Por que é tão difícil investir na Bolsa com valores pequenos e de forma regular? Aqui estão 7 motivos.

Eu gosto de ver a Bolsa como um instrumento de poupança a longo prazo, isto é, como uma ferramenta de construção da independência financeira. Dentro desse contexto, eu gosto da metodologia do DCA – dollar cost averaging – que consiste em fazer depósitos mensais a intervalos regulares na Bolsa de Valores. Ou seja, em uma dia fixo de cada mês, comprar, por exemplo, R$ 500 em ações – ou fundo de ações – no home broker. E isso independentemente da alta ou da baixa, seja da ação da empresa, seja do mercado como um todo. É a metodologia adotada pelo INI. Uma variação dessa fórmula, conhecida como value averaging, que foca no aumento progressivo do valor investido, tem tomado minha atenção, pelas vantagens que proporciona em relação ao DCA, conforme expliquei nesse artigo.

Como os depósitos são mensais, e tendo em vista: (a) a possibilidade de o preço da ação cair muito num determinado mês; (b) o dinheiro que vai para os depósitos não poder ser utilizado para o pagamento das contas e despesas corriqueiras; e (c) a necessidade de ter sempre uma boa parcela em renda fixa, não só para saldar eventuais emergências, mas também para aproveitar as quedas do mercado; uma opção que pode ser muito interessante, para diversos investidores, principalmente os iniciantes, é a de aportar valores mensais pequenos.

Essa estratégia de investimento em Bolsa – baseada no preço médio (ou no valor médio), e realizada em valores pequenos, a intervalos regulares – costuma ser bastante criticada, mas é uma estratégia que, se realizada em empresas sólidas, diversificadas, e com bons fundamentos – ou melhor ainda, em fundos diversificados e, de preferência, com baixas taxas de administração -, apresenta, de imediato, dois benefícios. Primeiro, o portfólio total da carteira de investimentos não sofre perdas grandes de um mês para outro, caso o preço da ação caia, tendo em vista uma  estratégia de alocação de ativos que controle o percentual de dinheiro na Bolsa. E, segundo, não faz o investidor perder tanto tempo com trades e oscilações irracionais do mercado.

Porém, existem 7 motivos que fazem com que seja tão difícil investir na Bolsa com valores pequenos, de forma mensal. Vamos então detalhá-los – e contra-argumentá-los.

1. Você não fica rico rapidamente. Esse talvez seja o principal motivo que induz as pessoas a especularem, e a especularem com valores altos. É a ganância do investidor, somada ao imediatismo do resultado, que é típico comportamento consumista. Ou seja, o pior dos dois mundos (ganância + imediatismo). O que se tem é uma mistura explosiva que fará a pessoa a dedicar horas excessivas de sua vida no home broker, angustiada, preocupada, com stop pra cá, stop pra lá, insônia, preocupação. Estresse total. Isso se deve à romântica visão, que todos já devem ter visto, do sujeito que ganhou fortunas especulando. Isso não existe no mundo real. Ou, se existe, é fato raríssimo. A pessoa aporta R$ 10 mil num fundo de ações Vale, e espera, até o final do ano, o dinheiro dobrar. E o dinheiro não dobra. Pior. Quando o saldo do investimento cai para R$ 7 mil, ela decide que, assim que o valor do fundo “empatar” com o valor inicial, ela irá sacar o dinheiro. Ao terem esse visão errada de quererem ficar ricas rapidamente, as pessoas se esquecem de um dos elementos vitais para a construção de riqueza: deixar o tempo trabalhar. E outro que é tão importante quanto o tempo: a paciência. A mágica dos juros compostos não funciona se não houver um horizonte de tempo razoável para os pés de dinheiro começarem a dar seus primeiros frutos, nem se o investidor atrapalhar o plano que ele próprio criou, comprando na alta e vendendo na baixa.

Quem investe valores pequenos, com regularidade, e de forma gradual, tem esses dois elementos – paciência e tempo – a seu favor. E tem as condições favoráveis para conquistar um patrimônio muitas vezes superior ao do ganancioso, impaciente e apressado.

2. Quem, principalmente os iniciantes, investe valores altos de uma só vez, normalmente fica só nisso. Ele faz uma única aplicação, e fica torcendo para o investimento subir. É o investidor-torcedor.  A pessoa fica nervosa, e se esquece de um dos princípios fundamentais do investimento em Bolsa, que é o investimento regular. Mesmo grandes investidores profissionais, como W. Buffett e Lírio Parisotto, aproveitam os momentos de baixa de uma ação ou mercado, para aumentarem o valor de suas participações acionárias. Essa tática pode ser replicada pelos investidores não-profissionais: basta fazer um aporte adicional de valor modesto em suas ações, reforçando sua posição naquela empresa ou fundo de ações, quando o mercado apresentar uma queda acentuada.

Quem investe valores altos na Bolsa, e vê a rentabilidade despencar, já pensa em sacar o dinheiro assim que a ação “empatar” com o valor originário, esquecendo-se de que é justamente no momento de baixa que se encontra a oportunidade para comprar mais ações, a um preço mais baixo. A questão não é investir e “deixar pra lá”, mas sim investir e acumular ações. E acumular ações é muito mais fácil quando se tem uma estratégia de alocação de ativos balanceada com diferentes classes de investimentos.

3. Investir valores pequenos na Bolsa é difícil porque requer persistência. Persistência para acumular um lote de ações, por exemplo. Quem investe R$ 500 por mês em cotas do BOVA11, por exemplo, sabe que poderá comprar, no máximo, 7 ou 8 cotas num mês, nos preços atuais. E que, para comprar um lote inteiro, talvez precisa de 10 a 12 meses, talvez até mais, se o mercado entrar numa onda de alta. A persistência também deve ser vista sob o lado das rentabilidades mês a mês. Se você investe R$ 10 mil de uma só vez, e a sua ação sobe 10% num mês, você está ganhando R$ 1 mil. O sujeito que investe R$ 500, com os mesmos 10% de alta, só estará ganhando R$ 50. É difícil ver um ganho, em termos absolutos, tão pequenos, mas essa tática requer paciência, de saber que o que vai importar mesmo, no final das contas, é a rentabilidade da carteira após 3, 5, 10 anos, e qual foi o preço médio do investimento, ao longo do tempo, comparado com o preço atual da ação, e também a quantia de dividendos que caíram na conta durante todo esse período, caso se opte pelo investimento em ações individuais.

A persistência é mais difícil de obter porque requer reiteração de atos. Desistir é muito mais fácil porque basta um ato só, o de vender as ações, que tudo está resolvido.

4. O (falso) problema dos custos de corretagens. Esse é um problema que costuma ser colocado da seguinte forma: o sujeito que compra R$ 5 mil de uma ação, e paga uma corretagem de R$ 10, arca com um custo operacional de 0,2%, que é quanto representa, em termos percentuais, a corretagem sobre o valor investido. Já o investidor que compra R$ 500, com uma corretagem de R$ 10, estará pagando 2% de custo operacional. Estou desconsiderando outros encargos embutidos, como emolumentos e ISS, além da tarifa mensal de custódia e eventual custo com TED/DOC. Logo, sob esse ângulo, investir valores pequenos seria ruim porque o custo seria oneroso demais, assemelhando-se a um investimento em fundo de ações, com taxa de administração de 2%.

O argumento é equivocado sob dois aspectos. Primeiro, porque define a estratégia em função dos custos, quando esse deve ser apenas um dos critérios a serem analisados, juntamente com outros: disponibilidade de tempo do investidor, capacidade de aportes, empresas escolhidas, disciplina etc. Ademais, confunde taxa de administração com taxa de corretagem, o que também é errado, pois a corretagem se assemelha mais com a taxa de carregamento cobrada nos planos de previdência privada do tipo PGBL/VGBL, onde essa taxa incide sobre cada valor aportado.

Devemos considerar a existência, no mercado, de corretagens que podem impactar de modo menos severo o valor investido, bastando para isso que o investidor saiba escolher a corretora adequada. No exemplo acima, no caso de ordens executadas no mercado fracionário, existem corretoras que cobram R$ 5,90, R$ 5, R$ 4,40 e até menos, o que diminui consideravelmente o impacto da corretagem sobre o valor investido.

Ademais, o efeito das corretagens é diluído no longo prazo, e, para quem faz poucas operações no ano – 12 a 20 ordens de compra, por exemplo – chega a ser irrelevante, depois de 5, 10, 15 anos de investimentos contínuos. O exemplo do Arnaldo confirma a correção dessa assertiva. Na crônica, ele realizou 156 ordens de compra, com corretagens de R$ 20 cada, o que totalizou R$ 3.120 em gastos com custos. Mas isso é irrelevante perto do quase R$ 1 milhão que ele acumulou ao longo dos 14 anos de investimentos – e olha que ele gastou numa tarifa elevada de corretagem para os padrões atuais.

5. Não tem o que falar para amigos e parentes em rodas de conversa. Esse é um dos principais entraves que impedem o investidor pessoa física de investir, com regularidade, valores baixos: é a falta do que falar. Enquanto todos os seus amigos dizem que fizeram altos trades na Bolsa, aportaram R$ 40 mil, e esse montante virou não sei quanto em poucos meses, você não tem assunto para falar. É da natureza do ser humano gostar de se exibir, gostar de impressionar os outros. Quando se trata de Bolsa, então, isso fica ainda mais patente, pois você junta a vontade do seu amigo de se exibir com a vontade de ele falar para você o quanto ele foi “bom” num trade.

Você com certeza conhece alguém que diz que aplicou quantias fabulosas na Bolsa, e que deram retornos fantásticos. Tome cuidado. Se ele é realmente tão bom assim na Bolsa, porque ele continua trabalhando? Ele poderia muito bem largar o emprego e viver de trades, afinal, o cara afirmou que é tão bom nisso. Ou então, cadê os resultados dos trades espetaculares? Ele comprou algum carrão, algum imóvel… enfim, alguma coisa, com o que ganhou?

O que eu suspeito é que deve ter muita gente por aí que mente, quando se trata de falar sobre ganhos em Bolsa. Afaste-se dessas pessoas, ou não dê atenção ao que elas falam. Palavras ocas não atraem ninguém, conforme destaquei em um artigo.

Investir em Bolsa e não ter o que falar para seus amigos não deve constituir jamais motivo de vergonha. Pelo contrário, se der, continue quieto. Você deve se preocupar mais com seus planos de construção de riqueza do que em atender às expectativas dos amigos. Ponto. Deixe eles falarem o que quiserem. O que você precisa não é falar, você precisa é agir.

6. Porque a simplicidade assusta. Muita gente acha que, para ganhar na Bolsa, precisa ter o domínio de complexos estudos sobre o mercado, sobre as variáveis macroeconômicas etc., quando, na verdade, o que basta é a combinação de escolha de boas empresas, bem diversificadas, com a regularidade nas aplicações. É uma tática simples, mas que funciona. Pode não ser a estratégia ótima, mas é uma estratégia boa. E o ótimo, às vezes, é inimigo do bom. Melhor ainda se você simplificar na escolha de suas ações, comprando uma carteira de ações bem diversificada, como é o caso do Viver de Renda, que conta, em seu blog, a sua jornada rumo à independência financeira com a simples compra de PIBBs.

7. Não existe o hábito do brasileiro de poupança. Só se poupa quando sobra dinheiro ao final do mês, deduzidas todas as contas e despesas. O curioso é que, para comprar carro, apartamento, geladeira, TV de plasma de 42 polegadas, o brasileiro assume o pagamento de um financiamento (ou de vários financiamentos), a juros exorbitantes, sob o argumento de que a prestação cabe no bolso. Ou seja, quando é para comprar um bem de consumo, que vai se depreciar com o tempo (salvo, via de regra, imóveis), e que um dia será substituído, a pessoa se dedica de todo coração, mas quando se trata de “comprar” a própria aposentadoria e independência financeira, a pessoa “torce o nariz” e acha que não vai dar certo, porque seria preciso investir uma grana alta, teria que ficar acompanhando a todo tempo o mercado, investir valores pequenos seria muito custoso etc.

Em outras palavras: quando se trata de comprar um eletrodoméstico ou um carro, o brasileiro utiliza o financiamento sob o argumento de que a prestação cabe no bolso. Agora, quando se trata de financiar a própria independência financeira, com uma prestação que igualmente cabe no bolso, o brasileiro fica com um pé atrás e recua, achando que ninguém consegue nada investindo R$ 400 todo mês. Cadê a coerência!?

Conclusão

Descrevi esses sete motivos para combater a idéia de que não valeria a pena investir na Bolsa com valores pequenos. Muitos desses motivos têm razões de ordem cultural (como a falta de hábito de poupança do brasileiro), outros têm raízes de fundo emocional (investir quantias pequenas não torna ninguém rico…da noite para o dia).

O que o investidor precisa fazer, para ter êxito na Bolsa, é ter uma boa estratégia de alocação de ativos, diversificando seus investimentos em diferentes classes (renda fixa, imóveis ou fundos imobiliários, ações etc.). Além disso, é preciso ter paciência, estudar o mercado e as empresas nas quais deseja se tornar sócio, e ter as emoções sob controle. A partir de então ele perceberá que investir na Bolsa, como instrumento de financiamento do sonho da aposentadoria própria, com prestações mensais que cabem no bolso, é uma ideia viável.

É isso aí!

Um grande abraço, e que Deus os abençoe!

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6 Responses to Por que é tão difícil investir na Bolsa com valores pequenos e de forma regular? Aqui estão 7 motivos.

  1. Henrique Carvalho 29 de junho de 2010 at 9:54 #

    Guilherme,

    Disciplina, Paciência e Aprimoramento Constante são características dificilmente encontrada em iniciantes, já que a mídia e algumas pessoas tendem a passar a idéia errada de que é fácil e rápido ficar rico investindo.

    Seu artigo mostra com clareza como é importante dar valor à estas características para prosperar continuamente no mercado.

    Grande Abraço!

  2. David 29 de junho de 2010 at 12:20 #

    Não tem o que falar para amigos e parentes em rodas de conversa. (hehehe) Esse foi de longe o motivo mais peculiar, e realmente, caso existam pessoas assim, é de rir pra não chorar.
    Abraço

  3. Luis Otávio 30 de junho de 2010 at 9:39 #

    Hotmar, tudo bem ?

    Além de colocar a bolsa como um objeto para independência financeira, seria interessante colocá-la também como um meio de alavancagem para atingir alguns objetivos.
    Por exemplo, eu, estou recebendo 10x fixas de X para compra de 1 carro, como não irei comprar hoje o carro e nem amanhã e provavelmente somente no ano que vem, eu estou investindo 80% desse X na bolsa para que o rendimento até lá, seja maior que a renda fixa.
    Coloco essa % tão alta porque vejo os indicadores financeiros favoráveis no Brasil.

    Abração.

  4. gustavo 3 de julho de 2010 at 8:31 #

    Ótimo artigo, acho que essa é uma grande dificuldade minha no momento. Não sou muito fã da diversificação, mas não há como fechar os olhos para algumas oportunidades do mercado. Doido para comprar algumas boas pagadoras de dividendos, mas a dinheiro curto dificulta muito isso. Vamos em frente.

  5. Alan 3 de julho de 2010 at 14:36 #

    @Luis Otávio

    Você está se arriscando bastante. Um ano é muito pouco para entrar e sair na bolsa de valores.

  6. Guilherme 4 de julho de 2010 at 15:19 #

    Finalmente começando a responder a todos os ótimos comentários recebidos nos últimos dias! 🙂

    Henrique, David, Luís Otávio, Gustavo e Alan, obrigado pelos comentários!

    É isso aí!
    Um grande abraço, e que Deus os abençoe!

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