Um bom caminho para uma vida pós-independência financeira tranqüila

Muita gente quer ter logo o seu primeiro milhão de reais. Uma boa parte das pessoas querem, na verdade, ter muito mais do que isso. Elas fazem o cálculo do número mágico que um valor aplicado em poupança resultaria em juros mensais, para ter um padrão de vida que esperam ter no futuro, com preservação do capital principal. Por exemplo, suponhamos que uma pessoa queira ter R$ 10 mil mensais garantidos todo mês como os rendimentos dos juros da caderneta de poupança, sem que essas retiradas mensais comprometam o capital principal. Esse é um cálculo simples de fazer porque não há incidência nem de tributos nem de taxas de administração – embora seja perigoso sob o aspecto da inflação, tendo em vista que a poupança costuma perder da inflação no longo prazo. Supondo que a poupança continue rentabilizando 0,5% ao mês no futuro, o tal número mágico seria de R$ 2 milhões. Isso porque 0,5% de R$ 2 milhões resulta em R$ 10 mil mensais.

Logo, essas mesmas pessoas vão em busca de livros sobre investimentos, sites sobre investimentos, blogs sobre investimentos, revistas e jornais sobre investimentos, enfim, “arregaçam as mangas” para buscar conquistar esse valor – ou qualquer outro que seja o bastante para atingir a independência financeira.

Entretanto, será que isso, por si só, será suficiente? Será que ter R$ 2 milhões, ou outro número qualquer, bastará para a pessoa viver em paz? O que ela vai ficar fazendo durante esses 10, 15, 20 anos, em busca do número mágico? Vai ficar só lendo e aprendendo sobre investimentos, imóveis, Bolsa de Valores, fazendo planilhas e calculando números? O que você faria se, ao invés de atingir sua independência financeira daqui a 20 anos, a atingisse amanhã? O que mudaria em sua vida? Ou não mudaria nada? Ou mudariam só algumas coisas?

Alcançar a independência financeira, no sentido estritamente monetário do termo (= rendimentos passivos suficientes para cobrir as despesas), é sem dúvida importante e salutar. Porém, tão importante quanto isso é você pavimentar a construção de sua jornada rumo a ela com a adoção de hábitos e práticas que levem você a ter um estilo de vida menos dependente do dinheiro, consoante escrevemos num artigo sobre a verdadeira essência do conceito de independência financeira. Isso porque não adiantará nada você aumentar seu patrimônio financeiro se o seu consumo crescer na mesma proporção – ou até em proporção maior.

Em outras palavras: pratique a frugalidade. Extraia valor de cada coisa que estiver ao seu alcance. Valorize aquilo que você já tem. Tenha em mente que a inflação é apenas um conceito macroeconômico válido – ela não precisa necessariamente dirigir sua vida. Se você passar a adotar um estilo de vida mais simples e menos focado em coisas e bens materiais, perceberá não só que seu consumo mensal diminuirá, mas também que sua independência financeira chegará mais cedo. De que adianta alcançar um valor “x” que te produza renda passiva num investimento conservador de “y” reais mensais se o seu consumo continuar em níveis estratosféricos ou, com o passar dos anos, pender mais para o lado do aumento do que para o lado da diminuição?

Comece agora a viver uma vida com menos contas a pagar, menos cartões de crédito, menos canais a assistir, menos produtos a estocar na geladeira e nos armários, menos remédios inclusive a ter na despensa. Valorize aquilo que é prioridade para você. Se você não adquirir o hábito de ter menos agora, será muito difícil se livrar do vício do consumismo mais tarde, precisamente porque um hábito não muda da noite para o dia, de uma hora para outra. Ele é resultado de um processo lento, gradual e que requer disciplina e autocontrole. Requer prática. E práticas, para serem duradouras, precisam ser repetidas. Uma, duas, três, dez, cem, mil vezes, tantas vezes quanto forem as necessárias, até ficarem impregnadas no seu estilo de vida e devidamente registradas e armazenadas em seu cérebro como úteis à sua sobrevivência. Quanto mais tarde forem implementadas as mudanças, mais impactos negativos elas causarão em seu planejamento financeiro. Ou, dito de outro modo: quanto mais cedo as mudanças vierem, mais tempo você terá para curtir aquilo que de fato é importante. Importante não para os outros, importante para você.

Suponha que seus gastos anuais familiares girem em torno de R$ 60 mil, o que dá uma média de R$ 5 mil por mês. Quais componentes dessas despesas poderão ser eliminadas no futuro? Faça uma revisão de seu orçamento doméstico, e veja onde você acha que gasta bem, e onde você pode cortar. Os gastos bons não devem ser eliminados. Podem até ser aumentados, desde que outros gastos não essenciais sejam cortados. Por exemplo: se você gasta uma média de R$ 150 mensais com livros e outros R$ 100 com cinemas e filmes, mas não gosta muito de assistir filmes, mas tem compulsão por leituras, é perfeitamente aceitável, sob a minha ótica, diminuir ou mesmo eliminar os R$ 100 com vídeos e acrescentá-los aos seus gastos com leituras – ficando, portanto, o orçamento para leitura em R$ 250 mensais. Isso poderá, inclusive, maximizar o valor de seu lazer, agora concentrado em coisas que lhe dão prazer e auto-estima, além de promoverem desenvolvimento intelectual e exercitarem o cérebro (ok, exagerei nos benefícios da leitura, mas não poderia deixar de fazê-lo, já que eu mesmo gosto muito de ler, fato que também não passa despercebido de outros autores).

O que acontecerá com o transcurso do tempo? Vejam que situação interessante. À medida em que você priorizar a adoção de hábitos mais simples, investir pra valer em seus hobbies e nas coisas, atividades e tarefas que mais te interessam, você promoverá um incremento em sua própria felicidade pessoal. E o dinheiro produto da independência financeira será apenas mais um insumo a te proporcionar condições materiais – se você quiser, claro – para potencializar ainda mais essa sensação de prazer e de auto-estima.

Por isso, não poderia ser mais adequada uma célebre citação do filósofo grego Sócrates: “conhece-te a ti mesmo”. Faça uma análise daquilo que te interessa, que desperta sua atenção, que tem significado para você. Veja quais são seus valores, quais são suas áreas de predileção, quais são seus interesses. Procure alinhar suas atividades dentro daquilo que constitui sua visão de mundo. Veja se há compatibilidade entre seus gostos, suas aptidões, e o trabalho que você normalmente faz, ainda que as prioridades mudem com o decorrer do tempo. Veja se você faz aquilo que você gosta, ou se é possível aprender a gostar daquilo que você faz.

Qualquer que seja sua decisão, saiba que um bom caminho para uma vida tranqüila pós-aposentadoria financeira é esse: já que dinheiro não será problema – e você não precisará trabalhar por dinheiro (a menos que queira, por livre espontânea opção), ocupe seu tempo com um consumo sustentado e com coisas que lhe dêem satisfação. E você poderá chegar, inclusive, à surpreendente conclusão de que a vida pré-aposentadoria financeira era tão boa e não muito diferente quanto a vida pós-aposentadoria financeira. Afinal, você já tinha incorporado tais hábitos previamente. 😉

É isso aí!

Um grande abraço, e que Deus os abençoe!

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10 Responses to Um bom caminho para uma vida pós-independência financeira tranqüila

  1. Henrique Carvalho 3 de agosto de 2010 at 0:52 #

    Frugalidade é um conceito maravilhoso!

    Cada vez mais percebo que MENOS é MAIS. Que Qualidade é superior a Quantidade.

    Muito obrigado por estar sempre nos brindando com ótimos posts sobre como extrair o melhor de nossas vidas.

    Grande Abraço Guilherme!

  2. Luciene Soares 3 de agosto de 2010 at 10:26 #

    Caro Guilherme,
    Concordo com você em gênero,número e grau.
    Gosto de comparar dinheiro com sexo, pois ambos têm assumido na sociedade (ou sempre assumiram) um papel muito deturpado do que penso que sejam seus reais valores.
    Até mais.

  3. Luana 3 de agosto de 2010 at 13:30 #

    Artigo excepcional!!!!
    mto bom, gostei demais……novamente, parabéns pelo blog…
    essas leituras no meio do dia, no meio do stress me incentivam a continuar
    um abraço e fique com Deus

  4. Willy Fog 4 de agosto de 2010 at 12:11 #

    Excelente!

    Ao ler o texto lembrei de uma frase do Warren Buffett:

    “Continuarei a investir enquanto viver”

    E eu pretendo fazer o mesmo, mesmo depois de alcançar a independência financeira. Vejo muitas pessoas falando que querem a IF, mas não tem a mínima idéia do vão fazer depois. Se o cara faz o que gosta, ele não tem um dia de trabalho, ele tem um dia de prazer.

    Abcs

  5. Vinícius 4 de agosto de 2010 at 13:58 #

    Excelente artigo, parabéns pelo blog!

  6. ROWS 4 de agosto de 2010 at 14:32 #

    Engraçado isso: “O que você faria se, ao invés de atingir sua independência financeira daqui a 20 anos, a atingisse amanhã? O que mudaria em sua vida? Ou não mudaria nada? Ou mudariam só algumas coisas?”
    Já me fiz essa pergunta várias vezes, e por isso estou ganhando menos hoje, mas fazendo o que realmente gosto. Hoje além de poupar 30% do meu salário, invisto em mim: estudo inglês e toco violão a 10 anos. Acho q já sei o que fazer qnd alcançar a Independência Financeira.

    Muito obrigado a todos os responsáveis por esse blog. Assinei o Feeds e todos os dias passo por aqui.

  7. Guilherme 5 de agosto de 2010 at 7:58 #

    Obrigado a todos pelos comentários! 🙂

    É isso aí!
    Um grande abraço, e que Deus os abençoe!

  8. Rosana 16 de fevereiro de 2014 at 6:49 #

    Muito bom seu texto! 🙂

    “Se você não adquirir o hábito de ter menos agora, será muito difícil se livrar do vício do consumismo mais tarde.”
    Muitas pessoas ainda acreditam que conseguirão mudar de forma tão rápida, se esquecendo ou ignorando que o marketing tão agressivo usado pelas empresas atualmente prejudicará qualquer tentativa nesse sentido, principalmente se a pessoa não tiver muita força de vontade e uma mudança mental no sentido de valorizar mais a frugalidade e a simplicidade na vida.
    Além de não conseguirem efetuar tais mudanças tão rapidamente, provavelmente ficarão mais frustrados do que antes.

    Abraços!

    • Guilherme 16 de fevereiro de 2014 at 14:09 #

      Exatamente, Rosana!

      Mudanças de hábitos são uma das coisas mais difíceis de se fazer, porque rapidamente nos acostumamos a um determinado padrão de comportamentos, de forma que mudar o status quo é tremendamente difícil, até do ponto de vista cerebral, já que envolve um gasto adicional de energia.

      O vício do consumismo, quanto antes for extirpado, melhor será e menos efeitos colaterais trará. 🙂

      Abç!

Trackbacks/Pingbacks

  1. Thais Aux - 3 de agosto de 2010

    Recomendo o excelente artigo do blog Valores Reais (é compridinho, mas deixa de preguiça e lê pq é legal) http://migre.me/11V4W

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