A escolha qualitativa

Quando você vê o seu filho de 3 anos mexendo numa parte da sala onde estão objetos de decoração, o que você diz para ele?

“- Filho, não fique mexendo aí, porque é perigoso!”

Será que ele conseguirá controlar a vontade de não continuar fazendo arte no local onde está?

E se você disser:

“- Filho, venha brincar aqui perto do sofá com seu carrinho, que é mais divertido e tem mais espaço!”

Será que a probabilidade de ele aceitar a sua ordem aumentará?

Provavelmente sim.

Vamos mudar de cena.

Você vai até o caixa automático e, no extrato, percebe que seu salário acabou de cair na conta. Feliz da vida, você resolve sacar só R$ 40. Aí, passa em frente a uma vitrine com um sapato em promoção e diz para si mesmo(a):

“- Eu não vou comprar esse sapato, afinal, não preciso dele”.

Até quando você conseguirá resistir se, no dia seguinte, passar em frente a essa mesma loja e verificar que o sapato continua em promoção?

E se você disser, no seu monólogo interno:

“- Ao invés de comprar esse sapato, eu vou usar o dinheiro para investir na Bolsa de Valores, fazendo a compra assim que chegar em casa”.

Você conseguirá domar sua vontade de comprar o sapato com mais intensidade? Provavelmente sim. Mas por quê?

Porque não fazer alguma coisa  requer de nós um controle de vontade muito grande. Em outros termos, exige um permanente autocontrole. Daí porque a solução mais apropriada é, ao invés de dirigirmos a nossa atenção para não fazer alguma coisa, focar nossa energia em fazer algo, desempenhar alguma atividade. Acredito que isso também tenha um pouco a ver com a própria natureza humana, tendo em vista que, como já dizia Nuno Cobra, no ótimo livro “A semente da vitória”, fomos concebidos para nos movimentarmos, atuarmos, isto é, agirmos contra a sensação de inércia. E daí também o motivo de a inércia ser tão perigosa.

Isso não passou despercebido por Loehr e Schwartz, que, no livro Envolvimento total: gerenciando a energia, e não o tempo – resenha publicada recentemente, esclarecem o que vem a ser a “escolha qualitativa”:

“O ato de conceber um comportamento positivo para se preparar para uma determinada situação é, às vezes, chamado de “escolha qualitativa”.

E, a partir daí, é muito mais fácil orientar comportamentos, porque estamos agindo numa determinada e específica direção. Direcionar nossa vontade para fazer algo é bem mais fácil do que direcionar nossa vontade para não fazer algo. E a escolha qualitativa funciona à perfeição na área das finanças pessoais.

Comprar um passivo melhor ao invés de outro passivo. Você vai ao mercado e diz para si mesmo que não comprará novamente aquela conserva de palmitos muito cara. A melhor saída para resistir à tentação de passar ileso pela seção de conservas é, ao invés de não levar nada, levar uma conserva de palmito de outra marca, mais barata, ou então uma conserva de milho, desde que mais barata também.

Investir num ativo ao invés de comprar o passivo. Usando o mesmo exemplo dado inicialmente, para resistir à tentação de gastar dinheiro com coisas fúteis, você pode usar a seguinte estratégia: “da próxima vez que o salário cair na conta, vou depositá-lo imediatamente numa conta-poupança e, além disso, vou utilizar parcela dele para investir num fundo de ações. Tudo isso para evitar comprar aquela peça de roupa em promoção”.

Investir no mesmo ativo investido anteriormente, mas com um comportamento positivo. Muita gente saiu machucada da Bolsa depois da crise de 2008, e nunca mais voltou. Elas pensam: “não vou investir nunca mais na Bolsa, posso perder dinheiro”. O problema não é a Bolsa, mas a mentalidade. É o comportamento que tem que ser mudado – aliado a outros fatores, como mudança de estratégia e, talvez, aportando valores menores e tendo mais cautela. Assim, ao invés de a pessoa dizer que nunca mais irá investir na Bolsa, ela simplesmente pode dizer: “vou investir na Bolsa, aportando R$ 500 mensais, para o longo prazo. Se a Bolsa tiver em crise, não tem problema, já que estou aportando pouco dinheiro mesmo. Aliás, eu vou é comprar mais, já que as ações estão mais baratas”. Trata-se, sem dúvida, de uma escolha qualitativa: ela concebe uma atitude positiva diante de uma situação em que antes só lhe restava como alternativa não investir.

Portanto, quando você estiver diante de uma situação em que, de início, lhe exigiria a abstenção de um comportamento, pense sob outra perspectiva, e passe a imaginar um comportamento positivo, um fazer, para substituir o ato de não-fazer. Isso não só lhe permitirá ter o melhor direcionamento de sua vontade, como também lhe abrirá um leque mais amplo de oportunidades e de escolhas.

Para encerrar, deixo a vocês a recomendação de leitura de um excelente artigo (em inglês), escrito no blog Litemind, com o sugestivo título de Framing Changes Everything, que trata da mesma questão: a maneira como você enquadra um problema influencia profundamente as soluções que você obtiver. Agradeço ao amigo Henrique Carvalho, autor do excelente blog HC Investimentos, pela valiosa dica desse interessante blog estrangeiro! 😀

É isso aí!

Um grande abraço, e que Deus os abençoe!

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6 Responses to A escolha qualitativa

  1. Henrique Carvalho 5 de maio de 2010 at 7:44 #

    Belo texto Guilherme!

    Recomendo para todos fortemente a leitura deste site (Litemind) caso queira aprimorar sua inteligência, memória e produtividade.

    Todos os artigos, assim como aqui no Valores Reais, são muito bem escritos e bem leves e prazerosos de se ler. Vale muito a pena acompanhar.

    Grande Abraço!

  2. Luciano Passuello 6 de maio de 2010 at 7:20 #

    Olá Guilherme,

    Fico feliz que tenha gostado do Litemind.
    Apesar de ser em inglês, o blog não é “estrangeiro” não — é bem brasileiro! 😉

    Um abraço!

  3. Guilherme 6 de maio de 2010 at 7:51 #

    Grande Henrique, suas palavras são sempre estimulantes e que me motivam a continuar a escrever no blog! Obrigado de forma dupla – também pelo blog Litemind!

    Luciano, rapaz, que surpresa legal! E olha que trocamos emails em inglês!!!! rsrsrs

    É ótimo saber que um dos blogs mais surpreendentes sobre inteligência, memória e produtividade, como bem ressaltado pelo Henrique, é na verdade obra de um autor prata da casa. Parabéns pelo belo trabalho à frente do Litemind!

    É isso aí!
    Um grande abraço, e que Deus os abençoe!

  4. Henrique Carvalho 6 de maio de 2010 at 21:55 #

    Só tenho a agradecer por estar passando minha juventude na era da informação.

    É impressionante como a internet aproxima pessoas e conhecimento. Hoje é possível se aprender sobre tudo. Basta saber procurar e se dedicar.

    Vocês não imaginam minha satisfação ao saber que o Litemind, escrito em inglês (bem fluente por sinal), era dirigido por um brasileiro.

    É muito bom poder trocar tanta informação sem nem mesmo sair do nosso lar.

    Grande Abraço à todos!

  5. Guilherme 7 de maio de 2010 at 0:22 #

    Henrique, concordo!

    Aliás, blogs como o Litemind e o HC Investimentos são a prova eloquente de que brasileiros têm um potencial e tanto para se destacar na geração de conteúdo de conteúdo superior na Internet em nível mundial.

    É isso aí!
    Um grande abraço, e que Deus os abençoe!

Trackbacks/Pingbacks

  1. Fernando Oliveira - 5 de maio de 2010

    A escolha qualitativa – http://migre.me/C1CI

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