[via Época] “Minhas raízes são aéreas”. Um texto para pensar. Refletir. E agir.

“Certas coisas são fundamentais para a realização do ser humano. A essência dessas necessidades foi capturada na expressão ‘viver, amar, aprender e deixar um legado’. A necessidade de deixar um legado é nossa necessidade espiritual de ter um senso de propósito, congruência pessoal e contribuição para o mundo”.

– Stephen Covey

Uma das vantagens de escrever um blog pessoal consiste exatamente no fato de ele ser isso mesmo: pessoal. Não preciso seguir uma determinada “linha editorial” (seja lá o que isso signifique), ou escrever apenas aquilo que as pessoas (ou as empresas) gostariam de ler. Embora o aumento gradativo da audiência implique, na mesma proporção, um aumento gradativo de responsabilidade – afinal, quanto maior o público que lê esse site, maior tende a ser o peso da opinião que por aqui é emitida – nada disso retira a minha liberdade de publicar textos que eventualmente fujam um pouco da temática das finanças pessoais. E quer saber? Eu gosto disso. Por quê? Ora, porque é exatamente em função dessa “amplitude temática” que muitos leitores acabam se identificando com muitos dos conteúdos que são aqui transmitidos.

Felizmente, nem tudo no mundo gira ao redor do dinheiro, status e poder, e, se assim é, faço questão de trazer aos meus leitores textos e links de assuntos que os façam valer a pena o investimento em tempo que é realizado com a leitura dessas linhas virtuais. Navegando pela Internet, me deparei com uma entrevista maravilhosa produzida pela jornalista Eliane Brum, para o site da Época, com a brasileira Debora Noal, psicóloga que resolveu trabalhar para a organização internacional Médicos Sem Fronteiras (MSF).

“Só há duas maneiras de viver sua vida. Uma delas é como se nada fosse um milagre. A outra é como se tudo fosse um milagre”.

– Albert Einstein

Nessa entrevista, Debora narra suas incríveis experiências nas missões que realiza nos mais diversos cantos do mundo, como Haiti, Congo e Quirguistão, deixando o conforto de um emprego público e de uma cobertura à beira-mar. Eis o começo do texto:

“No dia 16 de abril, a gaúcha Debora Noal botou nas costas uma mochila que nunca passa dos 10 quilos. Dentro dela, uma lanterna de cabeça, como as que os mineiros usam, adaptadores de todos os tipos para computador, um gel para lavar as mãos, lenços umedecidos para o banho, um kit de colher, garfo e faca, um canivete, duas camisetas da organização Médicos Sem Fronteiras (MSF), duas calças jeans, um lenço cor-de-rosa para usar na cabeça em regiões muçulmanas, uma jaqueta térmica, um par de havaianas e outro de tênis, um laptop e um dicionário de português/francês/inglês. Levou ainda uma velha boneca da Magali, personagem do criador Maurício de Sousa, que troca de cara (feliz, triste, zangada, etc), para ajudá-la no atendimento a crianças nos lugares mais remotos e perigosos do mundo. Aos 30 anos, a psicóloga Debora partiu para sua décima missão na MSF. Depois de uma preparação de alguns dias em Genebra, hoje ela está no Quirguistão.

Em 2010 houve um conflito étnico entre uzbeques e quirguizes no país da Ásia Central, ex-integrante da antiga União Soviética. Muitos morreram e muitos foram presos. Debora passará de quatro a seis meses trabalhando nas prisões do “Quirgui”, como ela diz. Além de duas missões no Brasil, desde 2008 ela atua em países que a maioria de nós não sabe pronunciar o nome nem onde fica – ou apenas conhece pelo noticiário internacional. Começou pelo Haiti (três vezes, incluindo a República Dominicana), Guiné-Conacri, República Democrática do Congo (duas vezes), e recém voltara de um campo de refugiados do conflito na Líbia quando foi recrutada para o Quirguistão. Sem saber que seria despachada para um país frio, tinha acabado de raspar a cabeça para mudar de estilo.

Dias antes de sua partida, entrevistei Debora por três horas em seu pequeno apartamento em Aracaju, capital de Sergipe, cidade tranquila e praiana que ela escolheu para voltar depois de cada partida. É um apartamento despojado e muito colorido, povoado por lagartixas e girafas artesanais que ganha de presente. Perguntei a ela a razão de tantas cores. E Debora me explicou que as cores são a forma encontrada por ela para representar a variedade de cheiros que seu contato com um mundo diverso de humanidades lhe proporciona – um universo olfativo impossível de definir em palavras. Era desse mundo muito mais rico – que Debora alcança e nós não – que eu queria saber.

Nascida e criada na gaúcha Santa Maria, Debora cursou Psicologia em Santa Cruz do Sul porque buscava uma faculdade comunitária. Depois, trabalhou no Fórum Social Mundial de 2005 e, quando o evento terminou, tentou pegar uma carona para Manaus. Não conseguiu. Acabou em Recife, onde instalou CAPs (Centro de Atenção Psicossocial) em duas cidades do interior pernambucano. Saiu de lá para fazer residência em Saúde da Família em Sobral, no Ceará, mas concluiu que, sem praia, não suportaria o calor de mais de 40 graus. Acabou em Aracaju, onde fez Gestão de Saúde Pública e Saúde Coletiva. Tornou-se funcionária da secretaria estadual de Saúde e percorreu 28 municípios do Baixo São Francisco para compreender as necessidades da população e organizar o atendimento. Até hoje não tem plano de saúde privado e só reserva elogios para a cobertura do SUS na capital sergipana.

Neste ponto da história, a MSF entrou na vida de Debora e o mundo virou – o que era longe ficou perto. Como em filmes de suspense, ela recebe ligações do tipo: “Debora, temos uma missão para você”. Mas, ao contrário do cinema, em que são espiões equipados com armas de última geração que recebem esse tipo de chamada, Debora parte em missões humanitárias. E arrisca a própria vida armada apenas de conhecimento e da ideia de que a humanidade inteira é sua família.

Debora nos apresenta uma realidade que, não por acaso, pouco chega até nós. Depois de ler sua entrevista, pode parecer difícil acreditar. Mas raras vezes conheci alguém tão leve, transparente e feliz. Os olhos de Debora brilham enquanto conta sua experiência. Nos momentos de maior brutalidade se turvam – e depois voltam a brilhar. Ela não perde nenhuma oportunidade de rir e sua voz é sempre suave. E, quando abraça as pessoas, abraça. Dá vontade de se tornar amiga dela pelo resto da vida. Deve ser por isso que a legião de amigos de Aracaju a espera no aeroporto com champanha e balões quando ela chega estropiada de mais uma missão.

É isso. Debora é com certeza uma das pessoas mais vivas que conheci. E esta é uma entrevista ao mesmo tempo chocante e inspiradora. Dois adjetivos que só alguém com as qualidades de Debora, capaz de arrancar esperança nos cenários mais brutais, poderia acrescentar a um mesmo substantivo. Por isso, foi também uma entrevista muito difícil de cortar. Depois de bastante sofrimento, consegui deixá-la em um terço da original. E guardar o restante para outro momento. Vale cada linha. E meu sonho é que todos possam lê-la e ser movidos pela vontade de compartilhá-la com os amigos e também com desconhecidos.

O que Debora diz é vital. Espero que, ao ler a entrevista a seguir, cada leitor possa alcançar Debora e incluir uma porção maior de mundo dentro de si.”

O texto da entrevista (parabéns à jornalista Eliane pela matéria!) é ENORME, repito, GIGANTE, mas vale cada minuto gasto de seu tempo. Se não puder lê-lo agora, leia mais tarde, com calma. Grave o link, salve a página em formato pdf, cole no Word, jogue pro Instapaper, salve no Dropbox… Você não vai se arrepender. Clique aqui para lê-la na íntegra.

“Dinheiro, estrutura material, nunca foi o meu forte. Não é uma coisa que me toca muito. Acho dinheiro ok, é legal. É bem interessante, você consegue fazer um monte de coisas. Mas sem ele você também consegue fazer um monte de coisas. E acho que, se você se apega a isso, a alguma coisa que é material, isso quer dizer que você está plantando sua raiz por uma estrutura material. Eu quero ter raiz, mas raízes aéreas, que eu possa levar para onde eu quiser” (sem destaque no original).

– Debora Noal

Parabéns à Debora, que mostra a todos nós que a vida que cada um carrega dentro de si pode tem um sentido, um significado e uma força muito maior do que pudéssemos imaginar.

É isso aí!

Um grande abraço, e que Deus os abençoe!

* Créditos da imagem: Free Digital Photos

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20 Responses to [via Época] “Minhas raízes são aéreas”. Um texto para pensar. Refletir. E agir.

  1. Hugo Loureiro 27 de julho de 2012 at 10:38 #

    Muito obrigado por compartilhar esta entrevista maravilhosa. Olha, cada vez que falo para meus amigos sobre o Valores Reais explico que é um blog de finanças mas que não é sobre como ficar rico, mas sim como ganhar independência financeira. E a entrevista escancara que podemos ser felizes, fazer outras pessoas felizes sem necessariamente ter dinheiro ou bens materiais envolvidos. Ou seja, pode parecer que não seja da sua “linha editorial”, mas é sim a cara do Valores Reais.

  2. Jr Caimi 27 de julho de 2012 at 10:43 #

    Simplesmente imperdível. Se uma pequena parte das pessoas fossem uma pequena parte da Débora, um mundo todo seria imensamente melhor.

    Entrevista fantástica, história inspiradora.

    Débora uma verdadeira heroína.

  3. Lili 27 de julho de 2012 at 12:45 #

    Ótima entrevista. Admiro bastante pessoas como a Débora, que fazem a diferença nesse mundo tão egoísta. Se eu não fosse tão melindrosa, arriscaria um pouco mais na causa que eu defendo.

  4. Jônatas R. Silva 27 de julho de 2012 at 13:41 #

    Gui,
    Definitivamente o VR é um blog diferente.
    Parabéns por compartilhar entrevista tão significativa e reflexiva.

    Abraço!

  5. Rosana 27 de julho de 2012 at 17:43 #

    Gostei muito da entrevista, agradeço por tê-la compartilhado aqui!
    Abraços,

  6. David 30 de julho de 2012 at 18:44 #

    Uma história muito tocante! Leva a gente a pensar na vida e suas prioridades.
    Parabéns Guilherme

  7. Antonio 31 de julho de 2012 at 0:44 #

    Tem razão Guilherme, é ENORME e a entrevistadora diz q isso é só UM TERÇO do material original!!!!! 😮

  8. Nélio Oliveira 1 de agosto de 2012 at 15:55 #

    Eu finalmente li a entrevista hoje. Que bom que existam pessoas assim, mas não a considero mais engajada do que outros “agentes de transformação social” (esse termo fui eu que cunhei agora) por ir fazer o bem na África. Aqui no Brasil há pessoas que fazem a diferença nas vidas de outras tanto quanto ela, mas sem essa “grandiloquência” e esse senso de propósito superior, que em muitas pessoas revela mais sobre seus egos do que sobre a ajuda propriamente prestada (aqui NÃO me refiro a ela, mas sim a “personalidades da mídia” que muitas vezes ajudam os necessitados DESDE QUE isso vire notícia).

    As reflexões dela sobre bens materiais são de uma lucidez ímpar. Gostei demais!

  9. Vanessa 10 de agosto de 2012 at 9:43 #

    Eu amo os textos da Eliana Brum. Ela consegue expressar com palavras os sentimentos mais profundos do ser humano, e mais que isso, ela sempre enxerga algo mais, onde o cotidiano, a rotina ou a indiferença nos faz de cegos.

    Nunca comentei aqui antes, mas acompanho sempre seu blog, normalmente pelos feeds, mas especialmente hoje, venho aqui para agradecer pelo excelente trabalho, onde você leva ao pé da letra o verdadeiro significado dos “valores reais”.

    Abraços e que Deus o abençoe.

    • Guilherme 12 de agosto de 2012 at 19:08 #

      Vanessa, muito obrigado pelos comentários! Legal que você nos acompanha pelos feeds!

      É isso aí!
      Um grande abraço, e que Deus os abençoe!

  10. DEUSAMARA LEITE 4 de setembro de 2018 at 14:29 #

    Excelente entrevista.

  11. DEUSAMARA LEITE 4 de setembro de 2018 at 14:30 #

    Comovente e inquietante.

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