Tesouro Direto: LTNs a 12% a.a. e NTN-Bs a 6% a.a. + IPCA. Comprar ou não comprar?

O leitor Davi enviou o seguinte questionamento, na semana passada:

“Guilherme,

Uma dúvida/sugestão de post (se interessar): até onde vai parar a subida do Tesouro Direto? Será que o prefixado (NTNF 2023) vai para 13% a.a. (agora está em 12,61%)? Será que o pós-fixado (NTNB 2050) chega em 7% a.a. + IPCA?

Estou numa aflição danada, rsrsrs. Se compro, tenho a sensação de perder dinheiro com a próxima subida. Se deixo… pode ser que a oportunidade tenha passado.

Outra situação: Se compro e depois vendo para recomprar, realizo a perda… mas os benefícios são de longo prazo, se souber o momento de recomprar). Como decidir?

Obrigado, abs”

A dúvida é realmente pertinente.

Investimentos

A taxa SELIC não para de subir, o que demonstra, dentre outras coisas, que o governo brasileiro não está conseguindo controlar a inflação. Além disso, os títulos públicos prefixados e indexados à inflação também apresentam taxas cada vez maiores. Vejamos como estão pagando os títulos do Tesouro Direto:

Tesouro Direto

Clique na imagem para ampliá-la.

Quem diria que, nesse final de 2013, tivéssemos todas as NTN-Bs (eu disse todas) pagando inflação + 6% a.a. brutos, e os prefixados pagando ao redor de 12% a.a. Quando uma coisa dessas acontece, ou seja, quando os títulos públicos sofrem grandes oscilações nos preços, pagando mais do que habitualmente se espera, é que alguma coisa está por trás, para justificar essa oscilação tão forte.

E essa justificativa tem nome: falta de habilidade do governo brasileiro na gestão das contas públicas. O Finanças Inteligentes, na semana passada, explicou bem tal situação, em um post cujo título já diz tudo: Casa da mãe Joana. Transcrevo aqui parte do excelente artigo que ele escreveu, que fala por si só:

“155,9 bilhões de reais. Alguém se lembra deste número? Esta era a meta de superávit primário (saldo positivo entre as receitas e despesas. Economia feita para o pagamento dos juros/dívida pública) a ser perseguida pelo governo este ano. No início de 2013 as lideranças políticas mostravam total convicção de que esta meta seria devidamente cumprida, diferentemente do que havia acontecido em 2012.

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A nossa credibilidade já não era das melhores, consequência da falta de compromisso do governo perante aos objetivos fiscais dos anos anteriores. As manobras contábeis realizadas em 2009, 2010 e 2012 também não caíram bem (obviamente) no mercado. Investidores, empresários, analistas e agências de classificação de risco mostram-se incomodados com rumo da política fiscal brasileira. Esta sequência negativa e deteriorante não poderia continuar em 2013. Não poderíamos falhar neste ano. Havia uma dívida de comprometimento do governo a ser quitada no mercado.
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Havíamos pegado a estrada errada, aquela cheia de buracos e sem acostamento. Mas o governo não se preocupou em pegar um desvio para correção da rota. Pelo contrário, procurou um posto da Petrobras, encheu o tanque com gasolina (aproveitando a cortesia da empresa em vender o combustível mais barato pelo preço que pagou) e seguiu estrada adentro. E aquela dívida de comprometimento? O governo levantou o dedo do meio pro mercado e foi-se embora.
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Não demorou muito para a meta de superávit primário ser reduzida de 3,1% para 2,3% do PIB (Produto Interno Bruto). Além de cortar a meta, o governo alterou o estatuto do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) para fazer mais uma manobra contábil. E mesmo assim a conta não iria fechar.
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Mexe na regra, corta a meta, faz uma manobra aqui, outra acolá. Não deu certo? Corta a meta de novo. Continua não dando certo? Muda a legislação. Uma verdadeira confusão. Ninguém entende nada. Desordem generalizada. Não se pode confiar em nada. Parece que estamos na casa da mãe Joana. Mas na verdade estamos, infelizmente, tentando entender o superávit primário do governo brasileiro.
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O ministro da Fazenda, Guido Mantega, disse hoje, sem a menor cerimônia, que o governo federal se compromete a fazer um superávit de 73 bilhões de reais. Este valor é menos da metade do que foi prometido por ele mesmo no início deste ano.
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A nova regra predominante na casa da mãe Joana é de um superávit primário de 1,5% do PIB, mais alguns trocados que serão economizados pela boa vontade dos Estados e municípios.
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Investidores, empresários e analistas são obrigados a trabalhar com informações incorretas/infundadas, que parecem mais uma demonstração de desprezo do fornecedor. Insatisfeito com este tratamento, o mercado penaliza o governo pagando mais para lhe emprestar recursos. No geral, as taxas dos títulos pré-fixados do Tesouro Nacional já subiram 4 pontos percentuais desde o mês de novembro do ano passado” (destacou-se).
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Aliado a isso, temos ainda o comunicado da semana passada do Banco Central, dando a entender que o ritmo de aumento da taxa de juros pode ser mantido ou mesmo acelerado, conforme a análise inicial do Finanças Inteligentes a respeito.

Dessa maneira, como a curva da taxa de juros ainda é ascendente, somado à inabilidade do governo brasileiro em fazer a gestão apropriada das contas públicas, o fato é que os investidores exigem taxas mais altas para poder pegar recursos do governo brasileiro, o qual, por sua vez, é obrigado a pagar taxas remuneratórias mais atraentes para conseguir captar recursos.

Quem é penalizado, nessa história toda, acaba sendo o investidor que já comprou títulos do Tesouro Direto no começo desse ano, por exemplo, uma vez que a rentabilidade, na chamada “marcação a mercado”, tem sido cada vez mais negativa. Isso não significa, por óbvio, que ele ficará no prejuízo  por ocasião do resgate do título na data de vencimento, uma vez que receberá exatamente o valor contratado no ato da compra. Mas não é fácil aguentar oscilações tão fortes de preços nos títulos públicos.

E para quem não está investindo no Tesouro Direto? Seria uma boa entrar agora?

Eu recomendo cautela.

Isso porque, ao que tudo indica, a taxa de juros – SELIC – continuará subindo no começo de 2014, o que faria com que os preços dos prefixados e dos títulos indexados à inflação continuassem experimentando novos aumentos de suas taxas de juros. Não é difícil imaginar, dada a deterioração das contas públicas brasileiras, que, em algum momento de 2014, tenhamos NTN-Bs pagando acima de 7% a.a. + IPCA, e prefixados acima de 13% a.a.

Porém, caso você tenha objetivos de médio e longo prazos que “casem” com os prazos dos papéis – p.ex., algum projeto de compra de um bem de uso durável (carro ou apartamento), financiamento da faculdade dos filhos, aposentadoria ou semi-aposentadoria por volta dos anos 2017 a 2024 – pode ser interessante, desde que haja “estômago” para suportar as inevitáveis oscilações de curto prazo, aproveitar essas ótimas taxas do Tesouro Direto e já “travar” uma ótima rentabilidade para o capital investido – sem esquecer, é claro, que esse “ótimo” ainda pode virar “excelente” caso as taxas continuem subindo, ou apenas “boas” caso as taxas caiam.

De maneira geral, eu recomendaria aguardar mais um pouco, e continuar alimentando as “sobras de dinheiro” em papéis pós-fixados, como LFTs, CDBs pós-fixados ao CDI, LCIs, LCAs e fundos referenciados DI com baixas taxas de administração (a poupança ficou pra trás com esses últimos aumentos da SELIC), embora eu reconheça que dá uma “coceira danada nas mãos” e aplicar nem que seja um pouquinho em LTNs ou NTN-Bs…..rsrs…..

Eu acredito que más notícias econômicas ainda estão por vir, o que faria com que os títulos prefixados e indexados à inflação aumentassem ainda mais o valor das taxas de juros que estão sendo pagas.

Enfim, a resposta depende muito de seu perfil de investimento: quer já garantir uma rentabilidade bastante boa para seu dinheiro? Faça compras de alguns desses títulos, mas em doses moderadas. Não tem paciência para as inevitáveis oscilações de curto prazo, que provocam “sangrias” no preço de mercado dos títulos públicos? Então espere mais um pouco.

A decisão não é fácil e há prós e contras em cada tipo de decisão a ser tomada. As evidências apontam a continuação da alta da taxa SELIC, e, portanto, um ritmo ainda crescente nas taxas pagas pelos prefixados e pós-fixados ao IPCA. Porém, o futuro é incerto, e muitas coisas podem acontecer.

Tome a decisão mais acertada em função de seu perfil e, sobretudo, do seu grau de tolerância ao risco, risco esse que também existe na renda fixa.

Bons investimentos!

Obrigado aos leitores Davi e Flávio pela sugestão do post!

Créditos da primeira imagem: Free Digital Photos

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31 Responses to Tesouro Direto: LTNs a 12% a.a. e NTN-Bs a 6% a.a. + IPCA. Comprar ou não comprar?

  1. Davi 2 de dezembro de 2013 at 10:39 #

    Excelente! Vamos ficar de olho nessa casa da mãe joana…

    Obrigado mesmo pelo tema!!!

  2. Longe do Limite 2 de dezembro de 2013 at 15:55 #

    Post bastante interessante este!

    Antes de mais nada, é necessário dizer aqui que a escolha do ativo e o momento da compra são questões íntimas e intransferíveis. Cabe a cada um ponderar os prós e os contras dessa decisão, que refletirá única e exclusivamente no seu patrimônio.

    Uma vez dito isto, passo a tratar do que eu costumo fazer no TD: para reduzir o risco da oscilação, eu prefiro comprar títulos que pagam cupons semestrais.

    Assim, tenho um retorno garantido do capital, com o qual tenho 2 opções: posso tê-lo como reforço no meu fluxo de caixa ou posso reaplicá-lo, gerando juros compostos.

    Abraço!

    • Guilherme 7 de dezembro de 2013 at 21:04 #

      Excelente estratégia, LL!

      Muitos investidores do TD aplicam nesse tipo de papel justamente pelo fluxo de caixa que é gerado.

      Abç!

  3. TBB 3 de dezembro de 2013 at 23:22 #

    Em minha opinião as taxas vão continuar subindo até a próxima reunião do Copom. No dia 15/01/2014 o BC deve anunciar a elevação da taxa Selic para 10,25. Posteriormente acredito em manutenção da mesma.

  4. Eduardo 4 de dezembro de 2013 at 15:46 #

    Sabe quem pede dinheiro emprestado para você e topa pagar uma taxa de juros alta? Quem já não consegue tomar em taxas menores e pode não conseguir pagar.
    Não esquecer que o risco anda na contra-mão da rentabilidade.

    • Guilherme 7 de dezembro de 2013 at 21:05 #

      Boa lembrança, Eduardo.

    • Alexsandro 9 de dezembro de 2013 at 14:10 #

      Se o governo ´der o calote nos titulos publicos ocorre uma quebradeira geral pois os bancos sao os maiores detentores destes…os bancos quebrariam primeiro

  5. Daniel 5 de dezembro de 2013 at 13:29 #

    De grão em grão a galinha enche o papo… Não compre tudo de vez, planeje seus gastos e aproveite-se generosamente deste momento no TD!!
    Belo Post, verdadeiro!!

  6. Daniel 5 de dezembro de 2013 at 13:34 #

    Ah! ia me esquecendo, devemos ficar de olho no dia 15/01/14 para o resultado da variação na nova tx selic…

    • Guilherme 7 de dezembro de 2013 at 21:06 #

      Essa data já está devidamente marcada no nosso calendário….. 🙂

  7. Marina 8 de dezembro de 2013 at 10:44 #

    EXCELENTE post, muito obrigada!

  8. CARD 9 de dezembro de 2013 at 19:20 #

    Estou querendo investir para consolidar um sonho em 2016. Tem um titulo o LTN vence justamente em 2016 ou seja ideal para mim. a questão é a seguinte eu tenho pra mim que a selic vai aumentar para 10,25 em 15/01/2014 só que aí se eu comprar o LTN 2016 vou entrar no IR de 17,5%. Minha duvida um aumento de 0,25 % na taxa selic reflete em + ou – quantos por cento na rentabilidade deste titulo que hoje esta por volta de 11,85 a.a.
    Desculpe se foi confuso. sou iniciante nos investimento.

    • Guilherme 11 de dezembro de 2013 at 7:54 #

      Olá CARD, eu não sei te responder exatamente quanto por cento irá refletir na rentabilidade do título.

      De qualquer forma, a opção da LTN 2016 me parece atrativa.

      Abç e bons investimentos

  9. Joao 14 de dezembro de 2013 at 7:51 #

    Aplico cerca de mil reais mensais na LFT 070317 (Vencimento 07/03/2017), com objetivo de juntar um dinheiro para aquisição de um bem em 2017.
    Gostaria de uma opinião se estou fazendo uma boa escolha.
    Abraços e parabéns pelo site!

    • Joao 14 de dezembro de 2013 at 7:59 #

      Em tempo: iniciei as compras mensais em Agosto/13

      • Guilherme 14 de dezembro de 2013 at 10:18 #

        Sim, fez uma ótima escolha, Joao.

        Como o prazo é médio (4 anos), mas, principalmente, o objetivo é certo, fixo no tempo (aquisição de um bem com data já prefixada), é melhor não correr riscos.

        A LFT acompanha a variação da taxa SELIC e é um investimento conservador. Portanto, ele se “casa” perfeitamente com o seu objetivo não financeiro.

        Abç!

  10. Kleber Rebouças 17 de dezembro de 2013 at 6:09 #

    Se o valor não tem destino e prazo certo, a melhor estratégia é Alocação de Ativos (inclusive com os próprios ativos do Tesouro Direto).

    Se a SELIC está subindo agora, em algum momento futuro a tendência se inverte. Então, ter título pré-fixados na carteira, sem prazo para sacá-los pode alavancar sua rentabilidade no futuro.

    Mas a compra tem que ser feita aos poucos…

    http://www.ricodinheiro.com.br

    • Guilherme 18 de dezembro de 2013 at 9:22 #

      Concordo Kleber, há várias opções interessantes com prefixados hoje no Tesouro Direto.

      Abç

  11. Lisandro 23 de dezembro de 2013 at 20:06 #

    Olá Guilherme,
    Na atual conjuntura, o que eu tenho feito é alocar novos recursos para LFT. Assim ganho a valorização dos ativos com a escalada recente da SELIC. Como os rumos da SELIC não são tão imprevisíveis como bolsa de valores (veja a oscilação histórica da mesma). Quando houver manutenção, decisões mais apertadas do COPOM ou viés de baixa, vendo os títulos e travo as taxas das NTN.

  12. Juliano 22 de janeiro de 2014 at 11:41 #

    Estou aguardando a liberação da minha conta na corretora pra investir no TD. Minha primeira opção é a LTN com vencimento em 01/01/2017 e que hoje está pagando 12,62% a.a.

    Seria uma boa opção aplicar tudo nessa LTN ou deixar uma parte na LFT que tem vencimento em 01/03/2017?

  13. Juliano 22 de janeiro de 2014 at 12:39 #

    Oi Guilherme, obrigado pelo retorno.

    Sim, minha intenção é manter o investimento até o vencimento.

    Nesse caso é torcer pra inflação não aumentar muito nos próximos 3 anos né?

    Abraço,
    Juliano

    • Guilherme 22 de janeiro de 2014 at 13:49 #

      Sim, Juliano, e acredito que não suba muito.

      De qualquer modo, se subir, eu faria novas compras graduais de títulos atrelados à inflação. Essa é uma vantagem de quem consegue gastar menos do que ganha: ter dinheiro sobrando para investir. 🙂

      Abç

  14. Eduardo 18 de setembro de 2014 at 10:15 #

    Olá, Guilherme!

    Na sua opinião, vale a pena investir nos títulos do tesouro nesse momento ou seria mais apropriado esperar mais um ano talvez?

    O motivo na minha pergunta é o seguinte:

    Não sei exatamente o que influencia no valor das taxas dos títulos públicos, mas tenho lido que a imensa maioria dos analistas acredita fortemente que os Estados Unidos deverão aumentar suas taxas de juros no ano que vem (o que muitos achavam que já aconteceria ontem, mas sabemos que não aconteceu), o que fará com que os títulos públicos americanos fiquem mais interessantes e, consequentemente, países emergentes (como o Brasil) precisem oferecer taxas ainda mais atrativas para atrair novos interessados. Em outras palavras, sobem as taxas dos títulos por lá, sobem as taxas dos títulos por aqui. É isso mesmo, Guilherme?

    Sei que o resultado das eleições vai influenciar bastante nisso também, mas, desconsiderando-se esse fator no momento, o raciocínio acima está correto?

    Obrigado pelo seu tempo.

    Abraço!

    • Guilherme 19 de setembro de 2014 at 9:35 #

      Olá Eduardo!

      É isso mesmo, seu raciocínio está correto!

      Tem que haver um prêmio de risco para o investidor estrangeiro investir em ativos mais arriscados, como títulos públicos brasileiros.

      É a velha equação risco x retorno.

      Abç!

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