O caso (incomum) das milhas “compostas” – milhas que rendem juros (+ milhas)

Quem está se especializando na fina arte de acumular milhas aéreas já descobriu que elas constituem uma espécie de ativo financeiro, na medida em que tem valor econômico, podendo ser trocadas por passagens-prêmio e outros brindes – produtos eletroeletrônicos, assinaturas de jornais e revistas, livros, DVDs etc.

Depois de quase 2 anos estudando o mercado de cartões de crédito, milhas aéreas, formas de resgate de pontos e assuntos correlatos, e paralelamente a tudo isso, levando a cabo os estudos sobre investimentos no mercado financeiro, que lida com outras classes de ativos,  cheguei à conclusão de que, em situações raras, é possível fazer com que suas milhas gerem outras “milhas-filhotes”, milhas “compostas”, por assim dizer.

Para quem veio até esse site oriundo do blog Aquela Passagem, talvez haja falta de familiaridade com o termo “juros compostos”. Assim, cabe aqui uma rápida explicação, para facilitar a compreensão dos conceitos.

Um investimento rende juros compostos quando os juros gerados a cada período são incorporados ao montante principal, para cálculo dos juros do período seguinte. Por exemplo, suponha que você tenha R$ 1 mil na poupança, depositados no dia 5. No mês seguinte, na data de “aniversário”, ou seja, no dia 5, ela rende 0,5%, fazendo com que o seu saldo fique em R$ 1.005,00. No terceiro mês, novamente no dia 5, rendendo mais 0,5%, esse percentual aplica-se sobre o montante até então acumulado, inclusive com o juro acumulado (R$ 1.005,00), ficando com um saldo de R$ 1.010,02, e assim sucessivamente.

Bem, feitas essas explicações iniciais, é bom destacar que não há uma aplicação financeira onde você pode depositar suas milhas, fazendo-as render juros sobre juros, ou melhor, milhas sobre milhas, de modo regular e constante. Afinal, como dissemos no título desse artigo, as milhas compostas são um fenômeno incomum, raro e episódico. Também não é possível a ocorrência da segunda “etapa”, digamos assim, da acumulação das milhas compostas, onde os juros do segundo mês de rendimentos (que seria o terceiro mês de aplicação), incidiriam sobre o montante original + o montante derivado dos juros.

Porém, apesar de todas essas limitações, ainda é possível verificar algumas situações onde há um acúmulo de milhas adicionais, derivado da posse em sua conta, de determinada quantidade de milhas/pontos. E o fato gerador desse acúmulo extra tem um nome: “promoção de transferência de milhas da conta de seu banco para a sua conta do programa de fidelidade da empresa aérea“.

Trocando em miúdos, a premissa básica para você eventualmente ser premiado com um crédito extra de milhas é deixá-las o máximo de tempo possível na conta de seu banco, respeitados, evidentemente, os prazos de prescrição, e aproveitando, logicamente, as promoções eventuais, dentro do prazo de vigência delas.

Também é preciso deixar claro que não estou falando sobre o acúmulo de milhas na rede de parceiros associados no programa de fidelidade de sua empresa aérea, nem sobre as maneiras alternativas de acumulas pontos/milhas, sem usar o cartão de crédito ou o pagamento de contas na fatura do cartão.

Isso porque as milhas compostas de que trata esse artigo não dependem de uma atitude ativa por parte do investidor-milheiro. São milhas que se ganham por se manter numa atitude totalmente passiva, cujo requisito básico é justamente deixá-las depositadas na conta do banco, esperando surgir uma promoção de milhas extras. Daí a semelhança com os juros compostos dos investimentos no mercado financeiro, em que se ganham rendimentos não pelo trabalho do investidor, mas pelo trabalho dos juros. Por isso, também, que investimentos como a poupança são denominados de rendas passivas.

Vamos exemplificar com casos concretos em que se tornou possível milhas gerarem mais milhas, de 10% a 100%. Os casos ilustrados abaixo demonstram que o percentual do acúmulo de milhas variava, normalmente, em função da quantidade de milhas que o cliente tinha em sua conta. São promoções já encerradas (com exceção de uma), e que envolvem específicas parcerias entre determinados bancos e cias. aéreas, mas importantes no sentido de demonstrar a importância de você prolongar ao máximo a vida útil de suas milhas, não as transferindo imediatamente para a sua conta no programa de recompensas de sua empresa aérea, a não ser, é claro, que você pretenda utilizá-las em datas próximas.

Rentabilidade (juros) de 10%

O HSBC e a Caixa tinham uma promoção em parceira com o Multiplus Fidelidade, expirada recentemente (30.06),  em que o cliente ganhava um bônus de 500 pontos a cada 5.000 pontos transferidos para o programa de fidelidade da TAM. Ora, 500 pontos ganhos por cada transferência de 5 mil representam, exatamente, uma rentabilidade na conta de milhas de seu banco de exatos 10%.

O Banco do Brasil e o Bradesco também tinha promoção semelhante, mas em parceria com o programa Smiles, da Gol. Os juros pagos em milhas eram os mesmos, 10%, só que envolviam um “ticket” de ingresso maior: 10 mil milhas. A cada 10 mil pontos transferidos das contas do BB ou do Bradesco, o cliente ganhava um bônus de mil pontos.

É interessante notar que aqui também pode se pagar uma eventual “taxa de administração”, representada pela tarifa de transferência de pontos do cartão para o programa da cia. aérea. No caso do BB, o custo da transferência é de R$ 20. HSBC e Bradesco não cobram pelo serviço de transferência. A Caixa também cobra pelo serviço de transferência de pontos.

Rentabilidade (juros) de 25%

Os melhores juros (milhas) se conseguem em “aplicações” envolvendo programas de fidelidade de cias. aéreas estrangeiras – as quais geralmente também oferecem serviços melhores aos seus clientes…

O programa de recompensas do Santander – Super Bônus – permite que seus clientes transfiram os pontos para o programa LAN Pass, da empresa chilena LAN, uma das melhores cias. aéreas da América Latina – se não a melhor.

A transferência padrão desse programa obedece ao seguinte fator de conversão:

1.000 bônus = 1.600 quilômetros LANPASS

Mas não se anime muito com esse multiplicador aparentemente mais alto da LAN, pois os 1.600 km não correspondem a 1.600 milhas de um Smiles ou a 1.600 pontos de um Fidelidade TAM, como o Rodrigo Purisch bem alertou em elucidativo artigo a respeito.

Bem, feitas essas ressalvas, vamos ao que interessa: o Santander fez uma promoção em parceria com a LAN (promoção essa que ainda está em vigor, expirando em 31.07), em que cada bônus transferido para o LANPASS vira 2 km (1 bônus = 2 km).

Ou seja, um rendimento de 25% (2 km sobre 1,6 km, ou seja, 0,4km a mais),  sobre o fator de conversão padrão (1 bônus = 1,6 km).

Essa promoção ainda premia o cliente com um rendimento extra: quem transferir mais de 10 mil bônus ganha 5 mil Km de bônus (creditado uma única vez por CPF). O que, no final das contas, significa que 10 mil bônus acabam virando 25 mil km (os 20 mil km da promoção em dobro, + os 5 mil km extras), um espetacular rendimento de 9 mil km extras, ou aproximadamente 56,25% “brutos” (já que o Santander cobra R$ 40 para transferência de pontos).

Rentabilidade (juros) de 42,86%

O Itaú, por meio do seu programa Sempre Presente, também tem uma parceria com a LANPASS, porém, estranhamente, o fator de conversão é menor:

1.000 pontos = 1.400 quilômetros LANPASS

Bem, consideradas as ressalvas feitas acima, vale destacar que, no começo desse ano, o Itaú/Unibanco fez uma promoção em parceria com a LAN (janeiro/fevereiro de 2010), em que mil pontos no programa Sempre Presente (dos cartões Itaú) e Passaporte (dos cartões Unibanco) equivaliam a 2 mil km no Programa LANPASS.

Ou seja, um rendimento de 42,86% (1 mil pontos = 2 mil km LANPASS), em relação ao fator-padrão (1 mil pontos Itaú = 1.400 km LanPass), rendimento esse  somente obtido por quem deixou seus pontos na conta do banco, de modo passivo, e tinha intenção de transferi-los para o programa da LAN.

Vale lembrar que o Itaú não cobra pela transferência de pontos, ao contrário do Santander.

Rentabilidade (juros) de 100%

As melhores promoções do mercado e, consequentemente, as que envolvem as melhores rentabilidades sobre os pontos que você acumula, são aquelas que dizem respeito à parceria entre o Sempre Presente/Passaporte e o programa de milhagens da portuguesa Victoria TAP.

Isso porque, nessas promoções, cada ponto no Sempre Presente dobra seu valor no Victoria TAP. Como o fator de conversão é 1:1 (ao invés do 1:1.4 do Itaú/LAN ou do 1:1.6 do Santander/LAN), na promoção de 1:2, aqui sim, há um efetivo rendimento de 100% nas milhas ganhas.

Esse ano, a promoção foi bem escondidinha, e durou apenas 16 dias, conforme bem destacado no Aquela Passagem.

Conclusão

A conclusão mais importante a respeito dessas raras ocasiões em que as milhas rendem juros é essa: deixe o máximo de tempo possível as milhas na conta de seu banco. E, mais do que isso, atente para a regra de ouro do Rodrigo, que diz:

“Milha boa é milha gasta com sabedoria e o mais rápido possível. Não encare suas milhas como um depósito de longo prazo em uma conta poupança, já que a cia pode mudar as regras do programa, passar por dificuldades financeiras ou deixar de voar um destino desejado. Sem contar que algumas dificultam ao máximo a emissão de uma passagem prêmio”.

Quem era participante ativo do Smiles da época da Varig sabe o que o Rodrigo quer dizer…

Desse modo, não encare suas milhas como um depósito de longo prazo na conta de sua cia. aérea. Deixe-a depositada na conta de seu banco/cartão, pois assim você não sofrerá o risco de quebra da cia. aérea, e a consequentemente impossibilidade de uso delas.

Felizmente, hoje, os programas de milhagem tem se aperfeiçoado e se profissionalizado a um nível antes inimaginável – basta dizer que a Multiplus Fidelidade fez recentemente sua oferta pública de ações. Mas não que isso signifique melhora no atendimento aos clientes, como bem destacado nesse post a respeito da TAM e suas incríveis 171 comentários críticas, dos leitores.

Ademais, as possibilidades de resgate de milhas têm se ampliado, de modo que é possível, em vários casos, transferir seus pontos para programas de fidelidade de empresas estrangeiras, o que dilui os riscos de um mau uso – ou mesmo não uso – das milhas.

É isso aí!

Um grande abraço, e que Deus os abençoe!

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13 Responses to O caso (incomum) das milhas “compostas” – milhas que rendem juros (+ milhas)

  1. Blog Boa Viagem (Luiz Jr.) 20 de julho de 2010 at 12:14 #

    Caro Guilherme, seu blog já é mais que referência em meu RSS Reader! Tanto é que este seu artigo me trouxe luz e inspiração para engrossar o caldo de discussão de milhas. Publiquei um artigo no Blog Boa Viagem no qual fiz referencia a renomado conteúdo. O artigo compartilha de 12 simples dicas para acumular mais milhas e creio que vale também como referencia básica para quem deseja criar fontes de rendas de milhas. Agradeço por compartilhar de informações tão valiosas!

  2. Guilherme 24 de julho de 2010 at 7:30 #

    Luiz Jr, obrigado pelos comentários!

    É uma alegria poder ajudar as pessoas a tirar melhor proveito de suas milhas!

    É isso aí!
    Um grande abraço, e que Deus os abençoe!

  3. Peixoto 27 de julho de 2010 at 15:46 #

    Ola hotmar!

    Gostaria de tirar uma dúvida.
    Posso utilizar o esquema de pagar um cartão de credito dentro de outro? exemplo.

    Abro conta no:

    ITAU
    HSBC
    SANTANDER

    1º) Pago minhas contas da casa(aluguel,luz,gas,mercado) no cartão de credito do ITAU.
    2º) Faço o pagamento da fatura ITAU com o “pague contas” do HSBC
    3º) Depois pago a fatura do HSBC no pague contas do santander;
    4º) Finalmente pago o cartão do santander.

    Ou seja ganho milhas no HSBC no santander e no ITAU e ainda ganho dias para aplicar o dinheiro (30 dias + 30 dias + 30 dias)

    É possível?

  4. JOAO 27 de julho de 2010 at 21:08 #

    é possível, mas tem custo… faça bem as contas, pois o pague contas é pago… nem sempre vale a pena…

  5. Guilherme 27 de julho de 2010 at 21:39 #

    Peixoto, como o João disse, é possível. Agora, é preciso fazer os cálculos financeiros para ver se vale a pena. Se você usar as milhas para resgatar trechos longos, pode valer a pena sim. É o que eu costumo fazer.

    Aliás, essa ideia de utilizar cartões cumulativos faz parte de minha estratégia pessoal para turbinar o ganho de milhas. Detalharei essa estratégia num artigo especial. Aguardem!

    É isso aí!
    Um grande abraço, e que Deus os abençoe!

  6. clayde 26 de outubro de 2010 at 14:28 #

    como faço para passar minhas milhas (( 23.000) para o banco do brasil?

  7. Guilherme 27 de outubro de 2010 at 10:41 #

    Clayde, suas milhas estão em outro banco? Se sim, não é possível transferir as milhas de um banco para outro. O que vc pode fazer é transferi-las para programas de fidelidade de cias. aéreas, como TAM, Gol etc. E isso vc pode fazer pela própria Internet, pagando uma tarifa de R$ 20, que será debitada na próxima fatura de seu cartão de crédito.

    É isso aí!
    Um grande abraço, e que Deus os abençoe!

  8. francisca hausherr 4 de março de 2011 at 15:56 #

    gostaria de saber porque a victoria tap nao me mandas e-mail me falando o valor de miles que eu tenho,pois ja tenho alguns anos o cartao victoria miles, miles &more,viajo muito pra o Brasil,e tambem ja viajer outros dentinacao e ate hoje nao recebi nem uma miles. por favor gostaria de saber onde esta as minhas miles.
    muito obrigado,e fico aguardando sua resporta.
    cordialmente amesma.
    Francisca Hausherr

  9. Guilherme 22 de março de 2011 at 12:39 #

    Francisca, sugiro entrar em contato direto com o Victoria TAP: http://www.tapvictoria.com/pt/Homepage/

    É isso aí!
    Um grande abraço, e que Deus os abençoe!

  10. daniel 29 de outubro de 2011 at 0:29 #

    Eu estudo este programas de milhas e eu tenho uma dúvida.

    Por qual motivo não se pode fazer transferência de milhas entre usuários ?

    E se tivesse regras de transferência de milhas entre usuários ?

    Exemplo de regras: máximo, mínimo, grupos fechados de pessoas, intransferível etc.

    Abraços!

  11. Guilherme 30 de outubro de 2011 at 18:10 #

    Daniel, o motivo mais forte é proibir o “comércio de milhas”, prática proibida pelos regulamentos dos programas de milhas aéreas.

    Apesar disso, algumas cias. aéreas permitem a transferência de pontos entre clientes. Exemplo mais recente é o da LAN.

    É isso aí!
    Um grande abraço, e que Deus os abençoe!

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