O paradoxo do sistema financeiro: quanto mais se paga, menos se recebe

Pense numa viagem para Paris. Você tem duas opções: pode viajar na classe econômica, mas também pode se dar um pequeno-grande luxo de comprar uma passagem na classe executiva. A viagem na classe econômica é mais barata, no entanto, também tem menos benefícios e serviços. Com efeito, se você pagar a mais pela viagem na classe executiva, você receberá mais serviços e vantagens: um cardápio com mais opções, poltronas mais confortáveis, um serviço de bordo com atendimento mais personalizado. Tais vantagens não se restringem à viagem em si, já que no desembarque as malas serão despachadas com prioridade, e até suas milhas serão creditadas em valores maiores. E, é claro, antes de comprar as passagens você acompanha assiduamente o blog Aquela Passagem.

Mude de perspectiva. Do céu à terra. Agora estamos na compra de supermercado. Com sua lista de compras devidamente preenchida,  você está diante da seção de frutas, verduras e legumes. Você também tem duas opções: a dos alimentos orgânicos e/ou frescos e a dos alimentos não-orgânicos. Geralmente, os alimentos orgânicos são mais caros, mas existe um benefício por trás deles, que é consumir vegetais de maior qualidade e com mais nutrientes, beneficiando diretamente sua saúde, dentre outros benefícios.

Nova visão, novo panorama. Corte a cena. Do supermercado para o terreno das finanças. Agora você está no banco. Com aquela fila “básica” de pessoas aguardando atendimento, você se depara com um cartaz contendo os fundos de investimentos bancários. Há desde fundos que cobram 1% a.a. de taxa de administração, até fundos que chegam a cobrar 4% a.a. de taxa. Aí você se questiona: será que o fundo em que se paga mais oferece um serviço ou rentabilidade melhor?

Comparando a última situação com as duas anteriores, você certamente já deve ter chegado a uma conclusão desconcertante, que chega a ser paradoxal: no sistema financeiro, quanto mais se paga, menos se recebe.

Tal conclusão não passou despercebida de John Bogle, do qual já havíamos falado anteriormente, que sintetiza na seguinte frase o pensamento central que embasou a criação desse artigo que agora vocês estão lendo:

“O setor financeiro não somente é o maior setor da economia, como também é o único setor no qual os clientes estão longe de obter por aquilo que pagam. Com efeito, os investidores, no total, recebem exatamente aquilo pelo que não pagaram (de forma paradoxal, se não pagarem nada, eles recebem tudo).”

A questão não é que o sistema financeiro não agregue valor à sociedade. Pelo contrário, existem milhões de pessoas no mundo inteiro que trabalham como gerentes, consultores de investimento, corretores, que encontram no sistema financeiro o meio de se sustentar, por meio da execução de serviços de inegável valor para a sociedade, tais como a facilitação de alocação de capitais, entre milhões de pessoas, o fornecimento de extraordinária liquidez, a criação de novos instrumentos financeiros etc. A questão é que os custos para gerar esses benefícios acabaram atingindo um ponto de serem maiores que os próprios benefícios – isso segundo o autor, John Bogle.

De fato, não é preciso olhar muito longe para perceber que ele tem razão. Basta você dar uma olhada ao seu redor para chegar à mesma conclusão. Aliás, basta olhar para você mesmo, para a sua própria vida financeira, para entender o que John Bogle, do alto da sabedoria de seus 80 anos, quer transmitir. Pense, por exemplo, na anuidade do seu cartão de crédito. Será que vale a pena pagar essa despesa, com tanta concorrência no mercado de cartões e tanta facilidade para cancelá-la?

O mesmo vale para a cesta de mensalidades bancárias que todo mês é debitada de sua conta. Pode parecer um valor pequeno, R$ 10, R$ 20, R$ 30, mas será que o pagamento dessa quantia está te fazendo esperar menos na fila do banco?

E isso sem falar nos investimentos, claro. Pense no mercado de ações: para quê pagar R$ 20 de taxa de corretagem numa operação de R$ 2 mil, se tem corretora por aí cobrando metade, às vezes metade da metade, desse valor? Penso que a comodidade de operar por certa corretora que cobra a mais não paga a economia que se tem com o investimento por uma corretora mais barata, já que não existe diferença no modo de operar entre uma e outra: ambas podem ser realizadas de sua casa. E isso sem contar em outros eventuais benefícios advindos da escolha de uma corretora mais barata.

E quando eu falo em custos, isso não inclui apenas a contraprestação por serviços privados, mas também os famigerados tributos: impostos, taxas etc. Um planejamento tributário nos investimentos é fundamental para conseguir receber a maior fatia líquida possível do retorno sobre seus investimentos, desde que feito sob bases legais, evidentemente. Aqui também vale a máxima de Bogle: quanto mais tributo se paga, menos se recebe.

Esteja, portanto, atento aos custos dos serviços financeiros que contrata, e somente vá em busca daqueles cuja remuneração você considere justa pela qualidade do retorno que te proporciona. Porque, quanto mais você pagar, menos você irá receber.

É isso aí!

Um grande abraço, e que Deus os abençoe!

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6 Responses to O paradoxo do sistema financeiro: quanto mais se paga, menos se recebe

  1. Flávio 20 de março de 2010 at 0:40 #

    Prezado Hotmar, poucos bancários conseguiram entender o significado da famosa frase: “SE NÃO PODE CONTRA ELES, JUNTE-SE A ELES” Pois note bem, quando as taxas de juros eram exorbitantes e a inflação era alta, os bancos ganhavam dinheiro com floating (ganho de tesouraria) e quase não emprestavam. A medida que o ganho com floating diminuiu e muitos bancos mal administrados fecharam e/ou faliram, os restantes começaram a criar dificuldades para vender facilidades (serviços) e cobrar por isso (cartão de crédito e fundos de investimentos são grandes exemplos). A partir da estabilização (Plano Real), descobriram sua verdadeira vocação de instituição financeira e começaram a ganhar dinheiro com crédito. Mas o crédito tem risco da inadimplência e por isso criaram modalidades com menos risco, como empréstimos consignados e modalidades com alienação fiduciária, bem como investiram em cadastro e informação. Hoje, os bancos também ganham muito dinheiro com seguros e previdência que são contratos de longo prazo. Portanto, o exemplo do investimento mensal na Vale durante anos com rendimento espetacular, cabe perfeitamente nos três maiores bancos privados do País: ITAÚ, BRADESCO e UNIBANCO (hoje ITAÚ). O Bancário que aplicou 10% dos seus vencimentos minguados nesses três bancos durante 20 anos, hoje, é um milionário.

  2. hotmar 20 de março de 2010 at 12:39 #

    Flávio, eu endosso o seu raciocínio. Uma das melhores formas de tirar proveito dos lucros literalmente bilionários dos grandes bancos brasileiros é se associar a eles, mediante a compra de suas ações.

    Aliás, eu aposto no setor de serviços financeiros como uma das grandes locomotivas da economia brasileira nessa década de 10.

    É isso aí!
    Um grande abraço, e que Deus os abençoe!

  3. Reverson 21 de março de 2010 at 11:51 #

    Hotmar,
    Como sempre, mais um ‘post’ claro, limpo e com “sustância”, como se diz aqui no Nordeste.
    Parabéns pelo blog e por seu conteúdo, que é riquíssimo.
    Que Deus continue a te abençoar nesta tarefa.
    Abraços!

  4. hotmar 21 de março de 2010 at 12:28 #

    Reverson, obrigado pelos comentários! E gostei do termo, já que um dos objetivos do blog é esse mesmo: ter “sustância”. 😀

    É isso aí!
    Um grande abraço, e que Deus os abençoe!

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