Em busca do tesouro perdido: a reconexão aos seus valores interiores

Já faz algum tempo que venho realizando atividades de escrita na Internet. Como já havia falado em outros posts, comecei a minha participação em fóruns de discussão na Internet no (quase) remoto ano de 2003, logo, há 7 anos atrás. Portanto, embora a atividade de escrever em blogs seja relativamente recente (tenho esse blog desde o ano passado, e mantenho um blog sobre tecnologia desde 2006, o Blog do Fórum PDA Brasil), a atividade de escrever online remonta há mais tempo.

Na verdade, a gente começa a escrever na Internet usando emails, e, considerando essa afirmativa como válida – tendo em vista que o email é essencialmente uma atividade de comunicação por meio da palavra escrita, tais como fóruns e blogs – minhas atividades de escrita como meio de comunicação coletiva – e não simplesmente interpessoal, envolvendo apenas emitente e receptor – começaram alguns anos antes, com participação em listas de discussão, em meados do final dos anos 90, quando a Internet ainda se movia a base de carvão a lenha, a base de linha telefônica (com os nada discretos e ensurdecedores barulhos de modem).

Antes da Internet e de computadores, eu gostava de usar cadernos para escrever, cadernos em que eu registrava minhas impressões acerca dos fatos que presenciava, e também como importante e fundamental peça de estudo. É evidente que a escrita é uma atividade quase que consectária da leitura, isto é, quem lê bastante quase sempre gosta de escrever bastante, e isso é um ponto que também se aplica às minhas atividades do dia-a-dia.

Já falei anteriormente que as últimas semanas têm sido bastante proveitosas no desempenho dessa atividade, uma vez que tenho lido livros de conteúdo excelente, cujas resenhas estão sendo, gradativamente, publicadas aqui no blog. Essa “nova onda” de leitura proveitosa muito me fez lembrar a leitura de grande densidade que fazia em meados dos anos 90, quando de fato comecei a explorar mais e melhor a leitura de jornais (Folha de S. Paulo, principalmente) e revistas (Superinteressante, Revista Info, Veja, Mundo Estranho e tais), ou seja, leituras desvinculadas do compromisso com o estudo e com o trabalho, e mais relacionadas – ainda que inconscientemente – à promoção do crescimento pessoal.

Onde quero chegar? Simples. Estou percebendo a ocorrência de um processo de reconexão com antigos hábitos prazerosos e úteis, onde ler se fazia apenas com o objetivo de saber mais o que ocorre à volta de nosso mundo, à volta de nossos valores, à volta de nossos hobbies. Parece que, com o transcurso do tempo, nossas atividades de leitura vão ficando cada vez menos descompromissadas e cada vez mais vinculadas a algum tipo de obrigação: é a leitura de livros para o vestibular, a leitura de livros para a faculdade, a leitura de livros para se manter atualizado no trabalho, a leitura de livros para a reciclagem profissional, e assim por diante.

O problema não é simplesmente a substituição de uma leitura por outra, mas sim o modo pelo qual vamos mudando o preenchemos das nossas horas livres. Com a freqüência a uma faculdade, ao mesmo tempo em que vamos aumentando a carga de leitura de livros (obviamente) universitários, vamos também definindo nossas opções de trabalho, por meio de estágios e empregos na área de nossa graduação, em regra. Posteriormente, o tempo que gastávamos na faculdade vai sendo substituído pelo tempo que gastamos no trabalho, e o dinheiro proveniente de nossos rendimentos tende também a aumentar no decorrer do tempo.

A questão é que o gasto que fazemos desse salário não é preenchido para satisfazermos os velhos hábitos (internos) de outrora, mas sim para atender os anseios dessa sociedade (externa) de consumo. Primeiro, gastamos com a compra do aparelho celular e os respectivos créditos, depois, passamos a contratar uma linha pós-paga. Com o transcurso do tempo, temos a necessidade – ou o simples desejo – de comprar um carro, e sempre queremos o melhor carro. Com maiores salários, vamos à caça de upgrade de nossos gadgets, e, paralelamente, vamos aumentando os gastos com roupas – afinal, é uma exigência do trabalho! – e outros acessórios de uso pessoal. Em seguida, pensamos nas viagens, torramos nossas milhas (ou mesmo nosso dinheiro) em passagens caras, hotéis de primeira linha – afinal eu mereço! – e passeios, para compensar anos de dedicação e uma jornada de trabalho extenuante. É uma bola de neve, que não para a menos que haja um processo de reflexão. Afinal, que vida é essa onde ganhar “a vida” gastando o salário se parece mais com ganhar “o salário” gastando a vida?

Será que satisfazer expectativas dos outros vai realmente tornar a sua vida melhor e mais produtiva (se é que esses “outros” carregam alguma expectativa sobre nós)? Não está na hora de você se reconectar aos antigos hábitos que não custavam nada (ou custavam pouco), priorizando valores que preencham as suas reais necessidades interiores (e não apenas fazer o que todo mundo faz apenas porque é isso que todo mundo pensa)? Na faculdade, certamente você não jantava em restaurantes caros com seus amigos, mas provavelmente no RU (= restaurante universitário). Não estou falando para você voltar a almoçar no RU, mas sim para reavaliar se os custos de um jantar não estão saindo caro demais, se os benefícios de uma boa conversa com os amigos continuam sendo exatamente os mesmos.

Da mesma forma, provavelmente as roupas que você veste agora são mais caras do que as roupas que vestia na faculdade, até por exigências do emprego, concordo. Mas, puxa, precisava estender um hábito restrito ao ambiente do emprego para toda a sua vida situada fora do emprego? Será que isso vai realmente melhorar sua “aparência” (seja lá o que isso significa), se a pessoa que ia para a faculdade permanece a mesma?

Não é porque todo mundo faz a mesma coisa que você precisa necessariamente fazer o mesmo. O problema é esse: muitos de seus hábitos de consumo constituem meras reproduções automáticas de padrões de vida estabelecidos pela nossa sociedade. E qual é a solução? A solução passa necessariamente por uma avaliação de seus gastos em consonância com o tempo que você gasta com eles, tudo isso filtrado pelo espectro de seus valores e princípios de vida. Não há uma receita pronta. O exame é necessariamente individual. O que é bom para um pode ser veneno para outro.

Uma dica para te auxiliar nesse processo consiste em fazer o seguinte exercício de reflexão: você conseguiria viver sem tal produto ou serviço alguns anos atrás? O que lhe proporcionava satisfação 5, 10, 15 anos atrás?

Exemplificando: suponhamos que você queira uma TV de LCD de 52 polegadas. Examine sua vida atual. Examine sua vida de 10 anos atrás, quando não existiam essas TVs de tecnologia LCD ou plasma. Você conseguiu sobreviver sem elas durante todo esse tempo? Se você está lendo esse blog, suponho que sim. 😛 Fez realmente falta para você não ter tido uma TV LCD de 52 polegadas durante esses últimos 10 anos? Responda com sinceridade. Sua vida seria mais feliz, mais cheia de vida, com mais graça, se você tivesse em sua sala uma TVzona desse porte? Sua vida teria evoluído em qualidade e em valor nos últimos dez anos pela presença de uma super TV enchendo sua sala de estar (e esvaziando em proporção inversa o seu bolso)?

Outro exemplo: você gostava da atmosfera do campus universitário. Cheio de vida, pessoas jovens, uma biblioteca razoável (ou nem tão razoável assim, como no caso das bibliotecas de faculdades públicas – atenção, isso é uma constatação, não uma suposição), lugares interessantes, pessoas interessantes, coisas a fazer interessantes. Quem sabe até você não freqüentava um curso de idiomas e, depois das aulas, ia para um bar próximo da faculdade, contando cada centavo de suas suadas economias como estagiário.

O tempo passa, o tempo voa, e eis aqui você agora, com um bom trabalho, um salário melhor ainda, mas… preso no engarrafamento do trânsito, com relatórios a concluir (para ontem), mil e uma atividades a serem executadas, metas a cumprir, enfim, uma rotina estressante. Você pensa então em compensar suas necessidades psicológicas (de descanso do corpo, de paz para o cérebro), com bens materiais: à noite, durante a semana, assiste na TV a programação em alta definição de seus filmes favoritos (talvez para compensar a baixa definição de seu trabalho…), e, no final de semana, dá-lhe shopping! – se bem que, hoje, o shopping vai até você, por meio das lojas virtuais…

Não é mais interessante, mais divertido – além de mais econômico, claro – entregar sua energia vital para voltar a fazer aquele curso de idiomas que tanto lhe apetecia na boa época da faculdade, ou qualquer outra coisa que preenchia sua satisfação, mas que, por circunstâncias de faculdade e emprego, perdeu-se no meio do caminho?

Veja que você não tinha celular até o final dos anos 90 ou começo dessa década, e sobreviveu mesmo assim. Veja que você não tinha Internet até o final dos anos 90 ou começo dessa década, e sobreviveu mesmo assim. Veja que você não tinha um emprego antes da faculdade, e sobreviveu mesmo assim. Veja que você não tinha um salário antes de ser estagiário ou empregado, e sobreviveu mesmo assim. A pergunta é: você começou a ser feliz somente depois que começou a ter salário, ter celular, ter Internet, ter carro, ter roupas de marca, ter viagens para a Europa? O que você fazia antes que lhe proporcionava satisfação e sensação de tempo aproveitado? Que memórias boas você guarda de recordação das saudosas épocas de faculdade ou pré-faculdade? Não está na hora de fazer uma reconexão com os valores que você, no passado, cultivava por meio de atos concretos de fazer acontecer, mas que, por necessidade (de estudo, de emprego, de compensar o stress, seja lá o que for), perderam-se no meio do caminho?

Depois de muito refletir, você chegará a uma surpreendente conclusão: verá que o dinheiro gasto com as supostas diversões diminuirá na ordem inversa de seu grau de satisfação ou contentamento. Descobrirá, enfim, que a vida pode, sim, ser mais simples, sem perda alguma de qualidade. E, por fim, não deixe que padrões externos de uma sociedade consumista suprimam uma das liberdades internas mais básicas de sua vida: a liberdade de pensar por si mesmo(a). 😉

É isso aí!

Um grande abraço, e que Deus os abençoe!

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9 Responses to Em busca do tesouro perdido: a reconexão aos seus valores interiores

  1. rodpba 18 de fevereiro de 2010 at 16:27 #

    Mais um excelente post, Hotmar.

    Espero que você também consiga ler o que escreveu e concordar consigo mesmo. =)

  2. hotmar 18 de fevereiro de 2010 at 18:04 #

    Ôpa, obrigado, grande rodpba, do Fórum Clube do Pai Rico! 😀

    Eu fiz o que vc sugeriu: reli o post, e tenho a dizer que concordei comigo mesmo! 😉

    Atualmente, essa minha reconexão aos valores de outrora está situada em algumas frentes principais: volta da leitura descompromissada a obrigações típicas de estudo/trabalho, revisão das coleções (de músicas, principalmente), e reconexão ao estudo de idiomas.

    É um processo muito interessante e útil na medida em que lhe permite extrair o que lhe fazia sentir bem, direcionando melhor a sua energia vital para coisas que realmente fazem sentido e promovem algum tipo de sensação de bem-estar.

    É isso aí!
    Um grande abraço, e que Deus os abençoe!

  3. rodpba 3 de março de 2010 at 14:05 #

    Maravilha, Hotmar!

    Acho que essa é uma das melhores coisas a se atingir: coerência. Não pra dar satisfação a terceiros, mas para estar bem consigo e como você falou, direcionando a sua energia (que nos é escassa, ou melhor, não infinita) para algo que lhe promova o bem-estar.

    Confesso que não estou atuando neste sentido, mas também porque estou decidindo algumas coisas sobre a vida em geral.

    Desculpe a demora, agora que eu vi que tem a opção de receber os comentários pelo email!

    Um abraço!

  4. hotmar 3 de março de 2010 at 20:18 #

    Verdade, rodpba, coerência é uma das peças-chave para alcançar maior sensação de bem-estar na vida.

    Vc certamente alcançará seus desideratos com muita persistência e dedicação! 😀

    E realmente tem essa opção de receber os comentários por email, use e abuse das ferramentas do blog! 😀

    É isso aí!
    Um grande abraço, e que Deus os abençoe!

  5. Investidor de Risco 29 de maio de 2012 at 21:37 #

    Guilherme, tudo bem? Estou passando neste momento por um processo parecido com o que você passou há 3 anos… tenho sentido uma enorme satisfação em buscar informações, reler livros e textos esquecidos… esta experiência tem sido acompanhada por alguns amigos que já estão despertando o interesse em se aventurar neste mundo da leitura e da escrita…
    Por fim, sua conclusão foi perfeita!!!

    Valeu!

  6. Guilherme 2 de junho de 2012 at 14:11 #

    Obrigado pelas palavras, IR!

    “Enjoy it”! 😀

    É isso aí!
    Um grande abraço, e que Deus os abençoe!

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