agir de forma precipitada.

Por quê os títulos “dão prejuízo”? As expectativas do mercado em relação à taxa SELIC

Basicamente, os títulos públicos – Tesouro Prefixado e Tesouro IPCA+ – sofreram uma rentabilidade negativa acentuada nos últimos dias por conta da “marcação a mercado”.

Ou seja, como eles são negociados diariamente no mercado financeiro, as variações dos preços deles oscilam em função das expectativas, dos agentes financeiros, de aumento ou de redução da taxa SELIC.

Quando o mercado, ou seja, os investidores coletivamente considerados, creem que a taxa básica de juros – a taxa SELIC – irá subir (ou reduzir o ritmo de queda), a rentabilidade do Tesouro Prefixado e Tesouro IPCA+ tende a cair.

Por outro lado, quando o mercado faz apostas na queda da taxa SELIC, esses mesmos títulos tendem a aumentar a rentabilidade nas negociações diárias de mercado.

O que vivemos em maio foi a primeira das duas situações descritas acima.

Ou seja, o mercado acreditou que a taxa SELIC não iria mais cair além do patamar dos atuais 6,5% a.a., em função de uma sucessão de fatos que todos sabemos.

Num primeiro momento, a comunicação errada do Banco Central em relação à taxa SELIC (que fez o mercado acreditar que a SELIC poderia parar de cair, e, inclusive, iniciar um novo ciclo de alta); aliada, num segundo momento, à paralisação dos caminhoneiros, que fez o mercado acreditar que a inflação poderá subir, ao menos no curto prazo, fazendo com que o mercado também acreditasse, por tabela, que a SELIC poderia subir, para conter eventual pressão inflacionária.

Toda essa combinação explosiva de fatores fez de maio um mês muito ruim para os títulos públicos que oscilam ao sabor das expectativas de mercado, que são justamente o Tesouro Prefixado e o Tesouro IPCA, o qual abrange, por óbvio, o Tesouro IPCA+ 2024, título no qual a leitora Manoela fez o investimento.

O que fazer, então?

Simples: manter o título até o vencimento, porque essa é a garantia de que você terá rentabilidade líquida positiva do investimento, nos exatos termos contratados quando do momento do aporte.

Por exemplo, se você investiu cerca de R$ 1.000,00 no Tesouro IPCA+ em janeiro, cujo título prometia pagar, no vencimento, inflação + 5% a.a, e, olhando seu extrato do Tesouro Direto na semana passada, verificou que o investimento está com saldo acumulado de R$ 900, este valor apenas reflete o saldo que você teria ao resgatar o investimento na semana passada.

Mantendo o título até o vencimento, você garantirá exatamente a rentabilidade contratada no momento do aporte. Por exemplo, se, no vencimento, a rentabilidade acumulada total (inflação do período + 5% a.a.), tiver sido de 100%, você receberá algo em torno de R$ 2 mil brutos, mesmo que o mês de vencimento do título, lá no futuro, seja parecido com o que tivemos em maio.

Programe seus investimentos de acordo com os prazos de seus objetivos não financeiros

A lição que fica disso tudo é: como você não pretende especular com o Tesouro Direto, mas sim utilizá-lo para a realização de objetivos adequados a cada momento de sua vida, o ideal é programar os investimentos no Tesouro Direto para que os resgates só ocorram na data de vencimento dos títulos.

Assim, por exemplo, se você pretende, com o Tesouro Direto, garantir o poder de compra do dinheiro para adquirir um veículo daqui a seis anos, o ideal é fazer aportes (únicos ou periódicos) no Tesouro IPCA 2024, e só resgatar o dinheiro quando, efetivamente, for comprar o veículo, o que, de acordo com seu plano de investimentos, estava previsto para ocorrer exatamente no momento do resgate programado do investimento: ano de 2024.

Por outro lado, para objetivos de curto prazo (compra de presentes no final do ano ou pagar o seguro do veículo, por exemplo), ou para aqueles nos quais você não tem, no curto prazo, uma data certa para realizar resgates, a alternativa mais indicada é o Tesouro SELIC, título que não está sujeito às variações dos humores do mercado.

Conclusão

Não realize o prejuízo. As rentabilidades negativas que alguns dos títulos do Tesouro Direto eventualmente apresentam são absolutamente temporárias e excepcionais.

Mantendo o título até a data de vencimento, você terá a certeza de que conseguirá rentabilidade positiva para o seu investimento em títulos públicos.

É preciso manter a calma e o sangue frio, nos momentos de pânico do mercado, e saber conduzir seus investimentos de acordo com seus objetivos, e não ao sabor das emoções do momento.

Contudo, mais importante do que aguentar a “pressão psicológica” de ver extratos negativos no Tesouro Direto é ter objetivos bem definidos com esse investimento, sempre procurando “casar” o prazo do papel com o prazo de seus investimentos.

Dessa forma, você não precisará ficar esquentando a cabeça em momentos de volatilidade do mercado, como os que estamos vivenciando.

Disciplina, estratégia, planejamento e foco, portanto, são ingredientes fundamentais para ter sucesso nos investimentos no Tesouro Direto. Aliás, são ingredientes fundamentais também em quaisquer outros investimentos. 😉

Boa semana a todos!

 

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26 Responses to Por que a rentabilidade dos meus investimentos no Tesouro Direto está negativa?

  1. Simplicidade e Harmonia 4 de junho de 2018 at 6:54 #

    Guilherme,

    Gostei da sua explicação, muito apropriada para quem está iniciando.
    Uma pena não haver mais disponibilidade para compra do Tesouro IGPM…

    Boa semana. 🙂

    • Guilherme 6 de junho de 2018 at 13:34 #

      Obrigado, Rosana!

      Realmente, uma pena não disponibilizarem mais o Tesouro IGPM.

      Abraços, e boa semana também!

  2. SwineOne 4 de junho de 2018 at 8:55 #

    Ou, colocando de uma forma alternativa: o título está barato, e seria possível pensar em comprar mais. Isso se reflete no fato que as taxas de juros estão mais altas do que as acordadas no momento que você comprou os títulos lá atrás. Outra interpretação, mais desalentadora, é que você comprou caro: pegou esses títulos num momento em que os juros estavam muito baixos. Quando lançados, os títulos atrelados ao IPCA são vendidos com juros de 6% a.a. + inflação. Dado que eles continuam abaixo desse patamar, e que você comprou mais caro do que agora, significa que você comprou com juros ainda menores do que as atuais, provavelmente menos de 5%, o que pode ser considerado um tanto caro. É o tipo de coisa que a gente só aprende com a experiência. Muita gente faz a festa comprando a 7%, 8% em períodos turbulentos.

    A pergunta é: os juros vão subir mais? Se sim, é bom não comprar agora e esperar que subam. Pessoalmente, acho que as taxas estão baixas ainda, considerando a bagunça que as coisas estão, especialmente com a eleição chegando e ainda indefinida. Eu mesmo estou deixando uma alocação grande no Tesouro SELIC, esperando um bom ponto de entrada (idealmente chegando aos 7% ou 8% que falei acima), o que na minha opinião tem boas chances de acontecer ainda este ano, em algum momento antes da eleição. Aliás, com a greve dos caminhoneiros, não me assustaria se já conseguíssemos taxas acima de 6% neste mês.

    • Guilherme 6 de junho de 2018 at 13:36 #

      Excelente observação, Swine.

      Em momentos de crise, as ótimas oportunidades também surgem no Tesouro Direto.

      Em janeiro de 2016 o Tesouro IPCA estava pagando 7,82% a.a. na parte prefixada. Uma excelente taxa!

  3. Guilherme 4 de junho de 2018 at 9:23 #

    Muito importante esta informação para os iniciantes, já que a maioria não lê a primeira informação quando se acessa a página do tesouro que a rentabilidade pactuada na compra sempre é respeitada, e muito menos procuram entender o que é, de verdade, marcação a mercado. A verdade que pelo menos 90% do público de educação financeira é preguiçoso e quer saber “onde consigo a melhor rentabilidade” em vez de “qual investimento é o mais adequado para mim”. No mais, parabéns pelo bom trabalho e continue assim, xará.

    • Guilherme 6 de junho de 2018 at 13:36 #

      Faço minhas suas palavras, xará!

      Abraços!

  4. Paulo 4 de junho de 2018 at 11:29 #

    Comprei pré-fixado 2029 com juros semestrais… sem medo de ser feliz…. comprei quando a taxa estava beirando 10%… acho esse papel com risco extremamente baixo, pois paga juros semestrais… não precisa esperar o final para já usufruir do rendimento. se tivesse mais dinheiro compraria mais dele agora que está pagando 11,30%.

    • Guilherme 6 de junho de 2018 at 13:38 #

      Verdade, Paulo, e lembrando que esses quase 10% a.a. fazem o capital praticamente dobrar (pré-impostos) em menos de 8 anos, considerando a regra matemática do 72.

      Abraços!

  5. Adri 4 de junho de 2018 at 11:34 #

    Comprei pré 2023 a 10,1% aa inicio de 2017 com a selic em queda. É um titulo de mais risco, pois se selic subir mais que 10% próximos anos, se manter até vcto deixo de ganhar frente a outros invest., e vender é prejuízo com a MaM.
    Acho tit. públicos só bons para ganhar com a MaM ou os protegidos da inflação.
    Mesmo para liquidez imediata existem cdb a 100% cdi e sem a taxa de custodia dos títulos selic do TD.
    E aplicação em pré só farei com prazo maximo 2 anos. Nosso mercado financeiro é muito volátil por causa do ambiente politico e social.

    • Guilherme 6 de junho de 2018 at 13:40 #

      Pois é, Adri, cada investimento é mais adequado a depender do tipo de estratégia que se usa.

      Em momentos de ciclo de quedas na SELIC, a aposta nos prefixados tendem a render mais que o valor nominal embutido, justamente por conta da marcação a mercado.

      Enfim, é preciso ter um bom plano, e executá-lo à risca.

      Abraços!

  6. ANDRE R AZEVEDO 4 de junho de 2018 at 16:00 #

    Guilherme, essa, de fato, deve ser uma das maiores dúvidas do investidor em renda fixa, que espera um retorno lento e constante, mas sem sustos, mas não sabe diferenciar bem os produtos dessa seara.

    Eu aprendi sobre a marcação à mercado no susto, em 2002, no final do governo FHC. Naquela época, eu só coloca o excedente em fundos bancários, e não sabia exatamente onde eles aplicavam. Ainda tinha muito o que aprender.

    E de repente, pelo que me lembro, o FHC baixou uma lei, decreto, sei lá o quê, onde os fundos tinham que fazer um ajuste imediato e eu lembro que meus investimentos tiveram os saldos diminuídos. Fiquei muito revoltado com essa história rsrs.

    Abraço!

    • Guilherme 6 de junho de 2018 at 13:41 #

      Verdade, André, vivendo e aprendendo!

      Bem bacana a sua história na época do começo dos ano 2000, deve ter revoltado muita gente essa situação toda…..rsrs

      Abraços!

  7. Rafa 4 de junho de 2018 at 19:07 #

    Obrigado pelo texto. Eu até entendo de títulos mas teve custo.

  8. Armando 4 de junho de 2018 at 19:14 #

    Manter as coisas simples é importante. Tem lugar que ensina a fazer trading com TD, aquela conta complicada usando indexador. Eu nem olho. Sigo até o vencimento, afinal um tempo atrás TD estava com taxas obcenas de tão boas.

    • Guilherme 6 de junho de 2018 at 13:42 #

      Concordo, Armando, o ideal é manter o título até o vencimento.

  9. Adriana 7 de junho de 2018 at 11:25 #

    Eu vejo tesouro IPCA também como uma excelente forma de diversificar um pouco, pois grande partes de CDBs e outros investimentos em renda fixa são atrelados ao CDI, assim, ter alguns papéis de longo prazo atrelados ao IPCA dá uma tranquilidade de saber que, pelo menos, se está ganhando da inflação. Queria que tivesse papéis com mais prazos disponíveis, por exemplo, algo entre 2024 e 2035…

    • Guilherme 7 de junho de 2018 at 13:57 #

      Concordo, Adriana, são sem dúvida uma excelente maneira de diversificar a carteira de investimentos.

      Quanto aos vencimentos dos papéis, periodicamente o Tesouro Nacional oferta novos títulos, com prazos “intermediários” suprindo as lacunas anteriores.

  10. Bruno 8 de junho de 2018 at 17:36 #

    Comprei títulos IPCA 2035 e 2045 ambos estão negativos… pelo visto vão ficar em 2018.. o que podemos esperar nos anos futuros ?

    • Guilherme 10 de junho de 2018 at 7:44 #

      A rentabilidade negativa se deve à marcação a mercado de tais títulos. Mantendo o título até o vencimento você terá exatamente a rentabilidade contratada.

  11. Nanna 12 de junho de 2018 at 11:48 #

    Olá Guilherme! Adoro o blog e acompanho a bastante tempo. Qual título do tesouro você indicaria a compra hoje com o objetivo de resgate em um ano ou dois?

    • Guilherme 13 de junho de 2018 at 8:10 #

      Oi Nanna, obrigado pelas palavras!

      Quanto à sua dúvida, o investimento tem prazo “marcado pra morrer”. Dessa forma, o Tesouro SELIC seria a opção mais indicada, por ser mais conservador, e não estar sujeito às oscilações do mercado.

  12. Henry 16 de julho de 2018 at 12:43 #

    Ótima explicação..
    Parabéns…

  13. Eliete 16 de julho de 2018 at 13:55 #

    Olá! Excelente explicação.Fiz meus primeiros investimentos hoje, estava receosa, porque só conhecia a poupança com o fim de “guardar uma grana”.Estou amando estas novas possibilidades! Pena que Enem todo mundo sabe disso!!! Obrigada!bjs

  14. Beatriz Felix 3 de agosto de 2018 at 18:39 #

    Achei seu texto fazendo uma rápida busca e esclareceu todas as minhas dúvidas. Obrigada e parabéns 🙂

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