Banco Panamericano e o risco do investimento em ações individuais

O hit do momento, na Bolsa de Valores, é o Banco Panamericano. Após o anúncio de uma suposta fraude bilionária, que foi seguida de um aporte igualmente bilionário, conforme notícia postada pela mídia, no pregão de ontem, as ações do referido banco, negociadas sob o código BPNM4, desabaram quase 30%, movimentando a astronômica quantia de mais de R$ 160 milhões.

Não vem ao caso discutir os problemas que estão ocorrendo dentro desse banco, o tamanho do prejuízo, as implicações políticas da intervenção “branca”, as eventuais falhas na supervisão do sistema financeiro etc. etc. etc. O que esse caso deixa bem claro é o elevado risco de investimento em ações individuais. Imagina o nível de estresse de um pequeno investidor pessoa física que acaso tenha aportado nesse pequeno banco uma quantia elevada de seu patrimônio financeiro. Será que ele vai dormir tranquilo? Haja uma boa noite de sono depois de a cotação desabar 30% de uma hora para outra!

Para os especuladores de plantão, esse tipo de volatilidade é um prato cheio para trades curtos (e prejuízos longos), bem como um prato mais cheio ainda para as corretoras lucrarem com as taxas de corretagem.  Para o investidor que prefere atuar no longo prazo, o melhor a fazer é o que venho falando sempre: diversificar. Não apostar todas as suas fichas em uma empresa só. Afinal, se até blue chips viram micos, como escrevemos nesse artigo: Você já ouviu falar da Paranapanema? E da Sharp e da Transbrasil? Telebras lhe soa familiar?, quanto mais ações de empresas pequenas negociadas em Bolsa.

Aí algum desavisado poderia ir logo falando: “ah, mas as small caps são as que têm a maior possibilidade de fazer meu capital dobrar, triplicar e até decuplicar de tamanho, então vale a pena assumir os riscos…”

Será? Mas elas também são as que têm a maior probabilidade de arruinar com o patrimônio de qualquer investidor. Lembre-se de que, numa operação de compra e venda em Bolsa, você não sabe com quem está negociando. Vai que, na outra ponta da ordem enviada à corretora, esteja um BTG Pactual, um Lírio Parisotto, ou até mesmo um Warren Buffett da vida…

Mas o pior nem são esses caras (embora, convenhamos, não seja nada agradável negociar a compra/venda de uma empresa justo com o W. Buffett…). O ruim mesmo é você estar negociando com um alto executivo da empresa com a qual você está treidando, que sabe mais sobre a empresa do que os melhores analistas do mercado financeiro. Esse é o pior cenário.

Por isso, não fiquem perdendo tempo analisando relatórios, balanços, e fazendo suposições com base nesses números. Como bem disse o Investimentos e Finanças, num ótimo post sobre o assunto, em seu blog pessoal:

“As informações dos balanços refletem os resultados passados da empresa, enquanto que o que vai levar a uma valorização ou queda das ações serão os resultados futuros da empresa que são, até o momento  em que você compra, uma incógnita”.

Se os resultados passados nada influem sobre o futuro da empresa, o que diremos então dos resultados passados expostos de modo fraudulento?

Do ponto-de-vista do investimento em small caps, está muito melhor posicionado o investidor que aplica num fundo de ações bem diversificado, como o ETF SMAL11, sobre o qual inclusive já fizemos uma análise aqui no blog: Análise do ETF que replica a carteira small caps – SMAL11.

Para fechar esse artigo com chaves de ouro, nada melhor do que recorrer à sabedoria de quem realmente entende de ações: William Bernstein. No livro The Investor´s Manifesto, ele diz o seguinte:

“O objetivo central do processo de investimentos não é maximizar as chances de ficar rico, mas sim  minimizar as chances de morrer pobre.”

Não gaste seu precioso tempo se importando com coisas que em nada influenciarão na melhoria de sua qualidade de vida. Ler relatórios vai melhorar a vida de quem? Aplique seu dinheiro de forma bem diversificada, e deixe a batata quente de vender as ações de bancos que irão quebrar para o gestor do fundo. Gaste seu tempo aproveitando a vida da melhor forma possível, em áreas e em coisas que adicionarão real valor à sua vida. Não seja escravo do mercado financeiro: pelo contrário, utilize-o como ferramenta auxiliar na construção de seu patrimônio.  E use o seu tempo, como diz meu amigo Henrique Carvalho, para um fim mais útil: viver! 😉

É isso aí!

Um grande abraço, e que Deus os abençoe!

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16 Responses to Banco Panamericano e o risco do investimento em ações individuais

  1. Henrique Carvalho 11 de novembro de 2010 at 0:39 #

    Excelente artigo!

    Nessas horas que lembramos que diversificar faz bem!

    Eventos raros e com grandes proporções como estes podem acabar com investidores em apenas 1 dia…

    E este tipo de risco está sempre muito escondido, imperceptível de ser notado. Melhor é se planejar contra estes eventos. Que tal alocação de ativos?

    Abraços!

  2. Guilherme 11 de novembro de 2010 at 7:43 #

    Valeu, HC!

    Você disse muito bem: há riscos que simplesmente não podem ser mensurados. Isso me lembra as dicas que os médicos sempre dão: se quiser uma vida saudável, vá cortando os fatores de risco: fumo, bebida, sedentarismo etc. Com investimentos, não poderia ser diferente!

    É isso aí!
    Um grande abraço, e que Deus os abençoe!

  3. Jônatas 11 de novembro de 2010 at 8:43 #

    Oi Guilherme,

    Conversei essa semana com um amigo que veio me pedir conselhos sobre investimentos em ações – ele não conhece nada de nada. Quer investir mil reais mensais num prazo médio de 12 anos. Minha dica foi: compre cotas mensais de ETFs de BOVA e SMAL na proporção 3/1. Três meses seguidos compre BOVA, no mês seguinte SMAL, faça isso durante os 12 anos.

    Com essa estratégia simples e que não exige conhecimento algum, acho que comtempla bem a diversificação tão pregada por vocês.

    Obs.: Os mil reais são exclusivos para ações, meu amigo investe em RF também.

    Abraço!

  4. fabio 11 de novembro de 2010 at 9:03 #

    Acho que vale a pena ler os relatórios e os balanços. Graham dedicava alguma parte de seus investimentos em operações turnaround, além das guimbas de cigarro.

  5. Willy Fog 11 de novembro de 2010 at 9:34 #

    Sim sim este é um belo exemplo de que diversificar é preciso.
    .
    Abcs

  6. Luciano 11 de novembro de 2010 at 9:54 #

    Guilherme,o clube de investimento a qual participo até pouco tempo atrás tinha na carteira uma fatia consideravel das acoes individuais do Banco Panamericano, por uma questão de rebalanceamento o gestor na época (ano passado) resolveu vender..fico agora lendo a sua matéria e a cabeça vai girando…e se nós tivessemos ainda na carteira? pra mim e pro pessoal do clube o banco tinha uma gerencia excelente e uma governanca corporativa impecavel, resultados e análises excelentes…gestão profissional….ai de repente vai virando PÓ….do nada…nem o próprio controlador majoritario que detem boa parte do controle acionario (Silvio Santos) não sabia dos rolos que estavam acontecendo….
    dificil dizer alguma coisa nessas horas….triste….
    Viva a assest alocation……rs..
    abraços
    Luciano

  7. Finanças Inteligentes 11 de novembro de 2010 at 10:19 #

    Essa do Panamericano só pegou de surpresa do investidor que não utiliza análise fundamentalista nem técnica. Pois os fundamentos do banco nunca foram bons e a técnica já indicava tendência de baixa desde abril/2010. Mas concordo quanto a diversificação.

    Abraços

  8. Investimentos e Finanças 11 de novembro de 2010 at 14:26 #

    Olá Guilherme. Obrigado pela citação. Só lembrando que quem investe em um ETF que por exemplo tenha ações do BPNM4 ou de outra empresa que venha a cometer uma fraude vai ter perdas do mesmo jeito, proporcionalmente ao peso da participação da empresa no fundo/indice. Assim o ETF é apenas uma forma prática de diversificação. Voce pode diversificar também com ações individuais, com um custo um pouco maior, mas com certos beneficios que os ETFs não possuem. Quanto a avaliar balançoes eu acho que isto é importante sim, apesar de geralmente já estar precificado, é importante conhecer em que se está investindo.

    Abs

  9. Evertonric 11 de novembro de 2010 at 16:05 #

    Boa Tarde Guilherme !!
    ótima visão sobre ações individuais, mas eu gosto de tem um poder de escolha, referindo a peso de cada ação em minha carteira,
    Ha tá e vejo que vc tbm citou alguns nomes no post, Gostaria de saber se vc tem aqui no VR algum post que comenta os 10 mandamentos de investimento do Sr. Lirio Parissotto?, porque eu procurei mas não encontrei, se realmente não tem , esta ai uma dica para um futuro post, “Comentário segunda a visão de Valores Reais” sobre estes 10 mandamentos citado, procurei este post porque acho bem legal as suas resenhas de livros, opniões sobre outros blogs, etc…, vc consegue escrever claramente sobre qualquer assunto finaceiro e/ou investimento
    Forte abraço

  10. alexandre oliveira 11 de novembro de 2010 at 17:13 #

    FANTASTICO, EM UM DIA MAIS 30% gente bolsa de valores não é para guardar dinheiro, para fazer isto, apliquem em fundos de bancos, bolsa para quem quer ganhar dinheiro tem que movimentar quase todo dia é pura especulação, achei fantastico esta queda de 30% nas acoes, quem manda deixar dinheiro parado, tem mais que perder, comprei hoje de manha a 4 e ja vendi a quase 6 e esta caindo de novo, vamos comprar de novo, e amanha se vende de novo, não esqueçam de somar o valor da corretagem na quantidade de ações, assim fica facil calcular o lucro. Quem quer deixar dinheiro parado que va para poupanca ou aplique na bolsa para nos ganharmos iahuuuu!!!!

  11. Gilson Lima 11 de novembro de 2010 at 20:35 #

    Eu pratico um concentração diversificada em Jerreissati Participações (MLFT4):
    http://confrariadenegocios.blogspot.com/2010/08/saiu-o-resultado-do-segunto.html

    A Jereissati Participações é um “holding pura” com investimentos nos setores de Telecomunicações (OI), “Contact Center” (CONTAX) e “Shopping Centers” (IGUATEMI).

    Ser acionista da Jereissati Participações significa ter uma carteira de ações só de ações pertencentes ao controle das empresas (atualmente OI, CONTAX e IGUATEMI), com um gestor bom de negócio como o Carlos Jereissati, gestor este que inclusive é sócio também e portanto tem o maior interesse no seu crescimento, e não ter que pagar nenhuma taxa de administração ou de performance!

    É perfeito, só ter paciência que o futuro está garantido !
    http://confrariadenegocios.blogspot.com/2010/08/jereissati-participacoes-uma.html

  12. Guilherme 12 de novembro de 2010 at 8:07 #

    Jônatas, pois eu acho uma excelente idéia essa que você deu para seu amigo! Inclusive, é também semelhante à estratégia que pretendo adotar.

    Fábio, às vezes pode valer a pena, como no exemplo citado.

    Luciano, boa sacada (literalmente….rs), do gestor do fundo.

    F.I., isso demonstra uma verdade fundamental: estudar será sempre preciso.

    I.F., de acordo. Há vantagens e desvantagens para ambos os lados. O negócio é escolher aquele que mais se adapta a cada perfil.

    Everton, obrigado. Achei bem interessante os 10 mandamentos do Lírio. Concordo com muito do que ele diz. Afinal, são 40 anos de experiência em Bolsa sintetizados em poucas palavras.

    É isso aí!
    Um grande abraço, e que Deus os abençoe!

  13. Flávio 13 de novembro de 2010 at 12:36 #

    Guilherme, excelente post.
    O lado bom (sempre tem um) de todo o escândalo corporativo que traga prejuízos aos investidores é a mensagem simples da diversificação. Os ETFs nesses casos, mostram-se vantajosos. As ações do Banco, por ter pequeno valor de mercado, não estavam listadas nos índices IBOVESPA e IBRX e portanto não afetaram diretamente as cotas do BOVA11 e PIBB11. As ações estavam presentes no índice Small Cap composta pelas ações emitidas pelas companhias com os menores valores de capitalização listadas na Bovespa, contudo representavam somente 0,32% do índice, ou seja, mesmo o ETF SMAL11, que reúne na teoria as empresas com maior risco para investir, o impacto direto deu-se em apenas 0,32% do índice, o que ressalta o grande benefício da diversificação.
    Obs.: Não podemos esquecer do impacto negativo indireto que esta notícia tem sobre outras empresas, principalmente os outros bancos pequenos cujas ações são negociadas na bolsa. Este risco, chamado de sistêmico, faz parte do investimento financeiro e é mais difícil de diversificar.
    Abraços.

  14. Guilherme 14 de novembro de 2010 at 14:42 #

    Flávio, bem pontuadas as suas reflexões! O negócio é deixar a batata quente da venda das ações para o gestor do fundo. Gastemos nosso tempo com coisas mais agradáveis. 🙂

    É isso aí!
    Um grande abraço, e que Deus os abençoe!

  15. Marcos 15 de agosto de 2011 at 10:40 #

    Achei essa página por acaso.

    Me permita discordar em alguns pontos. Todas as vezes em que apliquei em fundos de bancos, estes fundos seguiram mais ou menos a oscilação da Bolsa, com a desvantagem de que, quando a Bolsa voltava a subir, eles subiam um pouco menos, creio que devido aos custos, taxa de administração etc. Além disso, não sei o que acontece com os dividendos, pois para mim, ao serem incorporados pelos fundos, deveriam compensar pequenas baixas na Bolsa, mas isso nunca pareceu acontecer.

    Creio que Bolsa foi feita para longo prazo. Ainda garoto, há aproximadamente 50 anos, meu Pai costumava perguntar se eu queria aplicar a mesada (que não era alta) na Bolsa. Eu nunca mexia nessas ações que ele comprava, e hoje, somente com elas, posso me aposentar tranqüilamente sem depender de INSS. Nas crises, vejo essas ações caírem algumas (muitas) centenas de milhares de reais e aprendi a não me preocupar com isso, pois não é o valor daquele momento que vale para mim. Também aplico por conta própria, sem nunca procurar especular, pois certamente estaria perdendo meu patrimônio para quem entende, estuda e sabe como a Bolsa e as empresas se comportam no curto prazo.

    Procuro aplicar em ações sólidas e que dão bons dividendos, garantindo renda para manter meu padrão de vida, viagens e educação dos filhos, e mesmo assim, já vi algumas de minhas ações virarem pó. O que, apesar de desagradável, faz parte do jogo, e se resolve com “diversificação”. Tenho também pequenos valores (R$ 10.000 a 20.000) aplicados em ações duvidosas (ex: Panamericano), que, se forem perdidos, não me farão chorar, mas caso essas empresas venham a vingar darão um bom patrimônio para mim ou para meus filhos. Por último sugiro que, caso queiram aplicar em fundos, não se esqueçam de que neles também deve haver diversificação quanto às instituições que os administram. Não coloquem tudo em um único banco ou corretora.

  16. Guilherme 16 de agosto de 2011 at 19:34 #

    Ótimos comentários, Marcos! Visão de longo prazo, disciplina e sangue frio nos momentos de crise são alguns dos requisitos para ter sucesso no mercado de ações.

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