Evite fazer comparações erradas de gastos

Você se esforça ao máximo para escolher os produtos mais baratos no supermercado: utiliza a técnica do “quanto maior, mais barato fica”, opta por produtos cuja marca é do próprio supermercado, escolhe as fatias de presunto e queijo que estão com o menor preço, pega o sabonete mais barato, escolhe o refrigerante que está em promoção,  seleciona a pasta dental com o preço mais em conta, evita rolos de papel higiênico muito caros, e por aí vai. Calcula que conseguiu fazer uma economia de cerca de R$ 20. Ou seja, em vez de pagar R$ 80, sai do supermercado pagando apenas R$ 60. Uma ótima e saudável economia.

Aí, alguns dias depois, dentro daquela ideia de reservar um dinheiro todo mês para a diversão, você não resiste a uma promoção de roupas no shopping, ou a uma promoção de livro/DVD na Internet, e acaba gastando R$ 50. E então você fica se martirizando: “aaaahhh, lá se foi o esforço de ter economizado R$ 20 no supermercado……..”

Pior: a partir de então, vendo que não conseguiu economizar do jeito que gostaria, pois o que tira de um lado é, digamos, “reposto” de outro, você desiste da idéia de economizar. E, na próxima ida ao mercado, seleciona sem critério algum os produtos que coloca no carrinho: pega qualquer marca de sabonete, escolhe o refrigerante mais caro, não se dá ao luxo de comparar o preço das diversas pastas de dente, escolhe a barra de chocolate “premium”, pega o primeiro pacote de arroz que está na prateleira… afinal de contas, “se não deu para economizar antes, por quê eu o faria desta vez?”

Está tudo errado!

O que você está fazendo é uma coisa que só tende a causar prejuízos para seu bolso. Você não só está fazendo comparações erradas de gastos, como também estará criando um estilo de vida inflacionado. Você deve imediatamente voltar ao antigo hábito de economizar o máximo que puder, ainda que essa economia seja suplantada por algum gasto de valor superior, situado em outra categoria de consumo.

Comparações erradas de gastos são comparações realizadas entre produtos/serviços situados em diferentes categorias, sob diferentes circunstâncias, e enquadradas em diferentes contextos. Não é porque você está pagando R$ 120 no seu pacote de TV por assinatura que você pode se dar ao luxo de gastar qualquer valor numa compra de Internet. Não é porque você acabou de comprar uma TV de tela plana, do tipo LCD/LED, em sua sala de estar, substituindo aquela TV de tubo que estava havia 10 anos lá, que você agora pode tirar o escorpião do bolso e se dar ao luxo de não fazer contas quando vai ao supermercado. Cada gasto deve ser analisado em comparação a aquilo que podia ser feito em relação ao mesmo tipo de situação, e não em situações diferentes.

Às vezes, a compra de produtos mais caros se dá por pura necessidade, e isso não pode servir de desculpa para você “detonar” na compra de produtos que poderiam ser mais baratos. O fato de você ter gastado mais com móveis de escritório não lhe dá a liberdade de dizer: “ah, mas não valeu nada ter economizado R$ 30 na conta de energia elétrica”. Você deve economizar, sim, nas áreas em que conseguir economizar. Naquelas outras áreas em que você não conseguiu economizar, é porque havia uma situação de necessidade imperiosa a demandar aquele tipo de gasto.

Em outros termos, você deve pensar que cada real economizado estará lhe permitindo reunir economias que poderão ser utilizadas para bancar outros gastos equivalentes. Por exemplo, outro dia, eu estava de férias viajando por outra cidade quando percebi que meu notebook havia apresentado problemas. A sorte foi que havia assistência técnica da marca (HP) naquela cidade. Mas o problema era que essa assistência ficava bem longe de onde eu estava. No primeiro dia, resolvi ir de táxi. Gastei cerca de R$ 18.

Na volta para o local onde eu estava dormindo, percebi que era possível economizar, percorrendo um trecho a pé (cerca de 20 minutos) + um trecho de ônibus (outros 20 minutos), cuja passagem custou R$ 2. Fiz o teste e economizei R$ 16.

Percebendo as evidentes vantagens econômicas desse tipo de situação (ainda que com um gasto adicional de tempo, cujo ônus percebi que se pagava, em função de eu estar de férias), quando fui retirar o notebook da assistência, após realizado o serviço de manutenção, resolvi adotar a estratégia da caminhada + ônibus. Dessa forma, foram mais R$ 32 economizados. R$ 48 no total.

Nesse mesmo dia, ao fazer compras no mercado, queria comprar batata palha para lanche. Havia diversos pacotes de 140 gramas. O pacote da marca do mercado custava R$ 2,14. O pacote mais barato, da Visconti, custava R$ 1,98. E havia também um pacote premium, cujas batatas eram mais finas, que custavam R$ 2,98. Em outros tempos, eu escolheria o pacote mais caro. Mas resolvi pegar o mais barato. Como foram 2 pacotes, mais R$ 2 de economia.

Total de economia: R$ 50. Esses R$ 50, economizados nessa viagem de férias, podem não representar muita coisa, mas já é suficiente para completar o tanque de combustível do meu carro. E os R$ 50 reservados para encher o tanque, por sua vez, podem ser livremente colocados numa conta de investimentos. Imagine o efeito dos juros compostos realizados sobre centenas de pequenas economias realizadas ao longo de milhares de dias…

Apesar da economia de R$ 50, isso não me impediu de comprar, com satisfação, um livro na Amazon, no valor de quase R$ 100. Por quê? Porque economia é sempre economia. Se você parar de economizar aqui, só porque estará gastando muito mais ali, você estará inflacionando seu estilo de vida. Daqui a pouco você não ligará mais para o consumo de energia elétrica, não ligará mais para as compras de roupas, não ligará mais para compra de eletrônicos caros, e por aí vai.

Repito: não é porque você gastou mais aqui que você pode se dar ao luxo de gastar mais ali. Você deve aprender a evitar comparações erradas de gastos, e passar a valorizar mais o dinheiro que você ganha como produto de seu trabalho, sendo seletivo nas suas escolhas de consumo. E isso por uma razão muito simples: ser seletivo nas suas escolhas de consumo hoje ampliará o leque de opções de consumo no futuro.

R$ 50 disponíveis hoje – e posteriormente investidos – valem muito mais do que R$ 50 no futuro, em virtude dos corrosivos efeitos da inflação. Saber escolher produtos e serviços de consumo, hoje, não só lhe permitirá fazer opções mais condizentes com suas preferências pessoais, como também lhe dará a oportunidade de economizar dinheiro para ter muito mais opções no futuro. Do contrário, a pessoa que gasta qualquer valor, com qualquer coisa, hoje, porque gastou qualquer valor, com qualquer coisa, ontem, não terá a mesma disponibilidade de escolhas amanhã. Na verdade, ela reduzirá suas opções e alternativas de consumo no futuro. Por quê? Porque não economizou dinheiro. Porque optou por ter um estilo de vida inflacionado. Por via de consequência, por não ter poupado e investido o dinheiro, está com um leque de opções menos amplo do que aquele que soube ser seletivo no consumo de ontem. Simples assim.

Que você também evite fazer comparações erradas de gastos nas suas escolhas de consumo de hoje, sabendo que cada real poupado e investido conta – e muito! – para ampliar seu conforto financeiro no futuro, ainda que tenha havido gastos maiores em outras categorias de consumo. 😉

É isso aí!

Um grande abraço, e que Deus os abençoe!

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3 Responses to Evite fazer comparações erradas de gastos

  1. Gisely Chessed 6 de dezembro de 2010 at 0:21 #

    Excelente artigo! Me dou ao luxo de não economizar em alimentação, gosto de um bom azeite, produtos orgânicos, café e tudo que é premium, arroz thai, etc…
    Por outro lado, tenho economizado horrores comprando através do groupon, com as ofertas do dia (principalmente pacotes estéticos) e planejo viajar utilizando desse expediente daqui pra frente. Concordo 100% que gastar R$100,00 em sabonetes na L’Occitane não quer dizer deixar as luzes acesas em um ambiente vazio ou ficar 2 h no banho, economia é fundamental em tudo que é secundário, o que é extremamente pessoal. Eu jamais conseguirei ser bilionária e morar em uma casa modesta pensando no valor futuro desse dinheiro, sorry Warren!

  2. Jônatas 6 de dezembro de 2010 at 15:00 #

    Guilherme,
    Raciocínio perfeito e muito bem desenvolvido ao longo de todo o texto, parabéns.

    Abraço!

  3. Guilherme 7 de dezembro de 2010 at 9:34 #

    Gisely, ótimo depoimento! Você captou muito bem a essência da mensagem: gastarmos mais em coisas que gostamos mais! 🙂

    Jônatas, obrigado!

    É isso aí!
    Um grande abraço, e que Deus os abençoe!

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