Reprogramando o cérebro para tomar decisões inteligentes de longo prazo

Por que é maior a probabilidade do brasileiro médio de utilizar os R$ 1.500 que recebeu como parcela do 13º salário na compra de uma TV de LCD do que no investimento em sua aposentadoria financeira, recebendo os benefícios dos juros compostos? E por que a prática de exercícios físicos geralmente só é iniciada após a pessoa constatar que tem problemas de saúde?

Estudos conduzidos por especialistas na área das ciências comprovam que o ser humano têm a mente programada para lidar com situações de risco que estão bem à nossa frente, e não com riscos que poderão ocorrer no longo prazo se não tomarmos as atitudes corretas. Pode parecer estranho, mas é a pura constatação da realidade: soluções com fortes benefícios de curto prazo – como o exemplo da compra da TV de LCD – são muito mais atrativas que soluções que nos apresentam menos benefícios imediatos – mesmo que esses benefícios se multipliquem de tamanho anos depois (imagine a quantidade de coisas, e não só de TVs de LCD, que você conseguirá comprar com a parcela extra do décimo-terceiro salário poupado e investido).

Essas foram algumas das conclusões de um estudo muito útil feito por psicólogos, cujo resumo pode ser lido nesse ótimo artigo (em inglês, mas de fácil entendimento e curto): human decision-making: a scary thing.

De uma maneira geral, o ser humano se comporta assim: apresentar soluções de curto prazo para problemas imediatos. Dessa maneira, os riscos de longo prazo de nossos comportamentos são difíceis de “visualizar”, simplesmente porque não apresentam benefícios imediatos. Qual é o benefício imediato de poupar e investir R$ 100? Uma atitude concreta hoje de planejar a aposentadoria financeira amanhã diminuirá consideravelmente os riscos de termos uma velhice desamparada, mas quem se preocupa com isso hoje em dia? Não há benefícios imediatos.

O mesmo se pode dizer da saúde. Como o nosso blog também é dedicado à temática de comportamentos de vida que conduzam a um estilo harmonioso de viver, muitos de nossos artigos enfatizam a importância de se cultivar hábitos simples, mas poderosos para o prolongamento da vida, como dormir bem, se alimentar adequadamente, praticar exercícios físicos e ouvir músicas etc.

Acontece que a nossa vida diária é tão corrida, tão cheia de afazeres para tão poucas horas, que geralmente só nos deparamos com a importância de diminuir o ritmo depois de alguma coisa quebrar o ritmo, como um acidente, uma doença, ou qualquer outra situação inesperada que provoque suspensão temporária de atividades. A prática de exercícios físicos só ocorre depois de um problema cardíaco, quando os riscos de ter outro ataque já são bem mais claros agora. Essas pessoas sabem do valor e da importância de uma atividade física regular, elas não são, nos dizeres do estudo, tolas ou bobas, são apenas humanas.

Orientações práticas para vencer a barreira da mente “burra”

David Allen já dizia, com razão, que a nossa mente é burra, ela não tem noção de passado ou de futuro, só de presente. É por isso que, quando nos lembramos que temos que comprar açúcar no mercado, nossa mente sempre nos dará esse alerta enquanto não transferimos tal compromisso para o papel. Enquanto isso não tiver sido de alguma forma registrado fora de nossa mente, ela continuará a nos perturbar a todo momento com esse lembrete: “compre açúcar”,  “compre açúcar”, “compre açúcar”, “compre açúcar”…

Sabendo que o cérebro humano foi programado para lidar com situações de curto prazo, há duas orientações práticas para torná-lo uma ferramenta eficiente que nos auxilie nos projetos de longo prazo, diminuindo os impactos de riscos futuros que podem nos atingir de forma significativa e, por consequência, diminuir a qualidade de nossa vida futura.

O primeiro é ter consciência. Nós temos que fazer uma pausa de nossas atividades diárias, refletir sobre decisões que podem nos beneficiar a longo prazo, e estabelecer prioridades e projetos para cumpri-las. Esforços são necessários, já que nossa mente trabalha com a regra de trabalhar no curto prazo. No mundo dos investimentos, para ter uma vida financeira no futuro a mais tranquila possível, é absolutamente indispensável caminhar pelas trilhas de uma boa educação financeira. Nesse sentido, recomendo a leitura de um artigo que escrevi para o Dinheirama, comentando 7 benefícios da educação financeira.

O segundo passo é criar rotinas. Me diga uma coisa: por que você, quando acorda, ou antes de dormir, vai escovar os dentes? Você pensa a respeito de tal atitude? Não, você escova os dentes porque incorporou essa prática à sua rotina. Isso já virou um hábito tão arraigado em suas atividades que você deixou de pensar nela. Escovar os dentes, definitivamente, não é divertido, e você não pensa ao fazer essa atividade, porque, se pensasse na atratividade dessa atividade, pensaria duas vezes, e correria até o risco de não praticá-la se não tivesse a consciência de sua importância para a sua saúde bucal e a rotina de fazê-la todos os dias.

No campo das finanças pessoais, várias, realmente várias, são as atitudes que você pode incorporar e transformar em rotinas para vencer a barreira da mente burra: anotar cada gasto que realiza, colocar suas despesas em débito automático, separar uma parte do salário para investimentos assim que o din-din cair na conta, colocar até seus investimentos em crédito automático, fazer um balanço mensal de seu orçamento doméstico, e assim por diante.

Todas essas atividades também desenvolvem outra habilidade, poderosa para fazer você vencer nos negócios da vida: disciplina. E o curioso é que esses novos hábitos acabam sendo um dos pilares de sustentação para o alcance das metas, como descrevi em outro artigo para o Dinheirama, sobre o grande segredo de ter metas financeiras.

Tudo isso, é claro, nos ajudará também a trabalhar melhor nossas emoções, uma vez que temos um péssimo hábito de não estimar corretamente a probabilidade de ocorrência dos eventos, dando muito peso a eventos de baixa probabilidade – por exemplo, não viajar de avião por medo de o avião cair – e dando pouco peso a eventos de alta probabilidade – por exemplo, subestimar os riscos de osteoporose na terceira idade ou problemas cardiovasculares e, por conta disso, não desenvolver hábitos alimentares regulares no presente. Isso ocorre porque temos tendência a nos envolver emocionalmente na lembrança de eventos passados.

Em conclusão: duas são as forças que atuam como aliadas suas na resolução dos problemas que envolvem superação de riscos a longo prazo. Primeiro, tenha consciência dos fatos que interferem ou poderão interferir na qualidade de sua vida presente. E, segundo, crie rotinas para diminuir/eliminar tais riscos, de modo que você possa viver sua vida de forma mais completa possível, tanto no aspecto financeiro, quanto no não-financeiro. 😀

É isso aí!

Um grande abraço, e que Deus os abençoe!

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2 Responses to Reprogramando o cérebro para tomar decisões inteligentes de longo prazo

  1. Lucas 28 de fevereiro de 2010 at 20:28 #

    Muito bom.

    Me lembro de um artigo em que se propunha o seguinte exercício para uma série de crianças (pequenas mesmo): oferecia-se uma barra de chocolate a cada um e se explicava que caso eles não comecem o chocolate nós próximos 10 minutos ao fim deste tempo eles ganhariam mais 1 barra, ficando assim com 2 barras.

    A esmagadora maioria dos participantes comia a barra assim que ela lhe era entregue, e se verificou que quanto mais velha a criança, maior a tendência a ter um comportamento não tão imediatista.

    Olhando o exemplo dado por você da TV de LCD (que se estende à carros, roupas e acessórios caros e supérfluos) vemos que muitos continuamos “crianças”, só se muda o “chocolate”.

    Abraços

  2. hotmar 3 de março de 2010 at 20:09 #

    Lucas, é ótimo esse exercício do chocolate. Inclusive, citei-o numa conversa que tive com um amigo recentemente.

    De fato muitas pessoas continuam “crianças”, só mudando o “chocolate”.

    É isso aí!
    Um grande abraço, e que Deus os abençoe!

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