A arte do desapego

Uma das coisas mais difíceis para o ser humano é se desapegar das coisas que comprou, principalmente se elas tiverem algum significado emocional. Esse problema é intensificado na nossa sociedade atual, que valoriza de modo exacerbado o consumo e o uso do crédito (leia-se “dívida”), uma vez que muito do que compramos reflete mais desejos psicológicos temporários do que reais necessidades duradouras. Em outras palavras, somos induzidos, pelos mais variados motivos, a comprar e a consumir bens materiais, especialmente supérfluos que, uma vez instalados em nossas casas, são difíceis de serem retirados.

Essa abordagem consumista da vida provoca um círculo vicioso muito bem descrito no livro Simplicidade Voluntária (p. 82), resenhado no blog recentemente:

“Quando o objetivo fundamental de uma pessoa é maximizar os prazeres materiais, minimizando o desconforto, a vida se transforma num processo constante de ‘se afastar’ (tentando-se afastar o desconforto) e de ‘apegar-se’ (tentando-se adquirir ou se manter preso àquilo que dá prazer). Com a perda do equilíbrio interno que acompanha uma abordagem de vida baseada num ‘se afastar’ e ‘apegar-se’ habituais, manifesta-se uma dor mais profunda – a dor provocada pela consciência da natureza insatisfatória básica do processo de busca do prazer/fuga ao sofrimento”.

Qual é a solução?

A solução para quebrar, literalmente quebrar, esse círculo vicioso passa necessariamente pela prática da arte do desapego. Arte, segundo a Wikipédia, é

“Entendida como a atividade humana ligada a manifestações de ordem estética, feita por artistas a partir de percepção, emoções e ideias, com o objetivo de estimular essas instâncias de consciência em um ou mais espectadores, dando um significado único e diferente para cada obra de arte.”

De forma análoga, podemos compreender a arte, no contexto em que estamos nos referindo, ao processo de estimular a consciência individual e subjetiva da pessoa, de fazer aquilo que lhe proporciona emoções positivas, por meio do esvaziamento da sensação de dependência da posse de objetos materiais.

De fato, quando você arruma seu guarda-roupas, eliminando peças de vestuário já antigas, desgastadas pelo uso, e direcionando-as para doações, você está praticando, ainda que de modo inconsciente, a arte do desapego. Ao fazê-lo, você está se libertando de coisas que já não teriam mais utilidade alguma, esvaziando o guarda-roupa, mas preenchendo sua paz de espírito. Coincidentemente, você estará também dando um senso estético ao móvel, deixando-o mais organizado, limpo e funcional.

Da mesma forma, é de suma importância você se desvencilhar de coisas que já não fazem mais sentido ficarem ocupando espaço em seu escritório ou em seu quarto. São livros antigos, já desatualizados, sem serventia alguma. Ou então notas fiscais de supermercado, que ficam entulhando suas gavetas. Ou ainda caixas e manuais de aparelhos eletrônicos que você já nem utiliza mais. Será que suas gavetas e seus armários não estão sendo ocupados demais por coisas que você não utiliza? Para quê continuar com eles? Esvazie seus móveis!

Praticar a arte do desapego produz consequências benéficas a quem a pratica, na medida em que promove a eliminação de distrações desnecessárias. Objetos sem uso e sem valor, que servem apenas como itens de coleções que você já não aprecia mais, gastam espaço em sua casa, e geram um gasto de tempo em sua manutenção.

Imagine que você irá fazer uma mudança de cidade, ou uma mudança de domicílio dentro da cidade, transferindo sua moradia de um local para outro. Será que vale a pena transportar todos os objetos que estão em sua atual casa? Quais valem a pena conservar e manter, e quais merecerão um destino diferente, como instituições de assistência social, bibliotecas ou mesmo… o lixo?

Quando você pratica a arte do desapego, não é só a sua casa que fica mais leve. É a sua mente que fica mais leve também, uma vez que você não precisa se preocupar em saber se todas aquelas tralhas estão guardadas nos locais corretos. Afinal, você já se livrou dessas tralhas. Você pode, enfim, direcionar a sua energia psíquica para atividades muito mais relevantes, que promovam seu crescimento pessoal, fortaleçam seus objetivos e façam você caminhar em direção ao seu alvo.

Praticar a arte do desapego lhe dá liberdade. Desapegar-se de bens materiais – principalmente os supérfluos – significa reconhecer que tudo o que se faz nessa vida é temporário, e nada do que se possui aqui poderá ser levado quando você se for. Para quê prender sua atenção em coisas, se o que mais importa nessa vida são pessoas? Será que sua vida não está muito cheia de coisas, mas um pouco vazia de relacionamentos? Será que isso não é uma consequência do apego que você tem a certos objetos?

Evite o desequilíbrio gerado por essa sociedade que só pensa em consumir e comercializar tudo o que aparece pela frente. Evite realizar ações que não passam de meras reproduções automáticas do que se passa na TV e na mídia em geral. Tenha o controle daquilo que você compra, e não se deixe possuir por aquilo que você possui. Agindo dessa forma, você não só se desapegará de suas posses materiais, como também ganhará liberdade para fazer aquilo que você mais gosta, aproveitando os valores reais que devem nortear sua vida. 😉

É isso aí!

Um grande abraço, e que Deus os abençoe!

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6 Responses to A arte do desapego

  1. Victor Ribeiro 2 de agosto de 2013 at 12:25 #

    Muito bacana. Parabéns!

  2. Rosana 31 de dezembro de 2013 at 9:13 #

    Guilherme,
    Excelente post!
    A mídia e o marketing têm criado novas necessidades e muitas vezes são utilizados meios até meio agressivos para conquistar o consumidor com produtos de todo tipo, sejam carros, livros, vestuário, celulares. Uma das intenções é fazer com que você se sinta meio ridículo com o que possui e compre o novo produto, aquele que “vai mudar sua vida” até que surja outra novidade e outra e outra… em um círculo vicioso interminável e até meio insano.

    “E não se deixe possuir por aquilo que você possui.”
    Essa talvez seja uma das coisas mais difíceis, pois como você disse, existem os significados emocionais.Você ter esse tipo de relação com poucos objetos é uma coisa, por exemplo, aquela caneca ou brinquedo que sua avó te deu na infância. Essa eu considero uma relação saudável, pois te fará lembrar de momentos agradáveis que ficaram em um passado longínquo.
    O problema é que a cada dia, essa ligação tem se tornado mais intensa e as pessoas querem guardar tudo de todos os momentos! E haja tempo e paciência para organizar tudo isso. Tempo esse que poderia ser gasto com coisas realmente importantes.

    Minha avó tinha uma estratégia interessante que passou aos netos: sempre que ela ganhava uma peça de roupa, tirava uma do guarda-roupa para doar. E isso dava muito certo pois sempre tinha uma quantidade adequada de roupa, ao mesmo tempo em que doava bastante.

    Como costumo dizer, muitas vezes “menos é mais”, e no caso do acúmulo de coisas, acredito ser uma boa dica.

    Abraços,

    • Guilherme 5 de janeiro de 2014 at 8:23 #

      Oi Rosana, excelentes comentários!

      Concordo com tudo o que você disse, especialmente com esse “afã” das pessoas de quererem registrar e guardar tudo de todos os momentos. Como você mesmo disse, “haja tempo e paciência para organizar tudo isso”!

      Gostei da estratégia da sua avó, uma maneira bastante sábia de aproveitar bem os bens que usava!

      “Menos é mais”: uma frase que pode virar lema, simples, mas de significado profundo.

      Abç!

      • Rosana 14 de janeiro de 2014 at 17:09 #

        🙂

        • Claudia 18 de abril de 2016 at 19:24 #

          Interessante, lembro da minha mãe dizendo que detestava ter muitas roupas no guarda-roupas. Hoje vejo o quanto ela estava certa.

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